As “mãozinhas” destruidoras do valor da PT

A Portugal Telecom (PT) é uma sombra do que foi. Promiscuidade entre política e acionistas levaram a uma perda de valor de que não há memória no país. Acabou a estratégia lusófona no setor de maior crescimento mundial. A vida da Portugal Telecom circulou, ao longo dos últimos anos, no eixo Governos/Ricardo Salgado. Toda a […]

A Portugal Telecom (PT) é uma sombra do que foi. Promiscuidade entre política e acionistas levaram a uma perda de valor de que não há memória no país. Acabou a estratégia lusófona no setor de maior crescimento mundial.

A vida da Portugal Telecom circulou, ao longo dos últimos anos, no eixo Governos/Ricardo Salgado. Toda a história, das opções estratégicas ao longo dos anos, das ligações, da perda de valor e da previsível morte como empresa internacional aconteceu nos últimos 12 anos. A relação sempre foi umbilical, com a administração do Banco Espírito Santo (BES)  como eixo central na definição de toda a estratégia e teia de cumplicidades.

A PT foi destruída com “mãozinhas” de vários Governos, e quando, em junho de 1995, se concretizou a primeira fase de privatização da Portugal Telecom, na altura presidida por Luís Todo Bom, ninguém pensava que a simples existência de uma golden share traçasse o destino da empresa. Ou seja, a levasse à destruição de valor.
Pois é o que tem acontecido. A PT tem sido instrumentalizada por quase todos os governos e ministros. Resultado:

“Quando foi feita a primeira avaliação da empresa os valores apontavam para 700 a 800 milhões de contos (cerca de 4 mil milhões de euros). Depois, já em bolsa, chegou a uma capitalização bolsista de 11 mil milhões. Em 1996 a Telefónica valia três a quatro vezes a Portugal Telecom, e hoje vale 40 a 42 vezes menos em termos de market cap. Os espanhóis souberam crescer, nós andámos para trás”, afirma Luís Todo Bom, o homem que presidia à PT na altura da preparação da privatização da empresa. Na verdade, ontem, quinta-feira, a capitalização bolsista da Telefónica era de 51.427 milhões de euros, contra os 1257 milhões da PT.

Teias e influências
Mas que tipo de influência tiveram os Governos no destino da empresa? Praticamente de todo o tipo. Começando logo pela nomeação de homens de confiança para a administração executiva. Mas há mais. Aquando da oferta pública de aquisição (OPA) da Sonae à PT, o BES – acionista de referência da PT – pediu ajuda a Mário Lino, então ministro de José Sócrates. E teve-a. A OPA da Sonae fracassou. O BES alegava que se Belmiro de Azevedo ficasse com a PT iria vender a operação Vivo no Brasil. Operação essa que a PT acabou por perder mais tarde para a Telefónica, após um disputado braço de ferro e onde a parte de glória do antigo ministro Mário Lino e do chefe do Executivo PS, Sócrates, foi terem obrigado os espanhóis a uma subida de preço na ordem dos 2 mil milhões de euros. O negócio envolveu os serviços do BES Investimento (BESI). Dinheiro esse que em grande parte não foi investido na PT mas sim distribuído aos acionistas.

Ao longo de todos estes anos quanto é que a PT entregou aos seus acionistas? Cerca de 8 mil milhões de euros, avançava Pedro Santos Guerrerio no Expresso. A utilização da Ongoing/Nuno Vasconcelos como ponta de interesses era uma constante. O envolvimento do BESI em todas as operações tem o seu auge na venda da operadora brasileira Vivo aos espanhóis da Telefónica. Depois veio a compra da Oi. É o Governo liderado por José Sócrates, influenciado pelo BES, que insiste na ideia de que a PT tem de estar presente no Brasil. Já com Zeinal Bava à frente da operadora, o BESI começa a procurar uma empresa para comprar e descobre a Oi, operadora que, apesar de cara, estava tecnologicamente ultrapassada.

Este é um episódio central de 2006 quando se revisita a OPA falhada de Belmiro de Azevedo e das discussões sobre o fim dos direitos especiais e alteração dos estatutos para que pudesse deter mais de 10% dos direitos de votos. Durão Barroso já se tinha insurgido em 2002 contra o instrumento das golden share, afirmando que um dia seriam proibidas. Vieram a ser abolidas apenas em 2011.

A Sonae afirmava há oito anos que no Brasil não poderia haver dois players. Um deles teria de sair e a Sonae queria comprar. Os detratores da proposta, com destaque para o BES, afirmavam que o objetivo seria vender, perdendo a PT o melhor mercado. Já sabemos que a solução foi exatamente a venda mas, por quem defendia a sua manutenção. As mais-valias foram em grande parte distribuídas pelos acionistas, BES, Ongoing e Caixa, como contrapartida pelo apoio anti-Sonae. Zeinal Bava fez o trabalho de casa que os acionistas mandaram.

O Brasil já tinha sido “madrasta” com a Zip.net, comprada por uma fortuna e revendida a perder rios de dinheiro, e, mais recentemente, voltou a sê-lo. A Oi, entretanto, liderada por Zeinal Bava, precisa de crescer e ultrapassar a problemática tecnológica. O processo de fusão entre a Oi e a PT, com a criação da CorpCo, foi duramente afetada pelos investimentos da responsabilidade de Henrique Granadeiro, na ordem dos 897 milhões de euros em obrigações do GES/Rioforte. Zeinal Bava diz não saber, mas ninguém acredita. Os acionistas da PT aceitam uma redução substancial do peso na futura empresa, de 37,3% para 25,6%, até que a questão da Rioforte se resolva. A Oi está em dificuldades. Ou compra ou é comprada, e a opção dos acionistas, sem conhecimento da gestão, é vender ativos. As posições da PT em África e no mercado lusófono são as primeiras, mas também os ativos da PT Portugal (que nada tem a ver com a PT SGPS). Há quem fale em poder de veto desta empresa na questão da venda de ativos) irão para o mercado rapidamente. Já há interessados europeus.

Na visão da sociedade, e do ex-presidente Luií Todo Bom, está a “assistir-se à maior destruição de valor dos tempos do Portugal moderno” e sublinha, em declarações ao OJE, “saber do que fala porque sabe como deixou a empresa”. A PT como porta-aviões do investimento externo no mundo lusófono vai acabar como empresa de dimensão regional. E, dependendo do comprador, todo o ativo a nível de tecnologia poderá, ou não, perder-se. É sintomático que as quedas aconteçam em dominó: GES/BES, família Espírito Santo, PT, Henrique Granadeiro e Zeinal Bava. Há um novo ciclo que se avizinha. Ex-presidentes como Murteira Nabo ainda acreditam que haverá investimento nacional para retomar o projeto lusófono com a PT. Há apelos ao Governo. Mais uma vez o Estado omnipresente, só que desta feita qualquer pedido fará ricochete nas obrigações europeias e na incapacidade do antigo poço sem fundo que foi a Caixa.

Numa PT moribunda, onde os trabalhadores estão em quase pânico, sem saber o que vem aí, vale a pena recordar afirmações de Luís Todo Bom, atual inspetor-geral e presidente do Conselho Consultivo do Grupo Portugal Telecom. “Como tudo na vida, isto é a debacle final. A PT foi sempre partida, vendida pouco a pouco, até se chegar onde se chegou”. Quando comparada com a Telefónica, constatamos que esta companhia tem operações de grande dimensão e em toda a América Latina, incluindo o Brasil. “A PT saiu do Brasil, e em Angola nunca se consolidou. Zeinal Bava foi uma única vez a Angola e Henrique Granadeiro nunca lá foi”, diz Todo Bom. Acrescenta que, no Brasil, “uma fusão assimétrica nunca dá bom resultado. Vem nos livros. Desagrega-se a curto prazo, o parceiro maior toma as rédeas e defende os seus interesses”.

 

Vítor Norinha e Carlos Caldeira

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