“Aposto na indústria do sustentável e do ecológico”

Alessandro Colombara, secretário geral da Câmara de Comércio Italo-Brasileira, diz que as “energias renováveis, biogás e todos os sistemas que devem servir para melhorar o sério problema dos resíduos sólidos urbanos”, são apostas de investimento no Nordeste brasileiro. Apesar de considerar a construção como “o motor de todo o tipo de desenvolvimento”, aconselha os empresários […]

Alessandro Colombara, secretário geral da Câmara de Comércio Italo-Brasileira, diz que as “energias renováveis, biogás e todos os sistemas que devem servir para melhorar o sério problema dos resíduos sólidos urbanos”, são apostas de investimento no Nordeste brasileiro.
Apesar de considerar a construção como “o motor de todo o tipo de desenvolvimento”, aconselha os empresários a abordarem as áreas das novas tecnologias, das bio-tecnologias e das ligadas à área médica.
“Noto que as prateleiras dos supermercados brasileiros têm pouquíssimos produtos, se
comparadas às dos italianos. A indústria alimentar tem muita chance, os produtos de forno, de padarias, os doces, os laticínios; a indústria da transformação de produto do agro-negócios e aquela do packaging”, afirma aquele responsável.
Alessandro Colombara é um dos oradores do fórum internacional Investe Nordeste, um evento empresarial destinado a investidores que queiram entrar no mercado nordestino brasileiro, do qual o OJE é media ‘partner’. O fórum terá lugar no Centro de Convenções do Recife, no estado de Pernambuco, nos dias 25 e 26 de Novembro.
O principal objectivo do Investe Nordeste, é ajudar a criar uma atmosfera favorável para investidores internacionais interagirem melhor com altos executivos nacionais e entidades governamentais brasileiras. A expectativa é que sejam formalizadas parcerias/sinergias com entidades nacionais e internacionais que tenham interesse em investir no Nordeste brasileiro e também assinado um número significativo de protocolos de entendimento entre as partes presentes.
Mais informações estão disponíveis no endereço http://investenordeste.com.br.

Qual a importância do Nordeste brasileiro para as empresas italianas?
As médias empresas italianas estão ainda a descobrir o Nordeste. Em algumas áreas mais desenvolvidas, como Pernambuco e Bahia, já estão presentes os grandes grupos (Pirelli, Campari,Comau, Fiat), pois a presença de avançados polos industriais e arranjos produtivos bem integrados, facilitou a decisão de se estabelecerem aí. Noutros estados, assistimos a um grande fluxo de capital oriundo sobretudo de pessoas físicas. No Ceará, por exemplo, só no primeiro trimestre de 2014 teve uma entrada de 14 milhões de reais (4,5 milhões de euros) de capital desse tipo. O estado só perde pelo de São Paulo e nem de muito. Os italianos são os que mais transferem para o Brasil capitais deste tipo. Vale ressalvar que os empreendedores italianos, que em grande parte fazem parte do setor de pequena e média empresa, condicionados pela particular e grave situação na sua pátria, se reorganizam no estrangeiro participando em projetos de desenvolvimento industrial com o próprio capital, orientado sobretudo no setor de imóveis e da construção civil. Mas os investimentos estrangeiros diretos (IED), ou seja as transferências de empresas para investimentos em empresas no Brasil ou para investimentos em filiais, colocam a Itália entre os 10 países que mais contribuem nesse intercâmbio, com um valor de cerca de 18 mim milhões de dólares (dados de 2010, apurado no estudo CNI).

O volume de trocas comerciais entre o Brasil e a Itália tem estado a crescer?
A Itália exportou no primeiro semestre de 2014, pouco mais de 3 mil milhões de dólares e importou cerca de 4 mil milhões no ano inteiro de 2013. Um saldo ainda ativo. A Itália é um importante parceiro comercial para o Brasil e houve na última década um aumento no saldo comercial positivo, mas a sua posição poderia ser melhor.

Voltando ao Nordeste, quais são as principais empresas italianas aí instaladas?
Além daquelas que citei, temos as empresas do setor energético, como a Enel e a Enel Green, Almaviva, multinacional de call center, Metalinox, do grupo siderúrgico Cogne Aços Especiais, Mossi e Ghisolfi, líder em garrafas PET.

Sei que a Fiat é uma das maiores. Também vai estar presente no Fórum Nordeste Investe?
Não sei informar. O estabelecimento de Goiana, em Paraíba, está em estado avançado de construção, mas a sede da empresa não está situada no Nordeste. Não sei se eles estarão presentes. No futuro pretendemos oferecer-lhes a associação à nossa Câmara de maneira a poder informá-los melhor acerca das iniciativas no território.

A Fiat, como empresa multinacional, pode ser um polo de atração para outras pequenas empresas?
Por exemplo, no sector dos moldes, uma área muito importante em Portugal.
Um grande estabelecimento de produção de automóveis, como aquele construído pela Fiat em Paraíba (que é maior do que o de Turim, onde a empresa nasceu e se desenvolveu), é, na verdade, um centro de montagem de peças oriundas de um grande arranjo produtivo local. Por questões de economia, é normal a tendência a concentrar em volta da empresa montadora, inúmeras atividades de fornecimento de produtos, peças e serviços terceirizados. Inclusive, as empresas que participam do arranjo produtivo e que fornecem a Fiat, gozam dos mesmos incentivos fiscais e administrativos que o estabelecimento principal obteve do Estado. Uma planta fabril deste porte torna-se um universo gerador de trabalho e de oportunidades económicas para a região onde é localizada. Recentemente, auxiliámos na abertura de dois empreendimentos que fornecerão produtos e serviços para a produtora automóvel.

Que espera do resultado destas eleições presidenciais? O clima continua a ser propício ao desenvolvimento de negócios no Brasil?
A minha opinião é que um ciclo se concluiu. Ou melhor, deveria terminar, pois foi caracterizado por uma, até importante, transferência de recursos para uma camada da população que precisava e que ativou o consumo interno. Hoje não funciona mais e o país começa a mostrar graves sintomas de desaceleramento económico. Planos assistenciais têm que ter duração certa e limitada. Hoje 50 milhões de brasileiros beneficiam dos programas de assistência e são calculados pelo Governo como fossem empregados. Numericamente e estatisticamente falando, ao menos no Nordeste, a classe média (C) foi “rebaixada” para patamares de renda que anos atrás distinguiam a classe E. Isto é agir artificialmente no meio ambiente económico para mascarar problemas. O custo começa a aparecer pesado para as contas públicas, que não dispõem mais dos avanços e dos superavits dos anos passados, quando o PIB subia puxado pela alta nos commodities exportados e o mercado interno respondia veementemente. Hoje só o Nordeste responde ainda com um mercado interno pujante. Mas não basta para alavancar o Pais. É preciso remoldar o Brasil e dar ao setor produtivo um novo estímulo e novos objetivos para alcançar; deve-se constituir um pacto de crescimento e de desenvolvimento, porque, se é verdade que teve crescimento económico, não podemos afirmar que isso se tornou desenvolvimento para a nação. Para responder à segunda parte da pergunta, eu digo que o Nordeste ainda tem um grande potencial e requisitos para seduzir os investidores estrangeiros, mas precisa de prestar atenção aos fundamentais económicos federais e às adaptações e intervenções que o próximo governo fará.

Muitos empresários portugueses queixam-se do excesso de burocracia no Brasil. Passa-se o mesmo com as empresas italianas?
Sim. Porém, como Câmara de Comércio costumamos dizer que burocracia é uma regra do jogo que vale para todos e então não pode ser vista como algo que possa atingir à toa e de repente ferir a nossa empresa. No Brasil a música é essa e precisa dançar conforme. Precisa, sim, fazer tudo com atenção e muito conhecimento, programando nos mínimos detalhes antes de começar e calculando até o tempo que levará para obter tal documento ou tal alvará e o custo que essa dilatação temporal acarretará. Tem de utilizar os melhores profissionais na área, evitando tomar rumos personalizados, que se demostram rápido no começo mas levam a empasse durante o percurso e ao pagamento de custos às vezes desnecessários.

O que tem feito a câmara para diminuir o impacto dessa burocracia?
Aconselhamos os empresários italianos a seguir as instruções de instituições com as câmaras de comércio ou o Sebrae, no Brasil, que tem grande conhecimento na área. Procuramos para eles os profissionais mais capacitados. Disponibilizamos o nosso know-how e a rede de nossos contatos que praticam procedimentos sérios mas eficazes para chegar ao resultado no menor tempo possível. Ativamos uma série de serviços, como administrador interino, escritórios virtuais, procura de sócios, emissão de documentos à distância, acompanhamento personalizado do investidor com um nosso técnico dedicado.

E tem feito alguns contactos para tentar a diminuição das altas taxas alfandegárias?
A normativa alfandegária é, em máxima, parte federal. Não é possível para organizações como a nossa intervir. È matéria de lei do governo federal. Fora disso, só organismos internacionais e supranacionais como o WTO ou o FMI ou acordos entre blocos comerciais podem apresentar elementos para que sejam modificadas as alíquotas. É outro lugar comum para todos os que operam no Brasil. As taxas de importação são altas, mas o são para todos os importadores e o mercado absorve este valor, pois os preços de revenda são notoriamente mais altos do que na Europa.

Quais os sectores que a Câmara identifica como as grandes apostas para investir no Nordeste do Brasil?
Com certeza o da construção civil, seja residencial ou industrial. A construção é o motor de todo o tipo de desenvolvimento. Existe demanda atrasada e o crescimento impulsionará a oferta de novas unidades. A indústria e a logística pedem novas infraestruturas, armazéns, serviços. A logística ligada aos grandes complexos portuários do Nordeste crescerá muito. Aposto na indústria do sustentável e do ecológico: energias renováveis, biogás e todos os sistemas que devem servir para melhorar o sério problema dos resíduos sólidos urbanos. Novas tecnologias, bio-tecnologias e ligadas à área médica. Noto que as prateleiras dos supermercados brasileiros têm pouquíssimos produtos se comparadas aos italianos. A indústria alimentar tem muita chance, os produtos de forno, de padarias, os doces, os laticínios; a indústria da transformação de produto do agro-negócios e aquela do packaging; A indústria extrativa tem inúmeras possibilidades de aumentar a sua oferta e os seus mercados. A mecânica, química e petrolífera tem chance de crescimento sobretudo com a chegada dos novos empreendimentos premium da Petrobras no Maranhão e Ceará.

Por Carlos Caldeira

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