Brexit: como a negociação está a ganhar contornos de ‘batalha campal’ iminente

Os dois lados da barricada (sim, é cada vez mais uma barricada) estão a endurecer as suas posições e as mensagens que surgem do topo das hierarquias fazem recordar a preparação para um ataque militar.

Os negociadores de ambos os lados do Brexit encontram-se esta quinta-feira em Bruxelas, com Michel Barnier, do lado da União Europeia, a encontrar-se pela primeira vez com o novo ministro britânico para a matéria, Dominic Raab. O cenário é o pior possível para o lado britânico, que ainda está na ‘ressaca’ das demissões que varreram o governo conservador de Theresa May e o reduziram aos apoiantes de uma saída suave – precisamente aquela que Bruxelas pretende.

Tanto Barnier como Raab já alertaram para a possibilidade da uma saída agressiva do Reino Unido mas ambos sabem, ou estão convencidos disso, que ela traria as piores consequências possíveis. Os dois terão uma curta reunião, seguida de um jantar de trabalho.

Nesta sexta-feira, os ministros dos Negócios Estrangeiros reúnem-se em Bruxelas, num conselho de Assuntos Gerais, exclusivamente dedicado ao Artigo 50º (o da saída de um Estado-membro), em que analisarão os resultados do dia anterior.

Na receção ao novo ‘enviado’ de Theresa May, o negociador europeu disse estar “muito feliz” por poder continuar as negociações, mas recordou que faltam apenas 13 semanas até à cimeira de outubro – altura em que a União Europeia terá de concordar com o acordo que até lá for produzido.

“Temos pouco tempo e duas coisas para fazer. Temos de concluir o acordo de retirada e ainda não chegámos aí. E temos de preparar uma declaração política sobre a nossa relação futura”, disse Barnier, citado por vários jornais.

Os dois lados da barricada estão a desenvolver esforços atrás da linha da frente (a dos encontros entre Barnier e Raab) e essas movimentações são tão importantes como o diálogo que se consubstancia entre os dois. Até porque são essas movimentações que permitem preparar ‘psicologicamente’ os Estados-membros para o que aí vem – mesmo que ninguém saiba muito bem o que será.

A opção das ‘segunda linhas’ da União Europeia parece ser a da criação de um ambiente de ‘pré-pânico: a Comissão Europeia fez sair esta quinta-feira um documento em que pede a “cidadãos, empresas, Estados membros e instituições da UE” para se prepararem para um Brexit com todos os cenários, incluindo o de uma “retirada desordenada”.

É certo que essa retirada pode acontecer, mas não é para isso que Barnier e Raab (ou o seu antecessor) se vão encontrando com regularidade. O documento é, por isso, uma espécie de convocação para a ‘batalha’: pede a preparação de planos de contingência em todos os setores da economia comum.

O tom faz lembrar os exercícios de preparação para uma corrida para os abrigos em caso de ataque aéreo. Alguns analistas consideram o documento de um alarmismo desmesurado, mas este tem também a função de ser lido do outro lado das barricadas: os britânicos devem tomar consciência de que são eles a parte mais fraca. “A retirada alterará a relação e terá efeitos significativos para os cidadãos e empresas da UE dos 27 Estados membros, alguns dos quais não podem ser remediados”, alerta a Comissão.

Do lado do Brexit, Dominic Raab também prepara os seus cidadãos para o que aí vem. A retórica é, como não podia deixar de ser, muito semelhante: preparativos severos, cautelas acima da média e planos de contingência para todos os cenários, incluindo a saída sem acordo – considerada a pior de todas – o que, diz-se, lançaria o caos na economia britânica.

É este o ambiente que se vive atrás da primeira linha de negociações – e nada indica que este seja o melhor cenário para a existência de um clima calmo e ponderado entre Barniet e Raab.

Entretanto, Theresa May prepara-se para visitar a zona de fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda, depois de ter sido acusada de não conhecer os problemas das populações que vivem de um lado e trabalham do outro. Para os analistas, a fronteira entre os dois países é o principal problema do Brexit – e aquele que ainda não tem uma forma aceitável de ser resolvido. Por isso, e apesar da visita, será, no dia seguinte, uma fronteira para esquecer.

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