8chan. A casa online dos neonazis continua offline depois do massacre no Texas

O atentado na Nova Zelândia foi o primeiro de quatro a ser anunciado nesta plataforma. Depois do ataque perpetrado contra muçulmanos, o autor do tiroteio em El Paso, Texas, que tirou a vida a menos 22 pessoas usou a mesma fonte para deixar a sua mensagem de supremacia branca.

O espaço online para neonazis 8chan ficou offline na segunda-feira e continua encerrado desde então, pelo menos para já. Este fórum tem sido usado por extremistas para partilharem manifestos racistas que inspiraram massacres nos Estados Unidos e na Nova Zelândia.

O mais recente foi o massacre de 22 pessoas no sábado em El Paso, no estado norte-americano do Texas. Em reação à ligação deste ataque com o fórum, duas empresas cancelaram o fornecimento de serviços, desligando assim a ficha à 8chan, noticiou a Associated Press.

Primeiro, foi a empresa de segurança Cloudflare a anunciar o cancelamento do seu contrato com a 8chan, o que impossibilitou a sua permanência online pelo risco de ataques a que um fórum que promove o ódio está sujeito.

A 8chan rapidamente encontrou um novo refúgio na Sammamish, detida pelo norte-americana Epik.com, que por sua vez detém a empresa de segurança Bitmitigate. Mas uma empresa de Londres, a Voxility, que providencia redes e serviços para a Epik, cancelou o seu contrato com a companhia, devido à sua ligação com os ataques que culminaram em massacres, segundo a Associated Press.

Ao todo, e desde apenas finais de 2018, este é já o quarto caso. Antes do autor do tiroteio de El Paso, já outros terroristas como o responsável pelo ataque à sinagoga de Pittsburgh (27 de outubro de 2018, 11 mortos), o autor do atentado em Christchurch na Nova Zelândia (15 de março de 2019, 51 mortos) e o atacante da sinagoga de Poway (27 de abril de 2019, 1 morto) publicaram os seus manifestos na secção /pol/ do 8chan, que pretende reunir todas as discussões que possam ser classificadas de “politicamente incorretas”.

No domingo, Frederick Brennan, criador do site contou ao New York Times que o 8chan deve ser fechado, afirmando que “não está a fazer bem ao mundo”.

“É negativo para todos a não ser para os utilizadores que lá estão. E sabem que mais? É negativo para eles, também. Só não se apercebem disso”, afirmou o dono do site, ao jornal nova iorquino.

A Cloudflare, empresa responsável por prestar serviços como proteção de ataques cibernéticos ao 8chan, anunciou esta segunda-feira que iria cortar realções com o fórum, o que pode vir a deixá-lo inoperacional, pelo menos durante algum tempo. “O 8chan provou repetidamente ser um esgoto de ódio”, explicou o CEO da Cloudflare, Matthew Prince, num artigo publicado no blog da empresa.

Contudo a empresa só mudou de posições recentemente. Antes de anunciar o corte de relações com o Daily Stormer, um site de extrema-direita conhecido pelos conteúdos anti-semitas e neonazis, Prince declarou que a Cloudflare era como “a Fedex da Internet”. “Passamos as mensagens, mas não olhamos para dentro das encomendas”, declarou na sequência dos atentados de Christchurch, na Nova Zelândia, para justificar a decisão de não cancelar a sua relação comercial com o 8chan.

O próprio CEO reiterou essa posição na noite do massacre de El Paso, este sábado, num telefonema com uma jornalista do The Guardian: “Se pudesse agitar uma varinha mágica e fazer desaparecer as coisas más que há na Internet, e pessoalmente poria o Daily Stormer e o 8chan nessa categoria,, agitaria essa varinha já amanhã”, declarou Matthew Prince. “Seria a coisa mais fácil do mundo e a nós saber-nos-ia muito bem atirar fora da nossa rede o 8chan, mas creio que isso nos afastaria da nossa obrigação e da causa que faz com que esta comunidade continue a existir e seja cada vez mais sem lei ao longo dos tempos.”

8chan: O pântano de discurso de ódio e fanatismo

O extremismo tem sido tema central para a identidade do 8chan desde que foi fundado, em 2013, pelo programador de computador e autoproclamado eugenista Fredrick Brennan. Desde então, Brennan distanciou-se das publicações e cortou os laços com o site.

No 8chan, o tom da conversa é de humor negro e perturbador, em que a retórica odiosa sobre judeus, muçulmanos, mulheres e outras minorias é abundante. Grande parte das piadas são sempre “meio sérias” e “só a gozar”. Mas as suas consequências no mundo real são dificilmente uma piada.

“Façam a vossa parte e espalhem isto, irmãos.” Foi este o pedido deixado no final do manifesto do principal suspeito do tiroteio que matou pelo menos 22 pessoas e deixou outras 26 feridas este sábado.  O texto foi colocado online por volta das 10 horas da manhã, minutos antes de o homem de 21 anos abrir fogo num supermercado em El Paso (Texas), uma das cidades norte-americanas com maior percentagem de população latina (83%). Horas depois, a comunidade discutiu o tiroteio, com preces para o aumento do número de mortos e com honras ao atirador: “o nosso rapaz”, cita o The Guardian.

Segundo o jornal britânico, o 8chan tornou-se um pântano de mensagens de ódio e racistas. Lá os utilizadores podem criar, moderar e comentar tópicos, abordando temas tão distintos como desenhos animados, moedas virtuais, videojogos ou política. A grande parte dos utilizadores participa sob anonimato e a única regra é que não pode ser colocado online material considerado ilegal nos Estados Unidos.

O forum tornou-se no local perfeito para albergar e expandir discursos terroristas. Brennan oferecia total liberdade de expressão e prometia não apagar nenhuma conversa.

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