Interrogações e perplexidades

O silêncio do sempre estridente Bloco. A inatividade dos sempre pressurosos ativistas. O assobiar para o lado das consciências do regime. Tudo isto nos diz de quanto vale tudo quanto pregam.

1. Passei o último fim-de-semana em reflexão partilhada e muito bem orientada sobre a parábola do bom Samaritano. Esta parábola, porventura não tão exigente como a do filho pródigo, não deixa de nos interpelar e desinstalar. Quem é o próximo na parábola? Não é o bom samaritano, o homem da Samaria, o mal visto naquela estrutura social, o excluído?

Há cerca de três anos, em Windsor, a minha filha teve uma paragem de digestão com sinais alarmantes. Nenhum dos transeuntes parou em nosso auxílio. Do outro lado da rua, à porta de um estaminé de kebab e falafel, dois homens árabes conversavam. Quando se aperceberam da nossa aflição, vieram em nosso socorro sem hesitação, de imediato subiram a uma casa em busca de água quente com açúcar, a sua preocupação era genuína, a sua ajuda fundamental, a sua presença reconfortante. Ficaram connosco até tudo estar bem de novo. Foram o próximo na nossa parábola pessoal.

Nestes dias vivemos horrorizados por mais um atentado terrorista em França. Não conseguimos compreender a presença de tanto mal entre os homens. Choramos as vítimas e choramos o perpetrador, uma vida desperdiçada na entrega ao mal destruidor. Confesso que me falta compreensão para o terror, que me assusta a dimensão do humano que envereda por esta escuridão sem retorno.

Ao mesmo tempo, soubemos de um magrebino que recrutava futuros terroristas entre os refugiados que procuravam o nosso acolhimento. Sim, homens e mulheres que fugiam da guerra, da fome, da morte, do terror diário. Era suposto virem à procura de paz, de alimento, de segurança, de algum conforto. O que os levará a ponderar integrar noutra terra a legião da morte e do terror? Fará isto sentido? O que nos escapa?

Pois é, quem esperava respostas, desengane-se. Só me restam perguntas. Só posso partilhar inquietações, com a certeza absoluta de que não podemos desistir de encontrar respostas humanas, que fomos interpelados a ser o próximo.

2. Ouvi uma vez Fernando Rosas admitir que, à luz da ciência política e do rigor histórico, o Estado Novo não poderia ser classificado como fascista, o que é verdade. Ainda assim, dizia que, sendo o fascismo um símbolo da injustiça, da segregação, da opressão e da intolerância, não via problema em que a nível do “povo”, e para simplificar, o Estado Novo fosse genericamente conhecido como o fascismo português.

Na soberba com que gasta os dinheiros públicos, o nosso dinheiro, para reescrever a história de modo a “educar” convenientemente o tal “povo”. Na absoluta homofobia como se referiu a Adolfo Mesquita Nunes e ao CDS, o partido realmente mais inclusivo da terceira república. Na arrogância que sempre manifestou com quem ousa pensar diferente. Podemos, com segurança, usar os amplos conceitos de Rosas, não estaremos mal se o reconhecermos como o grande protagonista do novo fascismo português.

O silêncio do sempre estridente Bloco. A inactividade dos sempre pressurosos activistas. O assobiar para o lado das consciências do regime. Tudo isto nos diz de quanto vale tudo quanto pregam. Iria buscar o Frei Tomás, mas não merece, nem ele, ser misturado com tal qualidade de gente.

3. O relatório sobre os trágicos incêndios foi conhecido estes dias. As conclusões são tão evidentes quanto dramáticas. Fosse Costa uma pessoa de bem e saberíamos o que esperar. Como não é o caso, resolveu ir limpar as matas, sinalizando com isso a passagem das responsabilidades do Estado para os particulares e a fuga ao investimento em meios reais de prevenção e combate. Resta-nos esperar pela sorte e pelo acaso, enquanto assistimos à podre desresponsabilização de quem ocupou o Governo da nação.

Nesta matéria e no escândalo do financiamento do Montepio pela Santa Casa, esteve bem Rui Rio, a ter a primeira intervenção política digna de registo positivo desde que é poder no PSD. É manifestamente insuficiente para o cargo que ocupa, mas era preciso ser feito e é bom que tenha sido feito.

Uma última nota, ainda à volta desta tragédia, para o miserável ataque feito a uma das lutadoras em nome das vítimas pela sua aproximação a Assunção Cristas e ao CDS. Para algumas e alguns fascistas dependentes do Estado, no conceito alargado de Rosas, os direitos cívicos e a liberdade de opção política estão vedados a quem dá voz à defesa das vítimas. Ficámos esclarecidos sobre o que queriam do 25 de Abril.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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