Ainda há espaço para bolsas caírem mesmo que risco de Itália estabilize

Os juros das dívidas soberanas disparam e as bolsas caem devido à instabilidade política na Europa. Os analistas recomendam cautela e sublinham que, mesmo que as ‘yields’ estabilizem, as ações poderão manter tendência negativa.

Hugo Correia/Reuters

Sem capacidade de formar governo e com perspetivas de novas eleições legislativas no final do ano, Itália está a abalar os mercados europeus, em especial dos países do sul. Os juros das dívidas soberanas dispararam e as bolsas caíram esta terça-feira.

Os analistas consideram que as yields irão continuar a balançar ao ritmo da instabilidade política, enquanto as bolsas ainda têm espaço para cair mesmo que haja uma estabilização do mercado de dívida.

“Em Itália, a instabilidade política mantém-se com o Presidente da República a indicar Carlo Cottarelli como ministro. O que o mercado vai tentar perceber é se os partidos do governo irão aprovar esta nomeação, levando as yields italianas a estabilizar e os mercados a recuperar, ou se pelo contrário, se não houver consenso, as bolsas europeias serão arrastadas pela possibilidade de eleições antecipadas”, explicou Carla Maia Santos, senior account manager da XTB.

O economista Cottarelli foi convidado esta segunda-feira, pelo presidente, a formar um governo e apresentar ao Parlamento um programa que leve o país a novas eleições.

Investidores fogem do sul da Europa para a Alemanha

No reação dos investidores, através do mercado secundário de dívida, foi expressiva. As yields das Obrigações de Itália a 10 anos subiram 48 pontos base para 3,16%, as de Espanha 9,6 pontos para 1,62% e na Grécia 31 pontos para 4,799%.

No caso de Portugal, os juros das Obrigações benchmark subiram 12,2 pontos base para 2,19%, depois de terem tocado os 2,5% durante o dia, em máximos desde de setembro do ano passado.

Em sentido contrário, o ambiente proporcionou uma fuga para ativos de menor risco, com a procura por dívida soberana alemã a aumentar. A yield das Bunds a 10 anos tocaram os 0,26%, em mínimos desde abril de 2017. João Pisco, analista financeiro e de mercados do Bankinter Portugal considera que o alargamento dos spreads de risco da periferia é “algo exagerado, sobretudo nas maturidades mais curtas da dívida italiana”.

Pisco acrescenta que este “poderá refletir o facto desta crise política em Itália – que, diga-se de passagem, não é novidade para o país – coincidir com o fim do programa de compra de ativos por parte do Banco Central Europeu (BCE)”.

Instabilidade deverá continuar a castigar especialmente a banca

Se todas as bolsas fecharam terça-feira no vermelho, foi o setor da banca o mais penalizado, devido “ao movimento expressivo que se viu nas curvas das yields italiana e portuguesa”, segundo explicou João Lampreia, head of research do BiG – Banco de Investimento Global.

No caso da banca italiana, que tem sofrido diversos problemas nos últimos anos devido ao elevado fardo do crédito mal parado, está a ser penalizada porque detém uma proporção grande da dívida soberana do país e cujo valor está a cair a pique. Segundo dados do Banco Central Europeu, os bancos italianos tinham em mãos cerca de 404 mil milhões de euros em dívida soberana do próprio país no final de abril, um valor que representa pouco mais de 10% dos ativos totais do setor.

O índice setorial da banca italiana caiu 4,73% e acumula uma desvalorização de 22,34% no último mês. A negociação das ações de dois dos maiores bancos italianos – o Intesa Sanpaolo e o Unicredit – estiveram suspensas após quedas de mais de 5%. O Stoxx Europe Banks 600, índice pan-europeu da banca, perdeu 3,2%.

Foi, no entanto, o português BCP que registou as maiores quedas, com uma desvalorização de 8,11% num dia, que levou a uma deterioração da capitalização de mercado em 293 milhões de euros.

Lampreia refere que o tombo maior que os pares estará relacionado “com um ajustamento à performance do ano” já que o banco liderado por Nuno Amado acumula ganhos superiores desde o início do ano.

“A banca europeia vai continuar ancorada à yield de Itália, que já está em 3,15% em máximos de 2014. Mesmo que estabilizem nos 3% ainda há espaço para o equity cair”, disse o head of research do BiG. Explicou que, há quatro anos,  altura em que os juros estiveram pela última vez nos níveis atuais, o índice Euro Stoxx 50 negociava 10% abaixo do valor atual, pelo que existe essa margem de manobra.

Analistas recomendam calma e vêem oportunidades no caos

Tal como as bolsas, também o euro caiu a pique face à par norte-americana, tendo desvalorizado 0,64% para 1,155 dólares, em mínimos de 10 meses.

“Tendo em conta que, em Itália, não existe apetência para uma saída do Euro, ou os partidos populistas renunciam explicitamente a qualquer passo nesse sentido, ou poderão ser castigados a nível eleitoral. Por agora, contudo, é a incerteza que reina e a moeda única vive momentos difíceis”, refere uma análise da fintech de câmbio Ebury.

Com juros a subirem e tanto bolsas como moeda a caírem, não é surpreendente que o caos se tenha instado esta terça-feira nos mercados. Os analistas explicam que um selloff mais severo poderá ser evitado, mantendo a calma. “Itália é Itália… O mercado pode extremar, mas não vai extremar além do precipício. O posicionamento dos investidores deve ser mais defensivo, com estratégias para emunizar o risco”, diz Lampreia, do BiG.

“Pensamos que não é altura para vender, mas sim para comprar”, refere mesmo João Pisco, do Bankinter. “Devemos manter a ‘cabeça fria’ e não nos preocuparmos demasiado com estas correções súbitas, que na maioria dos mercados ocorrem por contágio.

“Devemos sim preocuparmo-nos em avaliar corretamente os dados macroeconómicos e os resultados das empresas, e esses, apesar de começarem a apresentar alguns sintomas de desaceleração, mantém-se claramente numa tendência de expansão”, afirmou, acrescentando que o banco recomenda “aproveitar esta correção indiscriminada dos mercados para comprar, de forma seletiva, títulos que estão a sofrer por contágio”.

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