A Europa não é só dos mercados

Itália e Espanha são o paradoxo daquilo que é a organização política europeia O resultado das eleições acaba nas franjas, nos extremos, no populismo, na novidade e, por vezes, na aberração.

Parece um contrassenso quando se fala em democracia, civismo e literacia e depois se conclui que afinal o relevante é a reação dos mercados financeiros. O caso mais recente leva-nos até Itália. Um dos países fundadores da CEE e um dos países mais fortes da União Europeia.

A crise política está instalada neste país há anos e a recente tentativa de formação de um Governo acabou com a desistência do primeiro-ministro indigitado, simplesmente porque o Presidente da República não aceitou um eurocético no cargo. O Presidente italiano, Sergio Mattarella, acabou por indigitar um primeiro-ministro interino, Carlo Cottarelli. O objetivo seria acalmar os mercados financeiros que reagiram violentamente – ao nível do valor das ações e do custo da dívida – a um eventual Governo cujo objetivo central fosse preparar a saída do euro.

Depois do Reino Unido, a questão italiana poderia colocar uma pedra sobre a previsível futura defunta UE. E sabemos que Itália, França e Alemanha não podem abandonar a moeda única. O fim (da UE) seria certo.

O tema complexo ganhou nova dinâmica quando o alemão Oettinger, o comissário europeu responsável pelo Orçamento, deixou no ar o espantalho dos mercados e o impacto que Itália poderá ter se, em caso de novas eleições legislativas, não votar bem. Ou seja, ou votam pela permanência ou votam pela saída e, neste caso, o “céu cairá” sobre a cabeça dos italianos e de todos os países do sul. Oettinger já foi repreendido, mas as sugestões ficaram.

O tema, porém, vai mais longe do que os mercados financeiros. Aliás, a orientação social e política de uma região não pode ser ditada pelo autoritarismo dos mercados, mas pela vontade dos cidadãos em termos deste ou daquele modelo. E é aqui que o grande dilema se coloca.

Tudo está a mudar na Europa. As pessoas, o pensamento e as vontades, a orientação política, social e económica. Os votantes maioritários de hoje desaparecerão dentro de 20 anos e os eleitores que hoje têm entre 40 e 60 anos não se revêm no sistema. Itália e Espanha são o paradoxo daquilo que é a organização política europeia. O resultado das eleições acaba nas franjas, nos extremos, no populismo, na novidade e, por vezes, na aberração. Em Itália, o M5E e a Liga dão cartas e são antissistema. Em Espanha ninguém liga ao PSOE e ao PP. Portugal não é um caso diferente porque, recordemos, foi criada uma geringonça em que poucos acreditavam no início. Apesar disso, é um casamento que tem resultado e com votos renovados.

O mundo ainda é dos mercados financeiros, mas a Europa e o ocidente estão a mudar com a criação de novas exigências e novas orientações. A democracia tem destas coisas. Exige novidades, soluções e caras novas. A Itália é um país quase sem défice, com um endividamento elevado, mas quase todo interno, e com uma economia que cresce sem necessidade de um governo perene.

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