Arábia Saudita tenta travar fuga de capitais, mas arrisca penalizar a economia

O banco central saudita subiu, de forma inesperada, os juros de referência para antecipar a mesma decisão por parte da Fed nos EUA. Deverá conseguir manter uma forte paridade entre a moeda saudita, o riyal, e o dólar, mas pode comprometer a economia do país.

9. Arábia Saudita

A Autoridade Monetária da Arábia Saudita subiu as taxas de juro de referência esta semana, antes de a par norte-americana como forma de tentar prevenir a fuga de capitais do país. A decisão surpreendeu os mercados já que o país não subiu os juros desde 2015 e os bancos centrais do Conselho de Cooperação do Golfo têm por hábito seguir os passos da Reserva Federal norte-americana e não o contrário.

A Arábia Saudita aumentou a taxa dos acordos de recompra em 25 pontos base, para 2,25% no caso dos empréstimos a bancos comerciais, e para 1,75%, no caso dos depósitos de bancos comerciais no banco central. No comunicado que se seguiu à decisão, a autoridade monetária referiu que os ajustamentos correspondiam às condições de estabilidade monetária nos mercados doméstico e internacional.

“A decisão do banco foi surpreendente e inesperada devido ao timing pouco usual”, refere uma análise da seguradora francesa Coface, sublinhando que o anúncio foi feito dias antes de a Fed ter também subido os juros de referência. Desde dezembro de 2015, em anteriores decisões de aperto monetário, a autoridade apenas aumentou o acordo de reporte, limitando a pressão ascendente sobre as taxas do mercado monetário.

“A força motriz por trás da decisão parece ser a ânsia do banco central em evitar um aumento do spread negativo entre as taxas da LIBOR do dólar norte-americano e do interbancário saudita. De fato, um spread negativo poderia dissuadir os investidores de trazer seus fundos para o país e empurrá-los a buscar retornos mais elevados em outros lugares”, explicou a análise.

No entanto, a decisão poderá ser arriscada devido às condições económicas no país. A inflação anual atingiu os 3% em janeiro, após a introdução de um IVA de 5%.

Após uma contração da economia saudita no ano passado, o país deverá registar uma desaceleração recorde do crescimento este ano, com a projeção oficial a situar-se em 1,1%. A Arábia Saudita viu-se ainda obrigada a adotar medidas de austeridade devido ao défice de 13% do PIB, em 2016, que terá descido para 9%, no ano passado.

“Nestas circunstâncias, novos aumentos das taxas do banco central podem ter impactos negativos no acesso ao crédito e à atividade económica. No entanto, permitiria a manutenção de uma forte paridade cambial. Desde fevereiro de 2017, as reclamações dos bancos comerciais sobre o setor privado têm diminuído. Em janeiro de 2018, esses contratos sofreram uma contração de 0,9% em relação ao ano anterior. Portanto, qualquer rápido aperto monetário pode amortecer a recuperação económica”, acrescentou a análise da Coface.

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