Arte urbana traz retorno turístico a Lisboa

A capital portuguesa já faz parte do roteiro internacional de arte urbana. Sílvia Câmara, coordenadora da GAU (Galeria de Arte Urbana), da Câmara Municipal de Lisboa, explica o que tem contribuído para este posicionamento. A GAU surgiu há sensivelmente seis anos com a missão de reconhecer discursos plásticos do graffiti e da street art enquanto […]

A capital portuguesa já faz parte do roteiro internacional de arte urbana. Sílvia Câmara, coordenadora da GAU (Galeria de Arte Urbana), da Câmara Municipal de Lisboa, explica o que tem contribuído para este posicionamento.

A GAU surgiu há sensivelmente seis anos com a missão de reconhecer discursos plásticos do graffiti e da street art enquanto formas válidas de expressão artística. Este objetivo tem sido cumprido?
Penso que sim, atualmente a população tem um outro olhar sobre o graffiti e sobre a street art, em Lisboa. O volume de obras na cidade já é considerável e todas as pessoas têm, de algum modo, uma peça próxima de si com a qual se identificam. Começa-se, realmente, a observar alguma mudança de mentalidades e a perceber-se a diferença entre o que são gestos de vandalismo que atacam a integridade de bens patrimoniais e o que são gestos artísticos e plásticos, como as obras que a GAU tem vindo a organizar e a apoiar. A arte urbana dá, efetivamente, um contributo muito importante à cidade.

Neste verão decorreram duas exposições em Lisboa, em simultâneo, de arte urbana em equipamentos museológicos, a exposição “Dissecação” de Alexandre Farto (de nome artístico Vhils), no Museu da Electricidade, e a mostra de André Saraiva com título homónimo, no MUDE. Em que medida a GAU contribuiu para esta realidade?
À medida que os artistas vão conseguindo intervir na cidade, o mercado da arte e alguns museus começam a estar interessados neste tipo de produções. Generi-camente são artistas muito novos que não praticam um valor de mercado demasiado elevado ou muito inflacionado. Tendo em conta os problemas do mercado atual, este tipo de produção desperta interesse porque vai revelando artistas de grande qualidade e que praticam preços bastante acessíveis. Portanto, é natural que as galerias e os museus em Lisboa estejam atentos a estes criadores. Por outro lado, estes dois artistas têm já um peso internacional.

O Alexandre Farto (Vhils) faz parte dos primeiros artistas com quem a GAU trabalhou e que apoiou desde o início. Se não existisse a GAU, o Vhils existiria no mapa-mundo da arte urbana?
Penso que sim, o trabalho dele é tão interessante que acabaria sempre por singrar em qualquer cidade do mundo. Trabalhamos com o Alexandre desde a VSP (Visual Street Performance), um evento de street art que já estava a ser desenvolvido antes do nascimento da GAU. O Alexandre fazia parte do núcleo duro daquele projeto, e desde então que apoiamos não só a sua produção artística mas também outros projetos em que ele é organizador e curador, como é o caso da plataforma Underdogs, que tem vindo a desenvolver nos últimos dois anos.

Indique-nos uma obra-chave na história da arte urbana em Lisboa.
A intervenção de Os Gêmeos, do Blu & Sam3, do Ericailcane e da Lucy McLauchlan nos edifícios da Av. Fontes Pereira de Melo – é uma peça fundamental. No total, são cinco grandes intervenções, em três edifícios com uma escala monumental e num dos principais eixos viários da cidade. A concretização desta obra foi um sinal de que algo estava realmente a mudar em Lisboa, em termos de arte urbana. Foi também o momento em que a atenção dos media internacionais se virou para a cidade, nomeadamente o The Guardian, que considerou esta peça como uma das mais importantes ao nível da produção mundial. A partir destas obras começaram a aparecer mais artistas internacionais interessados em deixar as suas peças na cidade.

Qual é o papel da GAU neste tipo de intervenções?
Este trabalho, por exemplo, resultou de uma parceria com o projeto “Crono”, uma iniciativa que começou em 2010, cujos mentores eram o Alexandre Farto (Vhils), Pedro Soares Neves (arquiteto e designer urbano) e Ângelo Milano (curador do festival italiano FAME). Naquela altura [em 2010], estávamos a pensar realizar um festival internacional em Lisboa. Este grupo chegou-nos com aquela proposta e nós aceitámos imediatamente, pois sabíamos a dedicação e o empenho que iriam colocar no projeto. Concretamente, a GAU apoiou financeira e logisticamente, foi à procura dos locais onde realizar as intervenções e conseguiu todas as autorizações para a concretização do trabalho.
É fácil encontrar definições para o léxico que este universo compreende? Como se definem, por exemplo, conceitos como arte urbana e street artist?
As definições deste universo têm o problema de estarem pouco sedimentadas. Ainda não passou tempo suficiente desde que este tipo de manifestações começou a aparecer. Temos, apenas, definições que começam a surgir mas que são pouco consensuais, mesmo dentro da própria comunidade. O conceito de street artist depende do contexto em que se analisa o fenómeno. Mas de forma mais convencional é, obviamente, alguém que trabalha na rua e que provém da herança do graffiti. De uma forma mais estreita, o street artist trabalha outro tipo de te-mas e não tem necessariamente de desenvolver o seu trabalho com latas de spray, pode recorrer a outro tipo de materiais e técnicas como, por exemplo, o past up, que é uma técnica de colagem de papel sobre parede, ou stickers – pequenos autocolantes que se podem encontrar também na rua. Se calhar há pessoas que dirão algo diferente, mas esta definição é relativamente consensual dentro da própria comunidade.

Considera que a arte urbana tem trazido a Lisboa e, também ao país, um retorno turístico e até um novo posicionamento da cidade: mais trendy e criativa?
Sem dúvida. Há vários sinais que nos indicam isso, nomeadamente o facto de as revistas internacionais de turismo que dedicam artigos à cidade de Lisboa mencionarem, frequentemente, a arte urbana como uma mais-valia e como um aspeto a visitar na cidade. Por outro lado, há projetos a decorrer em Lisboa que organizam circuitos e visitas a este tipo de manifestações, bem como hotéis e hostels que também demonstram essa vontade de realizar visitas (ver caixa). De facto, há também cada vez mais pessoas, a nível mundial, a fazerem turismo ligado à arte urbana.

O livro “Street Art Lisbon” que lançaram em agosto deste ano vem ao encontro, precisamente, desta procura?
Sim, porque é um pequeno roteiro sobre aquilo que se fez de arte urbana em 2012 e 2013 em Lisboa. Tudo indica que há pessoas que visitam a cidade e que querem muito perceber e saber quais as novidades de arte urbana em Lisboa. O livro tem tido, de facto, uma procura muito grande.

Quantos projetos da GAU estão atualmente a decorrer?
Neste momento temos a galeria Underdogs a funcionar e continuamos a receber propostas para o projeto “Rostos do Muro Azul”, no muro do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. Durante este mês de outubro inauguramos mais uma “Mostra de Arte Urbana” (com sete painéis localizados na Calçada da Glória e no Largo da Oliveirinha) e é publicada também uma nova edição da revista da GAU. Temos ainda um novo projeto intitulado “Lata 65”, que venceu o orçamento participativo e que consiste num conjunto de  workshops de arte urbana para uma faixa etária superior a 65 anos, é um projeto de animação e pedagogia.

Com tantas iniciativas e projetos vencedores, o que ainda há a fazer no domínio da arte urbana em Lisboa?
Há sempre mais a fazer, mas também não queremos preencher completamente a cidade com arte urbana, acho que se pode sempre descobrir novos suportes. Recentemente fizemos, por exemplo, várias intervenções em camiões de recolha do lixo. Haverá sempre algo a fazer!

Tendo em conta que a GAU depende do Executivo, tem receio que a mudança de autarcas ameace a permanência do projeto?
Tenho consciência de que a qualquer momento a GAU pode terminar a sua atividade, seja por haver uma mudança no Executivo ou por este achar que o que foi feito já é suficientemente relevante para Lisboa. As cidades têm ciclos, há fases mais abertas e mais liberais para a produção criativa, mas também há contraciclos onde acontece uma espécie de regresso à ordem e durante os quais se desenvolvem estratégias de limpeza relativamente à arte urbana. Mas se a GAU fechasse as portas neste momento, todos nós nos daríamos por contentes por tudo aquilo que já foi feito até hoje.

 

Visitas guiadas às paredes da capital
Sílvia Câmara destaca três projetos que dão a conhecer a arte urbana da cidade. A rota “Lisbon Street Art Tour”, organizada pela Roca Global, cujo percurso contempla a visita a nove locais de observação no coração da capital percorridos pedonalmente ao longo de hora e meia. As visitas informais organizadas pela holandesa Helma Geerlings, que em 2012 criou a rota pedonal “Street Art Graffiti Tour”, com aproximadamente duas horas de duração, e o projeto “The Real Lisbon Street Art Tour”, organizado por Vasco Teixeira Rodrigues e executado pela Estrela d’Alva, que ao longo de quatro horas faz uma viagem (de carro) à história da arte urbana.

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