Ana Gomes: “Há uma grande incoerência nas medidas práticas de combate ao terrorismo”

Eurodeputada socialista defendeu, no colóquio “Combater os medos”, que o Registo de Identificação de Passageiros não se aplicasse apenas às companhias aéreas. “Os voos privados são muito importantes e que ninguém controla”, realçou.

A eurodeputada socialista Ana Gomes defendeu, esta segunda-feira, que o combate ao terrorismo passa também pelo desenvolvimento de programas de prevenção contra a radicalização e que continua a existir uma “incoerência” entre as medidas de prevenção.

“As medidas de longo prazo exigem programas de prevenção de radicalização. Algumas coisas estão a ser feitas, mas há uma grande incoerência entre o foguetório que há quando existe um atentado e as medidas práticas e eficazes, embora já muito se tenha avançado”, disse Ana Gomes, numa intervenção durante o colóquio “Combater os medos”, organizada pelo Association des Anciens Élèves du Lycée Français Charles Lepierre, a associação dos antigos alunos do Liceu Francês de Lisboa, na Fundação Calouste Gulbenkian.

Num painel dedicado ao tema “Ter medo do terrorismo: o que mudou na vida dos europeus. É possível ser livre perante as atuais ameaças terroristas?”, a eurodeputada considerou que “medos toda a gente tem. Seria até muito anormal não ter medos, a questão é que é preciso combatê-los”.

“Os governos apresentavam o PNR (Registo de Identificação de Passageiros) como uma bola mágica [no combate ao terrorismo], mas não está a ser aplicado na generalidade dos países europeus. Está a ser estudado como aplicar”, começou por explicar, acrescentando que apresentou uma proposta para que o PNR não se aplicasse apenas a voos das companhias aéreas mas se aplicasse também a voos privados. “Os voos privados são muito importantes e que ninguém controla”, realçou.

Já o especialista em cibersegurança Jarno Limnéll explicou que o “terrorismo é uma ameaça hibrida”, com grande impacto na dimensão psicológica da segurança.

“Na sociedade da informação e da tecnologia em que vivemos, uma das maiores influências é a nossa narrativa e uma coisa que temos que levar mais a sério na Europa é isso mesmo: a nossa narrativa”, defendeu Jano Limnéll, acrescentando que “quando falamos de segurança hoje em dia o objetivo de quem quer provocar medo é aumentar a instabilidade. É contra isso que precisamos lutar”.

Também o diretor do International Centre for the study of Radicalisation and Political Violence, Peter Neumman, sublinhou a importância de reflectir sobre as consequências políticas do terrorismo. Ainda assim considera que “ a ameaça do ISIS é menor agora na Europa do que há três anos” e que tem sido feito um trabalho pelos países ocidentes para fracturar a utopia desenvolvida pela organização terrorista e que a organização queria projetar.

“A excitação do ISIS desapareceu”, conclui.

O evento, no qual o Jornal Económico é media partner, tem entrada livre e conta com mais de uma de dezena de sessões, entre intervenções individuais e painéis com três ou quatro especialistas, dedicados a discutir a insegurança, as dinâmicas migratórias, as mudanças climáticas e as dúvidas sobre a evolução tecnológica.

A sessão de encerramento desta segunda-feira é uma das mais aguardadas, contando com uma comunicação do neuro-cientista António Damásio e o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. A sessão de abertura esteve a cargo de Pedro Norton, administrador da Fundação Gulbenkian, Ana Lopes Moreira, presidente da Associação Antigos Alunos do Liceu Francês de Lisboa e Jean-Michel Casa, embaixador de França em Portugal.

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