Mais do que organizar um Dia Sem Carros em algumas artérias das suas cidades, as autarquias aderentes à Semana Europeia da Mobilidade têm de implementar uma medida permanente que contribua para a substituição do automóvel por modos de transporte mais ecológicos, em nome da mobilidade sustentável, que se deseja para as cidades de todo o mundo. Em Portugal, a Semana Europeia da Mobilidade é assinalada com um conjunto de iniciativas em vários municípios, mas são efetivamente as medidas permanentes que se revestem de maior atenção. Porque o reencontro dos cidadãos com a rua é uma prioridade assumida. “Cada vez mais se constata a necessidade das pessoas recuperarem o contato direto com a rua, que se veio perdendo durante quase todo o século passado, em que a grande preocupação era o planeamento das áreas urbanas em prol da utilização do automóvel, facilitando o seu uso em detrimento de outras formas de transporte e, em grande parte das situações, ‘roubando’ espaço às pessoas e à possibilidade de desfrutar da ‘rua’ de forma saudável e segura”, salienta Nuno Lacasta, presidente do Conselho Diretivo da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em declarações ao OJE.

O número crescente de utilizadores de bicicletas, de caminhantes e de pessoas a utilizarem os circuitos de manutenção, a desfrutarem de zonas verdes, a frequentarem esplanadas e feiras e a participarem ativamente em atividades de rua é encarado pelo presidente da APA como a prova de que “cada vez mais pessoas ‘reclamam’ o seu direito ao uso do espaço exterior como uma necessidade inerente a uma maior qualidade de vida”.

Mas o recurso aos transportes públicos em Portugal está longe de corresponder aos parâmetros ideais de mobilidade sustentável. Em Lisboa, a Carris tem registado um decréscimo no número de passageiros nos últimos 5 anos, embora comecem já a ser dados sinais de recuperação. “Os transportes públicos são um vetor essencial da mobilidade. Contudo, é um facto que não têm sido implementadas medidas que contribuam inequivocamente para a melhoria das condições de circulação dos transportes públicos de superfície, tornando-os mais atrativos. Enquanto tal não acontecer, dificilmente se poderá falar em melhoria da mobilidade”, alega Luís Vale, secretário-geral da Carris.

A expansão da rede do metropolitano, com o prolongamento até ao aeroporto, a renovação da frota de autocarros da Carris e as medidas de incentivo à utilização de bicicletas procuraram dar uma ajuda na conversão da capital. “Mas apesar de positivas, estas medidas não são suficientes para uma melhoria palpável na mobilidade na cidade de Lisboa”, lamenta Luís Vale, ao OJE.

O Metropolitano de Lisboa também tem registado um decréscimo no número de passageiros, embora essa tendência se comece a atenuar. “A diminuição do número total de passageiros que se verificou entre 2011 e 2012 teve principalmente origem na difícil conjuntura económica que o país viveu, bem como no consequente aumento da fraude”, explica Filipa Bandeira de Melo, secretária-geral do Metropolitano de Lisboa.

Apostar na qualidade do serviço, ajustando a oferta à procura e flexibilizando os tarifários tem sido a resposta da operadora, que não esquece a articulação com outros transportadores e a dinamização de zonas comerciais nas diversas estações da rede como fatores cruciais de captação e fidelização de passageiros.

No transporte fluvial, o número de passageiros também tem descido nos últimos anos, embora menos no ano passado. “O contributo do grupo Transtejo para a melhoria da mobilidade na Área Metropolitana de Lisboa tem sido a manutenção de um transporte público fluvial entre margens com níveis de qualidade que consideramos suficientemente atrativos, para a prossecução do objetivo de que o transporte individual possa ser dispensado e assim contribuir para a melhoria da qualidade de vida nos centros urbanos”, refere João Pintassilgo, presidente do grupo.

Mas o recurso ao transporte particular é uma realidade difícil de vencer, apesar da evolução nas redes de transportes intermodais, da criação de corredores “bus”, da extensão de horários e ajuste de percursos. “Ainda hoje a resistência que as pessoas mostram em ‘separar-se’ da sua viatura particular e da ligação que estabelecem com o seu automóvel e que, em alguns países da Europa, continua a ser um símbolo forte de poder, de realização e de status, é muito grande”, reconhece Nuno Lacasta. “A mudança de mentalidades e de comportamento é o mais difícil e a mais demorada ‘aquisição’.  Por outro lado, muitas pessoas tendem a não conhecer completamente as melhorias que se têm feito a nível das redes de transporte público e mantêm a ideia ultrapassada, na maioria dos casos, de que o transporte público não assegura com conforto, segurança e eficácia muitos dos trajetos que optam por fazer de carro particular”, aponta o presidente da APA. Por isso mesmo, Nuno Lacasta considera que a Semana Europeia tem dado um forte contributo com as várias iniciativas locais desenvolvidas pelos municípios e as suas entidades parceiras e o envolvimento da sociedade civil para a implementação e divulgação de muitas medidas permanentes na área da mobilidade. “A Semana Europeia da Mobilidade contribui para essa mudança de mentalidades com iniciativas inovadoras e aliciantes, motivando os munícipes à utilização de outras formas de transporte mais suaves”, destaca o presidente da APA.