A destruí-lo a esta velocidade… façamos já as malas rumo a um novo planeta!

Que há mão do Homem em quase todas as alterações climáticas, há. Que é também pelas suas mãos que passa a possibilidade de travar a fundo e inverter a situação, ninguém duvida. Mas atenção: o planeta não parece estar para grandes contemplações e está em ritmo acelerado rumo ao fim. O passado dia 19 de […]

Que há mão do Homem em quase todas as alterações climáticas, há. Que é também pelas suas mãos
que passa a possibilidade de travar a fundo e inverter a situação, ninguém duvida. Mas atenção: o planeta
não parece estar para grandes contemplações e está em ritmo acelerado rumo ao fim.

O passado dia 19 de agosto, batizado de “Earth Overshoot Day”, deve ficar assinalado nas nossas agendas a vermelho como o dia em que a pegada ecológica ultrapassou a capacidade regenerativa do planeta. As contas foram feitas pela Global Footprint Network (GFN), que leva esta tarefa ao pormenor desde o ano 2000. E apesar de nos debruçarmos sobre todos os números, se mais nada ficar, retenha a conclusão: esgotámos o plafond (há um ano atingimos esta situação a 20 de agosto). Ou seja, em menos de oito meses, foi ultrapassada a capacidade regenerativa do planeta, que se traduz na capacidade de produzir o que precisamos e de absorver o que produzimos. O grupo de reflexão esclarece ainda que este seu cálculo é obtido dividindo a capacidade biológica global pela pegada ecológica da Humanidade, passando depois à multiplicação desse valor pelo número de dias do ano que restam até atingir o valor disponível, isto é, chegar ao ponto em que se gasta mais do que aquilo que se tem.

Assim, como à altura destas contas estavam a faltar sensivelmente quatro meses e meio para o final do ano, é possível afirmar que precisamos de uma Terra e meia para ter um ecossistema sustentável. A organização estima ainda que este valor duplicou desde 1961, e com base nas estimativas de crescimento da população e nas respetivas necessidades alimentares e energéticas, a meio deste século precisaremos de três planetas.
Simplificando, importa salientar que a pegada ecológica é definida pela quantidade de dióxido de carbono que produzimos (através do consumo de combustíveis fósseis) e ainda inclui parâmetros como a desflorestação e a perda da diversidade.

De frisar ainda que o dióxido de carbono é o principal gás responsável pelo efeito de estufa e pelo aquecimento global. Atualmente, as atenções e preocupações estão concentradas no degelo acelerado nos Pólos, e o pesadelo pode resumir-se ao seguinte: se o “permafrost” (terra rica em biomassa que está congelada) se descongelar, serão libertadas quantidades “gigantes” de metano, um gás com um efeito de estufa 20 vezes superior ao do dióxido de carbono. Teme-se e desconhece-se o dia. Mas até lá a GFN sabe que cada vez mais será difícil fazer contas e, mais cedo do que o até agora previsto, poderemos precipitar-nos para a zona a evitar a qualquer custo – a vermelha.

Pegada portuguesa é das mais elevadas
A pegada ecológica de Portugal é uma das mais elevadas do mundo, e, aos níveis atuais de consumo, precisaríamos de 2,6 planetas para vivermos”, avança a organização internacional de defesa do ambiente WWF, no seu mais recente relatório designado por “Planeta Vivo 2014”. A tendência é geral, no contexto da União Europeia, e os combustíveis fósseis são os principais agentes, esclarece. E num tom entre o “murro no estômago e o despertar das mentes”, o relatório especifica que entre 151 países, Portugal é o 27.º na avaliação da pegada ecológica (a medida da pressão humana sobre a natureza).

Assim, os gastos dos portugueses são tão elevados que, para os manter, seriam precisos os recursos naturais equivalentes a 2,6 planetas semelhantes à Terra, evidenciando-se ainda a nossa reduzida biocapacidade (possibilidade de repor os recursos). “Aos níveis atuais de consumo, precisaríamos de 2,6 planetas para vivermos, o que é completamente insustentável”, avisa a coordenadora do programa da WWF em Portugal, Ângela Morgado, em declarações à Lusa. A tendência nacional é “seguida em toda a Europa”, segundo a mesma responsável. Portugal tem uma pegada ecológica idêntica à média da União Europeia (4,6), com a Bélgica a ser o membro comunitário que maior pressão exerce sobre a natureza.

“A principal componente dessa pegada, o que a torna elevada, é o consumo de combustíveis fósseis, é o carbono, [que] chega a representar 50% e, em Portugal representa 41%, com um ligeiro decréscimo”. Um decréscimo que acredita que tenha sido motivado pela crise económica. Ainda sobre Portugal, a WWF revela que a pesca (responsável por 22% da nossa pegada ecológica), a agricultura e as pastagens, registaram “um ligeiro aumento”.

Neste contexto, a organização frisa que “são necessárias mudanças” no comportamento dos indivíduos e das empresas para corrigir este grave desequilíbrio, sob o risco de a Terra se esgotar muito mais rápido que o previsto. Como os combustíveis fósseis são os principais agentes na pegada ecológica nacional, Ângela Morgado sustenta a necessidade de as “mudanças” começarem pela mobilidade, seguida pela alimentação. “Temos de perceber qual a origem” dos produtos “para tentarmos reduzir ao máximo o componente do carbono”, explica.

Portugueses com preocupação q.b.
Segundo elucidou ao OJE Luisa Schmidt, investigadora principal do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa que acaba de lançar o livro “Ambiente, Alterações Climáticas, Alimentação e Energia: a opinião dos portugueses”, estes estão a preocupar-se cada vez mais com o ambiente porque “sentem o ambiente como fazendo parte da sua qualidade de vida, sobretudo no acesso aos recursos e no uso dos espaços públicos comuns. Acresce que as gerações mais novas, que já aprenderam educação ambiental nas escolas, estão mais atentas, são mais exigentes e conhecedoras dos problemas ambientais, pelo que se preocupam mais”.

Mas os portugueses preocupam–se especialmente com a poluição da água e do ar. O que, para a investigadora, se explica, por um lado, com a degradação dos rios que as pessoas viram “ocorrer perante a inoperância dos poderes públicos”, por outro, a população continua a não estar informada sobre a qualidade do ar e, por isso, “temem o que não conhecem”. “Além disso, o país é atravessado pelo cheiro de algumas indústrias – como as celuloses e as petroquímicas – que, apesar de serem poucas, fazem sentir bem a sua presença”, explicou ainda.

Quanto a práticas ambientais, Luisa Schmidt aponta os portugueses como “menos ativos que a média dos europeus” mas ainda assim, esclarece, que se empenham sobretudo na separação dos resíduos sólidos urbanos. “Nota-
-se uma clara evolução positiva, o que significa que, quando há políticas específicas e infraestruturas que facilitem a vida aos cidadãos, eles colaboram”. Quanto ao que pode ser feito, e por quem, para tornar os portugueses mais ativos nestas matérias, a investigadora frisa que as escolas desempenham um papel crucial para as gerações mais novas e, por isso, devem ser mantidos os programas de educação ambiental. Na sua opinião, também os media têm “um papel acrescido de responsabilidade social que não tem sido devidamente assumido pelos seus responsáveis”, e termina apontando que é preciso reintroduzir o ambiente nas agendas pública, mediática e política. “É um tema que se articula diretamente à nossa qualidade de vida e aos bens públicos comuns e com o qual os portugueses em geral demonstram preocupação e vontade de saber mais”.

Crise “atrasa” Portugal na corrida das alterações climáticas  
A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) veio reconhecer que a crise económica alterou o foco da política nacional e levou a uma redução da prioridade dada à adaptação às alterações climáticas. A posição de Portugal está referida num documento recentemente divulgado pela Agência Europeia do Ambiente (EEA), que reuniu respostas de 30 países sobre a definição e concretização de políticas de adaptação.

Sobre o que está a faltar para avançar nesta matéria, a APA respondeu: “A crise económica e financeira mudou o foco da política nacional, levando a uma redução [da atenção] à prioridade da política de adaptação. A recente reestruturação da administração pública [as perguntas foram enviadas em maio de 2013] teve sérias consequências nos prazos, com consideráveis atrasos. O financiamento é um desafio importante, dadas as prioridades para a recuperação económica, no curto prazo”.

O coordenador do projeto “Adaptação às Alterações Climáticas e Economia da EEA”, Stéphane Isoard, disse à agência Lusa que “Portugal tem uma estratégia de adaptação às alterações climáticas há já algum tempo, desde 2010, e trabalhou na avaliação e identificação dos riscos e impactos relacionados” com este assunto, nomeadamente no projeto SIAM, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. “Na maioria dos países europeus, o próximo passo será começar a concretizar ações. O trabalho feito até agora foi perceber quais serão os impactos das alterações climáticas e onde se localizarão e planear, agora há que avançar ações no terreno”, referiu o especialista.

O relatório “Processos Políticos Nacionais de Adaptação nos Países da Europa – 2014” concluiu que mais de três quartos destes Estados já têm a adaptação às mudanças do clima nas suas agendas políticas e quase todos referem que fenómenos climáticos extremos exigem respostas. Para três quartos dos países, é a falta de recursos, como tempo, dinheiro ou tecnologias, o obstáculo que os impede de concretizar medidas, mas, apesar das dificuldades, metade dos países reportou uma grande ou muito grande vontade de desenvolver medidas e de adaptar-se.

Em Portugal, os fatores que influenciaram a adaptação foram os eventos climáticos extremos, os custos dos estragos e a investigação científica. A APA lista alguns exemplos para mostrar que já existe integração da adaptação em vários setores, como a saúde, com o plano de contingência para vagas de calor e o controlo de vetores, relacionado com algumas doenças, ou os planos para gestão da orla marítima. A avaliação relacionada com a vulnerabilidade e o risco a nível nacional já cobre metade dos setores indicados pela EEA, como agricultura e floresta, biodiversidade, saúde, água ou turismo, mas ainda não chegou ao ordenamento do território e urbanismo, indústria, seguros ou património. Quanto ao financiamento da adaptação nos setores têm verbas do orçamento do Estado as áreas costeiras, enquanto a agricultura, a floresta, biodiversidade e água contam com outros montantes públicos. Os seguros cobrem a agricultura, os serviços e a indústria.

Aquecimento em terra e no mar
O relatório anual “Explaining Extreme Events of 2013 from a Climate Perspective” (Explicação dos Acontecimentos Extremos de 2013 de uma Perspetiva Climática), publicado no Boletim da Sociedade Meteorológica Americana, analisou 16 eventos extremos que incluem chuva, inundações, seca e tempestades. Estes foram os eventos com maior impacto e por isso suscitaram o interesse dos cientistas (92 cientistas de todo o mundo).

De entre as principais conclusões, importa salientar que a ligação mais certa entre os acontecimentos climáticos extremos e a queima de combustíveis fósseis foi identificada na Austrália, onde a influência humana agravou substancialmente tanto a probabilidade como a severidade das ondas de calor no país. Segundo Peter Stott, um dos editores do estudo, os estudos “revelaram que as hipóteses de observar tais temperaturas extremas na Austrália num mundo sem alterações climáticas antropogénicas [causadas pelo Homem] são praticamente nulas”. O documento avançou também que os verões extremamente quentes que se verificaram no Japão, na Coreia e na China ficaram a dever-se “muito provavelmente” às alterações climáticas de causa humana. Por outro lado, os investigadores identificaram causas tanto naturais como humanas no verão quente e seco da Europa Ocidental. Sendo que as causas humanas foram também apontadas para explicar as fortes chuvas, que caíram na Índia em junho.

E num registo bem mais positivo, juntamos ainda neste contexto um recente estudo da Agência Espacial dos EUA – NASA, dedicado ao aquecimento das águas profundas do oceano. Os cientistas do Laboratório de Propulsão da NASA garantem que as águas mais profundas dos oceanos na Terra “não aqueceram tanto quanto se imaginava”. De acordo com este estudo, as águas mais profundas não aqueceram de forma esperada (no período compreendido entre 2005 e 2013), revelando assim que esse aquecimento não contribuiu para a elevação do nível do mar. Josh Willis, cientista da NASA especializado em clima no Laboratório de Propulsão em Pasadena, Califórnia, declarou à agência Efe que o aumento da temperatura corresponde a 20% das águas, e que ainda que tenha ficado aquém, não deixa de significar um contínuo aquecimento da temperatura média da Terra.

Sónia Bexiga

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