As mulheres de Kobani

Olho para elas e antecipo as mulheres que nos anos 50 ganharam o fim da guerra. Nesse tempo ainda não combatiam, faziam os aviões, as fardas e as armas com que os seus pais, irmãos e maridos se matavam, vencendo o inimigo. Agora perderam a droga tranquilizadora do gradualismo. E quando vencerem, depois de matarem […]

Olho para elas e antecipo as mulheres que nos anos 50 ganharam o fim da guerra. Nesse tempo ainda não combatiam, faziam os aviões, as fardas e as armas com que os seus pais, irmãos e maridos se matavam, vencendo o inimigo. Agora perderam a droga tranquilizadora do gradualismo. E quando vencerem, depois de matarem e terem morrido, vão querer estar na frente de um novo mundo, que é novo para elas como foi para as americanas das fábricas, depois do fim daquela guerra vencida.
‘Não penses na morte. Pensa em matar cinco ou seis deles antes disso’. Foi assim que Nigar Hussein, de 21 anos, se despediu da Mãe, que a beijava, antes de se juntar às brigadas da YPJ. É algo perverso, uma mulher que dispensa a gruta e o fogo que guarda para ir caçar a presa. Mas a presa matou-lhe o namorado, o pai está velho e o irmão já partiu para se juntar à brigada. Se o inimigo a apanhar, vai ser violada antes de morta ou tornada escrava. Antes disso, Mãe, vou matar cinco ou seis deles!
Trinta por cento dos túmulos de cimento, pintados de vermelho por elas, que enchem os cemitérios de Kobani, Tal Affar, Raqqa ou Rabelyah têm nome de mulher. Zuzar, Rocin, Lezgia, Viyan, Bengin. Todas combateram nas brigadas femininas da YPJ, umas sete a dez mil mulheres entre os 18 e os 40 anos que estão à beira da lenda e – mais importante – da vitória sobre o supremo mal, os assassinos invasores das terras do Curdistão – a ISIS.
As forças de Kobani são comandadas por uma mulher de 30 anos, a bem pouco balzaquiana Capitão Maysa Abdo, que adoptou o nome de guerra Narin Afrin. Os morteiros RPG são operados por Hasrat Sahad, de 23. Nofra Xeno, de 28, perdeu os irmãos, e o marido está no exército curdo dos homens. Zevim Botan, de 20 anos, disse ao ‘Daily Telegraph’ que quer ser reconhecida no Ocidente. É também por isso que lutam, pela emancipação.
O exemplo vem de cima. Uma mulher de 33 anos, apenas conhecida por General Zelal, comanda as tropas treinadas ‘durante meses’ das mulheres curdas.  ‘Não quero casar, não quero ter filhos, não vou ficar em casa o dia todo’, refere.    Podia chamar-se Mary Lou, há sessenta anos, numa cidade perdida do ‘Middle West’…
Não matam os prisioneiros – ‘para não nos parecermos com eles’. Foram fulcrais no resgate dos Yazidis, cercados pela ISIS nas montanhas do Iraque. Aceitam todos os que a elas se juntam, cristãos na sua maior parte, mas também muçulmanos descontentes com os líderes que deveriam representá-los. Os curdos, historicamente, têm uma estrutura de comando bem montada. E as mulheres aprenderam isso, mais a amizade.
Riem-se quando lhes dizem que os ferozes jihadistas têm medo delas. Se um tipo daqueles for morto por uma mulher, o céu está-lhe vedado. E aprendem depressa – a maior parte tem estudos, como a professora abatida em Ras al-Ayun, que deu origem à brigada Warsin, o nome dela. A ‘Marie Claire’, que enviou repórter aos confins da guerra, lembra o lema editorial da revista, ao falar daquelas que, por uma vez, lhe fazem a ‘cover’ – ‘chique é ser inteligente’.

Vai ser difícil vencê-las na guerra de agora. Nem sabem do que são capazes na batalha que as espera. Kobani pode não ser um fim, mas um princípio, um sonho como outros sonharam antes delas, que só acaba em ‘let the freedom ring’. Ou que nem sequer tem ponto final!

 

Márcio Alves Candoso
ma.candoso@gmail.com

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