A Caixa dos segredos

Recordo: devido a um pacto político estabelecido no Parlamento, a que se juntaram o PCP e o BE, nunca conheceremos os nomes dos responsáveis por tudo aquilo que aconteceu na Caixa Geral de Depósitos, o banco do ‘sistema’, há muito governado por PS, PSD e CDS

O défice do Estado português em 2017 passou a questão de fé. No centro está a recapitalização da CGD. Nas alas joga-se o habitual pingue-pongue entre peões do Governo, que contava com o apoio da Comissão Europeia, e da oposição, mediocremente feliz pela decisão do Eurostat.

Não dou para esse peditório e prefiro relembrar um episódio passado no Parlamento português, em meados do ano passado, quando os deputados do PCP e BE ajudaram o (Governo do) PS, perante a indignação hipócrita de PSD e CDS, partidos que durante décadas também contribuíram para o festim na CGD, a fazer com que os portugueses ficassem para sempre na ignorância do que se passou no banco do Estado.

Basicamente, os deputados rejeitaram a uma comissão de inquérito à CGD o acesso que dois tribunais superiores haviam permitido a alguns documentos importantes, sepultando nomes e números de grandes devedores. Nunca saberemos, portanto, quantos negociantes, como José Berardo, levantaram dali dinheiro sem as necessárias garantias. E, tão ou mais importante, quem assinou esses levianos processos que agora custaram 3,944 mil milhões de euros aos contribuintes. Recordo este processo político por contraste com os outros processos mais ou menos públicos.

Os grandes números da derrocada bancária em Portugal são conhecidos. Em termos líquidos, os contribuintes pagaram até ontem cerca de 17 mil milhões de euros. A partir de hoje terão de pagar até mais 792 milhões de euros para acudir a prejuízos e a reestruturações do Novo Banco. A verba não para de crescer! Apenas as operações de ajuda ao BCP e BPI, no âmbito da parcela a isso destinada no envelope da troika, acabaram positivas: 211,4 milhões e 167,5, respetivamente, pelos juros pagos.

Como diria Guterres, basta fazer as contas. Aos 3,9 mil milhões de euros aplicados na CGD, que acabam de fazer subir “o mais pequeno défice em Democracia” para os 3% do PIB, juntam-se (oficialmente…) 3,7 mil milhões para o BPN, 5,1 mil milhões para o BES, e ainda cerca de 4,5 mil milhões em juros pelas ajudas financeiras nos últimos dez anos, contemplando também os defuntos BPP e Banif.

No orçamento do ano que corre, 2018, o seguimento destes processos de regeneração dos bancos exige ainda uma rubrica de mil milhões! Mas, para além do dinheiro, os processos de falência do BPN, BPP, BES e Banif deixaram também rostos. Conhecem-se os crimes que foram, ou terão sido, no entendimento do MP, cometidos por Oliveira e Costa, João Rendeiro ou Ricardo Salgado. Percebe-se o que valeu a gestão de Francisco Bandeira, colocado por José Sócrates no BPN. São públicos os casos que envolveram Duarte Lima, Dias Loureiro, etc. Em resumo: sabe-se alguma coisa sobre bastantes pessoas.

Na CGD, ao contrário, exceção feita ao trabalho de avaliação de risco efetuado pelo ‘vice’ Armando Vara em Vale do Lobo, nunca se saberá coisa alguma sobre quem quer que seja. É uma diferença significativa que temos de agradecer aos deputados de todos os partidos. Aos do sistema, que durante décadas dominou a instituição – PS, PSD e CDS – e aos novos silenciadores, do PCP e do BE.

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