“As exportações para o Brasil são muito difíceis”

António Coradinho, director da Corágua e presidente da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil – Bahia, diz que as exportações para o Brasil “são muito difíceis devido às taxas alfandegárias e à burocracia que aumentam tremendamente os custos inviabilizando a oferta ao consumidor final”. Mas, em entrevista ao OJE, refere que existem exeções em nichos […]

António Coradinho, director da Corágua e presidente da Câmara Portuguesa de Comércio no Brasil – Bahia, diz que as exportações para o Brasil “são muito difíceis devido às taxas alfandegárias e à burocracia que aumentam tremendamente os custos inviabilizando a oferta ao consumidor final”.
Mas, em entrevista ao OJE, refere que existem exeções em nichos de mercado onde não existem produtos similares no Brasil. Aí as condições de exportação são mais fáceis”.
E afirma que recentemente, em almoço com o empresário Américo Amorim, grande investidor na Bahia, ele lhe disse pessoalmente que “continua a acreditar no Brasil, onde continua a fazer bons negócios. Acho que é uma boa referência para outros empresários portugueses”.
António Coradinho, português a viver há 37 anos no Brasil, é um dos oradores do fórum internacional Investe Nordeste, um evento empresarial destinado a investidores que queiram entrar no mercado nordestino brasileiro, do qual o OJE é media ‘partner’. O fórum terá lugar no Centro de Convenções do Recife, no estado de Pernambuco, nos dias 25 e 26 de Novembro.
O principal objectivo do Investe Nordeste, é ajudar a criar uma atmosfera favorável para investidores internacionais interagirem melhor com altos executivos nacionais e entidades governamentais brasileiras. A expectativa é que sejam formalizadas parcerias/sinergias com entidades nacionais e internacionais que tenham interesse em investir no Nordeste brasileiro e também assinado um número significativo de protocolos de entendimento entre as partes presentes.
Mais informações estão disponíveis no endereço http://investenordeste.com.br.
Está há 37 anos no Brasil. Porquê essa opção, sendo de uma região tão bonita de Portugal como o Alentejo?
Apesar de ter nascido no Alentejo, dos 3 aos 19 anos fui criado em Cascais. Na verdade, a opção Bahia foi por acaso. Depois do 25 de Abril, Portugal estava em crise, não tinha espaço para jovens, para estudar era obrigatório o serviço cívico de um ano para entrar na faculdade e os empregos eram direcionados aos retornados. Fui para Inglaterra onde conheci uns brasileiros da Bahia que me convidaram a conhecer o Carnaval daqui. Como as condições em Portugal ainda estavam muito difíceis resolvi vir visitar a Bahia e foi amor a primeira vista. Fiquei e estou até hoje.

Esteve sempre ligado à actividade empresarial?
Não, inicialmente trabalhei como recepcionista em alguns hotéis de Salvador e depois no Complexo Petroquímico de Camaçari, hoje Braskem, como tradutor-interprete de inglês. Entretanto fiz a faculdade e formei-me em Administração de Empresas. Só comecei a minha atividade empresarial em 1991 com uma distribuidora de produtos químicos.

É uma experiência de Brasil muito longa. Que conselhos daria a um empresário português que se queira instalar fisicamente no Brasil, ou apenas exportar os seus produtos para esse país?
As exportações para o Brasil são muito difíceis devido às taxas alfandegárias e à burocracia que aumentam tremendamente os custos inviabilizando a oferta ao consumidor final. Existem exeções em nichos de mercado onde não existem produtos similares no Brasil. Aí as condições de exportação são mais fáceis. Mas, pelo nível de comércio ainda incipiente, entre Brasil e Portugal, que representa menos de 1% da corrente de comércio brasileira, existe um grande potencial de desenvolvimento de mercado. A grande dificuldade do empresário português é que o Brasil é Rio e São Paulo, mercados saturados e cobiçados por todas as nações. Se o empresariado português considerar que o Brasil é um continente, composto por 27 “países” e se a atuação for direta para um deste “países” fora do eixo Rio-São Paulo-Minas, verá que existem grandes oportunidades para colocar seus produtos.

É preferível a instalação física da empresa no Brasil ou bastam acordos para trocas comerciais?
A instalação física é a melhor opção porque a empresa é beneficiada das mesmas regras das empresas locais. Os acordos comerciais nem sempre são cumpridos o que torna as trocas comerciais imprevisíveis.

É de avançar sozinho ou é preferível ter um parceiro local?
A maioria dos governos estaduais estimulam as parcerias de empresas estrangeiras com empresas locais, porque desta forma consideram a empresa ”da terra”, o que facilita o acesso a linhas de financiamento, incentivos fiscais etc.

Muitos dos empresários que se aventuram no Brasil queixam-se da burocracia e das altas taxas alfandegárias. Como contornar esses entraves?
Esta é a realidade brasileira, mas devemos considerar que as regras são iguais para todos e como certos países não aceitam este tipo de dificuldades, nem exploram o mercado Brasil. Nós, portugueses, pela afinidade do idioma, histórica e cultural, temos capacidade de chegar mais próximo e contornar as dificuldades. Agora é necessário sair da zona de conforto e chegar de forma muito mais agressiva do que é necessário para entrar no mercado europeu ou americano.

Como vice-presidente da federação das câmaras portuguesas no Brasil, o que pensa do clima político e económico brasileiro? É propenso aos negócios empresariais?
O clima político atual é ainda de incertezas e vai continuar enquanto não for definido o novo presidente. O clima económico é reflexo de uma intervenção exagerada do estado, que não deixa as regras de mercado atuarem livremente. Mas independente de quem for o novo presidente, o mercado e os negócios têm que ser estimulados para gerar riqueza necessária para fazer crescer o PIB, no mínimo no nível do crescimento da população e assim evitar o empobrecimento da mesma, o que traz problemas sociais. Recentemente em almoço com o empresário Américo Amorim, grande investidor na Bahia, falou-me pessoalmente que continua a acreditar no Brasil, onde continua a fazer bons negócios. Acho que é uma boa referência para outros empresários portugueses.

Quais as regiões brasileiras com maior potencialidade de investimento por parte de empresas portuguesas?
Na minha opinião o Nordeste é a bola da vez pelas seguintes razões: crescimento do PIB maior de 3% ao ano; mercado de 59 milhões de potenciais consumidores; e é pouco explorado por outros países devido a grandes divergências culturais.

Quais são então os setores de actividade a apostar?
A região é uma grande exportadora de ‘commodities’, mas não processa os produtos e portanto não agrega valor. Áreas como agro-indústria, têxtil, cerâmica e materiais de construção têm um potencial enorme de sucesso.

O que pensa dos valores das trocas comerciais entre Brasil e Portugal? São baixos para países que se dizem irmãos?
Como disse anteriormente, as trocas comerciais entre Brasil e Portugal são irrisórias, menos de 1% da balança de comércio brasileira e não chega a 2% da balança de comércio portuguesa. O problema é que temos o mesmo idioma, mas não falamos a mesma linguagem. O empresário português, ainda na maioria das vezes, não consegue absorver o maior nível de dificuldades no Brasil, do que as encontradas nos parceiros tradicionais como Espanha, França, Alemanha etc. O empresário para ter sucesso no Brasil tem que incorporar o espírito dos nossos antepassados navegadores e enfrentar as intempéries de percurso, do mercado brasileiro e utilizar o idioma e as afinidades históricas e culturais com armas de luta e de sucesso. A não ser que o empresário tenha mercado garantido para os seus produtos noutras regiões, as armas são estas. Afinal são 202 milhões de habitantes. É tentador.

A distância é um entrave ao aumento dessas trocas, ou isso deve-se aos entraves alfandegários?
A distância é cada vez menos um entrave ao aumento das trocas comerciais devido à maior oferta de transporte marítimo, o que baixa o preço dos fretes. Os entraves ainda são os alfandegários. Mas espera-se uma maior abertura e facilidade do comércio exterior do Brasil, como forma de crescimento económico do país. A balança de comércio brasileira em relação ao PIB (30%) ainda está abaixo dos grandes exportadores mundiais, que é acima de 50%. Portanto, se o Brasil quer atingir a média dos grandes exportadores, tem que abrir o mercado.

Por Carlos Caldeira

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