“A análise económica é mais rigorosa do que a que envolve diabos”

Antigo ministro da Economia não antecipa instabilidade política no próximo ano, exceto se houver alterações nas condições externas, como os juros. Estado seria o primeiro afetado.

O que espera para 2017? Vem aí o diabo?

A análise económica é um bocadinho mais rigorosa do que aquela que envolve diabos. É mais correto falar de desafios e de riscos. Estamos numa situação de grande incerteza. Temos uma União Europeia com problemas profundos. Temos a saída potencial do Reino Unido. Temos uma mudança significativa nos Estados Unidos, quer da política económica interna quer da internacional. Temos um setor financeiro altamente desafiante. É difícil encontrar um quadro mais complexo.

Quais são os principais riscos em Portugal?

Em primeiro lugar, o risco associado à alteração das condições de custo do capital. Há duas variáveis externas que estão a jogar favoravelmente nesta conjuntura: as baixas taxas de juro e a baixa inflação. Qualquer pequena oscilação nestas variáveis trará problemas significativos à economia portuguesa. Por outro lado, temos um problema de capitalização. As empresas não financeiras estão muito vulneráveis, fortemente endividadas. E por último pode haver perturbações com a variação de preços relativos em matérias-primas fundamentais.

Se houver uma política menos expansionista do BCE o Estado não pode ter dificuldades?

Portugal tem um saldo primário positivo que permite contrabalançar o valor significativo do serviço de dívida. Obviamente que qualquer viragem mais negativa nas variáveis externas, qualquer elemento que fique aquém do que está desenhado, afeta mais o setor público do que o setor privado e traduz-se muito mais rapidamente numa subida dos custos do crédito do setor público.

Imaginando que há uma agitação forte nos mercados financeiros e que o Estado perde a capacidade de se financiar, o que é que aconteceria? A Europa teria mecanismos para lidar com uma circunstância dessas?

Fez-se um esforço de reforço da política monetária conduzida pelo BCE e existem mecanismos novos quer de supervisão quer de intervenção de política monetária. No entanto, no caso português, estamos com um crescimento económico anémico e não nos podemos esquecer de que fazemos parte de um grupo de países onde vigoraram programas de ajustamento e mecanismos tipo troika. Há um olhar mais atento e rigoroso e um potencial maior nervosismo perante determinada evolução menos positiva. Se virmos as projeções mais credíveis sobre a evolução da economia portuguesa nos próximos dois, três anos, o cenário mais otimista é de voltar ao nível do PIB gerado em 2008 em 2018. Teríamos uma década completamente perdida.

Como se pode ultrapassar esta situação?

O que gera crescimento económico é o investimento e o aumento do produto potencial. O nível de vida da população e o seu consumo vão depender do sucesso do investimento e da internacionalização da economia. É fundamental que o desempenho positivo da economia portuguesa signifique um regresso à base em termos de melhoria das condições de vida e do rendimento, e não o contrário. Não é a melhoria das condições de vida e do rendimento que faz o crescimento.

Tem reticências quanto à estratégia que está a ser seguida pelo Governo e partidos de esquerda em relação aos rendimentos?

Tenho. É demasiado geral. É a mesma crítica que fiz à política económica seguida pelo governo PSD-CDS. Na altura pareceu-me uma política pouco inteligente, ‘estúpida’, na medida em que se tentaram resolver os desequilíbrios numa lógica de distribuir os males pelas aldeias, com cortes lineares para tudo. Agora temos profundos desequilíbrios na forma como se fez o regresso ao passado do ponto de vista da devolução de rendimentos. Tratou-se melhor, em termos de reposição, pensionistas com reformas muito elevadas comparativamente à média. Devia ter havido um foco muito mais assertivo num tratamento melhor dos rendimentos mais baixos. Uma economia tem de se desenvolver a olhar para a frente e não a seguir uma política de desfazer o que tinha sido feito, de repor o que tinha sido tirado. Há um conjunto significativo de pessoas, centenas de milhares, que precisariam de políticas mais assertivas para sair da situação de pobreza. Eu concentraria os recursos neste segmento mais exigente e não esbanjaria recursos em situações muito menos preocupantes do que estas.

Como olha para os acordos à esquerda? Há risco político no próximo ano?

Não creio. Há uma convergência. Até agora, PS, Bloco e PCP parecem sentir-se confortáveis com os resultados das negociações, do ponto de vista do seu eleitorado e do seu posicionamento político. É óbvio que, à medida que se for avançando na legislatura, as condições de funcionamento da solução de governo vão deteriorar-se. Começa a surgir o calendário eleitoral e há um certo esgotamento do que o Governo pode partilhar com os dois partidos. Mas 2017 é um ano completo de continuidade, os problemas vão-se colocar em 2018 e 2019. No próximo ano, não creio que vá existir instabilidade por via da política – pode é surgir instabilidade política por via económica. Basta que as variáveis exógenas não corram tão bem para se precipitarem fracturas e dificuldades. Se não houver alterações exógenas, 2017 será um ano muito parecido a 2016.

Ler mais
Recomendadas

Como a Indústria 4.0 pode ajudar a criar a fábrica do futuro

A fábrica do futuro é o centro de uma cadeia de distribuição que combina clientes, fornecedores, distribuidores e parceiros com sistemas analíticos avançados. Isso pode levar a uma “produção perfeita” com o mínimo de tempo de inatividade, negligência, desperdício e ineficiência.

Sustentabilidade no investimento: menos risco, mais valor

Reduzir a quantidade de plásticos descartáveis ou viajar de comboio são duas formas de reduzir a nossa pegada ecológica. E no investimento, o que podemos fazer para reforçar a sustentabilidade?
Comentários