Âncoras

Quando se perde a Mãe – aqui a Senhora Minha Mãe – perde-se uma das nossas âncoras. Com ela aprendemos, por exemplo, as ricas Aventuras de Tom Sawyer de Mark Twain. E recordo de me exigir dizer o seu nome próprio – Samuel Langhorne Clemens -, a sua nacionalidade americana e de não me esquecer, […]

Quando se perde a Mãe – aqui a Senhora Minha Mãe – perde-se uma das nossas âncoras. Com ela aprendemos, por exemplo, as ricas Aventuras de Tom Sawyer de Mark Twain. E recordo de me exigir dizer o seu nome próprio – Samuel Langhorne Clemens -, a sua nacionalidade americana e de não me esquecer, para perceber as suas palavras cheias de um humor único, que fora jornalista e piloto de barcos de passageiros no Mississipi.

Agora que Deus a acolheu merecidamente no Céu recordei, ali no jazigo onde repousa em São Salvador, terra de umas castanhas únicas, aquelas palavras em que Twain assume que “o homem é mais complexo do que aquilo que parece: cada adulto encerra em si não um mas três homens diferentes”. E Mark Twain que acompanhara naquela segunda metade do século dezanove o tempo da “nova fronteira americana”, respondeu desta forma singela e singular: “Pegai num qualquer Senhor João. Existe nele o João Primeiro, isto é o homem que ele pensa que é; existe o João Segundo, o que os outros pensam que ele é; e, finalmente, o João Terceiro, aquilo que ele é na realidade”!

Foi com esta filosofia que cresci. Que recebi dela centenas de cartas. De aviso e de história. E com muitas “estórias”. Algumas surpreendentes. Tive que declamar Gil Vicente e Sá de Miranda. Ler Eça e Camilo. Copiar – a sério copiar em cadernos! – Alexandre Herculano e Camões. E ter orgulho em saber que a Senhora Minha Mãe tinha crescido na casa onde, segundo os textos, nascera o Rei D. Duarte, filho do nosso Dom João I. E foi assim que, como retratou João Paulo I, voltei a perceber, mais tarde, que pode haver “três senhores Joões num só”. E, depois, e em momentos mais difíceis, vinculado a reler, como permanente sobreaviso, palavras sábias do Bispo Francisco de Sales: “Acusamos o próximo por coisas insignificantes, e desculpamo-nos em coisas grandes. Queremos vender a bom preço, e comprar a baixo custo.

Queremos que se faça justiça na casa dos outros, e que use misericórdia na nossa. Queremos que dêem valor às nossas palavras e menosprezamos as dos outros. (…) Somos intransigentes na defesa dos nossos direitos, e pelo contrário queremos que os outros sejam moderados em exigir os seus”. Palavras de ontem mas para hoje. E que ficam bem, aqui, no Oje. Por serem bem atuais. Neste tempo português. Nestas circunstâncias da economia, das finanças e da justiça.

Nestas inúteis discussões políticas. Por tudo, ontem recordei as Aventuras de Tom Sawyer. Na segunda-feira perdi o privilégio de ser, ao mesmo tempo, Filho, Pai e Avô. Mas prometo que Mark Twain vai ser lido e relido pelos meus queridos netos. Ao mesmo tempo que o novo tempo tecnológico os leva a descobrir na internet bastante daquilo que só aprendíamos em livros. E na biblioteca que os Senhores meus Pais “construíram” está um pouco de tudo. Está o conhecimento da vida. Da nossa vida. Que fica muito mais pobre quando perdemos as nossas âncoras!

 

raios e luz
Fernando Seara
Advogado
fseara@csca.pt

 

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