A arte de não ceder um milímetro

Todos nós caímos no pecado da tudologia. É difícil de resistir a uma discussão em que sentimos que a nossa opinião é válida ou – imagine-se – pode acrescentar algo de novo.

Na Infopédia, a palavra “tudólogo” é definida como um termo depreciativo e irónico, referente a uma pessoa que opina sobre todo e qualquer assunto, assumindo-se sempre como pretenso especialista, independentemente da matéria em questão. Posto nestes termos, podemos concluir que, nunca como hoje, a tudologia se tornou um hábito que se infiltrou sorrateiramente na sociedade e se estabeleceu com uma convicção perniciosa em todo o lado. Todos nós caímos no pecado da tudologia. É difícil de resistir a uma discussão em que sentimos que a nossa opinião é válida ou – imagine-se – pode acrescentar algo de novo.

A tudologia é facilmente perdoável quando é operada nas nossas casas ou em círculos restritos de amigos e familiares. Torna-se muito mais difícil de lidar em ambientes online. Adepta como sou das redes sociais, e utilizadora frequente, consigo discernir entre conteúdos de qualidade e conteúdos que mais não são do que ruído e espuma dos dias. Mas a verdade é que estamos a ficar progressivamente esgotados pela facilidade de comentar publicamente todos os assuntos da atualidade – com ou sem conhecimento – que se atravessam no nosso caminho, de forma a garantirmos que a nossa voz continua a sobressair e a ser ouvida.

Existimos em plataformas online que garantem que a nossa opinião se propaga para além dos nossos restritos círculos pessoais. Tornámo-nos vozes digitais que existem sem paredes e que podem ser elogiadas, questionadas ou arrasadas a qualquer momento. Este modelo de discussão está condenado a falhar pela própria limitação das plataformas que encorajam todas as vozes a se afirmarem no mesmo patamar de igualdade de conhecimento, fazendo com que uma blogger possa emitir uma opinião tão informada quanto uma nutricionista sobre dietas.

É preciso lembrar que as discussões online em que nos envolvemos diariamente não são, na verdade, debates. A discussão online transformou-se na arte de não ceder um milímetro que seja, numa troca de informação e contrainformação sobre qualquer que seja o tema fraturante do momento: eutanásia, o útero e vagina das mulheres, racismo, xenofobia, misoginia, corrupção e tudo o resto que ocupar a agenda mediática do dia. O desafio no futuro será encontrar novas plataformas digitais que permitam deixar para trás este ambiente tóxico e pouco produtivo entre os participantes.

Todos contribuímos, de uma forma ou de outra, para este problema. Entranhou-se nos nossos hábitos sociais após anos em que nos acomodámos à troca fácil de argumentos online, deixando para trás o debate cara a cara entre pessoas com saber e conhecimento na matéria. Mas como é que as nossas personas digitais se podem convencer de que estão tão certas nos seus argumentos infalíveis, se são raras as vezes que atravessamos a vida com certezas absolutas?

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