“A Outra Face da Lua”: um poema de amor ao Japão

Entre 1935 a 1939, o belga Claude Lévi-Strauss lecionou sociologia na recém-criada Universidade de São Paulo, juntamente com outros professores integrantes da missão francesa, como o historiador Fernand Braudel.

Marta Teives

Graças a essa posição, viajou por regiões centrais do Brasil, como Goiás, Mato Grosso e Paraná, tendo publicado o registo dessas expedições no livro “Tristes Trópicos”, onde conta ainda como a sua vocação de antropólogo nasceu nessas excursões pelo meio dos índios.

É um Lévi-Strauss apaixonado pelo Japão que se encontra no livro “A Outra Face da Lua. Escritos sobre o Japão”, que reúne diversos escritos, inéditos ou impressos em publicações eruditas, por vezes unicamente no Japão, e redigidos entre 1979 e 2001. Da variedade destes textos surge um olhar curioso, amiúde generoso, sobre o Japão e os japoneses, e é notório o imenso respeito que nutre pela cultura nipónica: “Não ignoro as elevadas lições que a civilização japonesa tem em reserva para o Ocidente, se este as quiser escutar: que, para viver no presente, não é necessário odiar e destruir o passado; e que não existe obra cultural digna desse nome que não dê lugar ao amor pela natureza e ao seu respeito. Se a civilização japonesa conseguir manter a balança estável entre a tradição e a mudança, se preservar o equilíbrio entre o mundo e o homem e souber evitar que este não arruíne e não conspurque o outro, se, numa palavra, se mantiver persuadida, de acordo com o ensinamento dos seus sábios, de que a humanidade ocupa esta terra a título transitório e que esta breve passagem não lhe dá qualquer direito a causar prejuízos irremediáveis num universo que existia antes e que continuará a existir depois dela, então talvez tenhamos uma ténue hipótese de que as sombrias perspectivas com as quais se encerra este livro, pelo menos numa parte do mundo, não constituam as únicas promessas às futuras gerações.”

Nascido em Bruxelas, no seio de uma família de origem judaica, em 1908, fez os estudos secundários e superiores em França, país onde morreu, em 2009, tendo sido o primeiro membro da Academia Francesa a atingir os 100 anos de idade. Nome fundamental no estruturalismo, movimento que marcou profundamente o pensamento nos anos 1970, fez parte de um grupo de intelectuais franceses – que incluiu Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Michel Foucault, Roland Barthes e Jacques Derrida – cuja influência foi muito para além da sua área específica, pois praticava a filosofia num sentido lato.
“A Outra Face da Lua. Escritos sobre o Japão” é editado em Portugal pela Temas e Debates.

A sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante.

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