A despedida de Zidane

Tal como Guardiola no Barcelona, em 2012, Zidane não quer ser ele a começar a afastar, no Real Madrid, agora mesmo, alguns os homens com quem viveu estes três últimos extraordinários anos da sua vida de treinador e a começar a necessária mudança

Olhemos com atenção para a equipa do Real Madrid. A chamada BBC (Bale-Benzema-CR7) já teve melhores dias. O guarda-redes (Keylor Navas) é vulgar. O ‘capitão’ Sérgio Ramos e o ‘motor’ Modric têm 32 anos. Na equipa, todos os jogadores já ganharam tudo a nível de clube. E, através das respetivas selecções, há futebolistas que foram campeões do mundo (Ramos, Kroos) e da Europa (Ronaldo, 33!). Repare-se, ainda, que nos últimos dez anos o Real Madrid só por duas vezes ganhou a Liga (contra sete vitórias do rival Barcelona). E, no entanto, nas cinco temporadas mais recentes, enquanto ganhou uma Liga de Espanha ganhou quatro Champions.

O que quer isto dizer?

Quer dizer que o Real Madrid atual só se motiva fortemente na grande competição. A Liga diz pouco aos seus jogadores, alguns dos quais nem sequer escondem que gerem a época no sentido de estar bem nos três/quatro meses finais, quando se decide a ‘sua’ Champions.

É por isto que o abandono de Zidane do cargo de treinador do Real Madrid só é surpreendente por não ter sido antecipado pelos rumores. Mas até nisso o francês mostrou a sua capacidade de gerir a carreira com total autonomia. De resto, não há nada de especial. No desporto, é natural que os verdadeiramente grandes saibam sair por cima e, sobretudo, que saiam quando não querem ser eles a destruir aquilo que construíram.

O que faz Zidane é imitar o Guardiola de 2012, quando este deixou o Barcelona depois de quatro anos de êxitos, nos quais ganhou 13 títulos durante o melhor período da história do clube catalão.

Guardiola não quis ser ele a começar a despedir alguns dos homens com quem viveu aqueles extraordinários anos. Com a sua exigência e rigor, algumas retiradas teriam sido antecipadas ou mais sofridas. Zidane está no mesmo ponto. A época acabou bem mas teve períodos muito maus. E não quer ser ele, que já retirou algum protagonismo a Bale, quem diga a Benzema que tem de partir; a Ronaldo que tem de emigrar definitivamente para a grande área e jogar com um novo criativo por detrás; a Sérgio Ramos que vai chegar um novo central para competir a sério pela titularidade (e não um complemento como Nacho); a Ascensio, sempre brilhante na seleção, que deve continuar a aguardar melhores dias enquanto jogam Modric e Kroos.

Enfim, o que há que fazer em Madrid é abrir um novo ciclo. A equipa precisa de outro treinador porque é preciso desenvolver um novo projeto, com certeza incorporando um novo líder (Neymar?) ou, pelo menos, recrutando dois ou três novos grandes jogadores (da estirpe de Kane, Salah, De Bruyne ou equivalentes) que tenham vontade de ganhar todos os dias e não só nas noites da Liga dos Campeões.

Zidane, com a elegância com que jogava e agora treina, deve ter dito isso a Florentino Perez, como Guardiola o terá dito a Sandro Rosell. A diferença estará em que no Barcelona o caminho de sucessão foi interno, numa primeira fase (seguiu-se o infeliz Tito Vilanova, que era adjunto, e depois ‘Tata’ Martino, patrocinado por Messi), até se chegar aos sucessos de Luís Enrique, que repetiu o ciclo e a despedida. No caso do Real Madrid a sucessão será feita por fora. O perfil desse treinador já dirá um pouco daquilo que serão os próximos tempos, se a sucessão será feita por fases ou ‘à bruta’. Também por isso Cristiano Ronaldo vai ter que estar atento ao que segue.

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