A Europa em carris

Numa altura em que os extremismos pululam aqui e ali, e em que o descrédito na capacidade representativa da UE segue ao mesmo ritmo, parece-me inteligente pensar o futuro com quem será futuro.

Não, este não é um título onde se usa uma analogia ou outra coisa qualquer, estou mesmo a falar de comboios e não da União Europeia (UE) ir tão bem que “vai de carris”, ou que vai tão mal que vai “fora da linha”. Estou, sim, a falar no InterRail europeu. E porque é que resolvi falar disso aqui? Porque parece ser uma medida avulsa e só com interesse para quem beneficiará da mesma, mas eu acredito que assim não é.

A criação do InterRail, em 1972, tinha propósitos políticos, que hoje se mantêm, e nos dias que correm parece ser não só uma política simbólica, mas mais do que isso: o sonho de viajar (só ou com amigos), pela Europa quando se tem a maioridade, passa assim a ser acessível a todos, ou pelo menos a mais jovens do que até aqui. Aliás, o investimento de cerca de 12 milhões, neste momento inicial, bem o prova.

E porque é que isto é tão importante? Além de reforçar o que já vem fazendo ao longo de décadas, ou seja, possibilitar uma troca de experiências entre jovens, aprendizagens e promoção de valores comuns, a medida que agora se apresenta, ou dar a possibilidade de fazer um InterRail gratuito para os jovens europeus que completem os 18 anos de idade, está em linha com um objectivo maior, que, a meu ver, é dar essa oportunidade de uma maneira igualitária. Claro que com alguns outros aspectos a considerar, o Programa Erasmus, por exemplo, também nem sempre foi para todos os estudantes que desejavam ter essa experiência, já que pressupõe a existência de uma base económica para o realizar. Mas, esse problema neste caso é minimizado exactamente pelo auxílio do pagamento do bilhete.

Mais. Esta acção contém uma mensagem, seja ela uma nuance ou algo mais visível, que não é de desconsiderar, especialmente depois da crise financeira que atingiu a maioria dos países europeus, assim como a corrosão da confiança nas instituições comunitárias por parte de muitos cidadãos do Velho Continente. Numa altura em que os extremismos pululam aqui e ali, em que o descrédito na capacidade representativa da UE segue ao mesmo ritmo, pensar o futuro com quem será futuro parece-me inteligente.

Claro está, vamos ver como a praxis ocorre, como as candidaturas e o processo mais detalhado serão organizados e quem, no final, terá, efectivamente, direito a estas viagens de um mês no valor de 510 euros. Espera-se que os menos informados, geralmente numa pior posição social, não sejam descurados, pois ainda que o bilhete esteja garantido, têm de, pelo que percebi da informação que foi divulgada, suportar os restantes gastos.

Conhecimento dentro e fora da sala de aula é essencial para o nosso progresso enquanto pessoas, países e UE. Resta saber se as instituições políticas, no “final do dia”, estão interessadas em cidadãos mais activos, que questionam certas decisões políticas, e que actuam porque conhecem melhor o mundo que os rodeia, além do dia em que vão votar.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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