“Brexit means Brexit”

Os EUA deixaram de ser a principal e mais importante alternativa que os partidários do Brexit tinham para oferecer aos que defendiam a continuidade do Reino na União.

Há algum tempo houve quem interrogasse a primeira-ministra britânica, Theresa May, sobre o que significava, verdadeiramente, o Brexit. Surpreendida com a questão, ou tendo dificuldade em responder à mesma, a Sra. May não conseguiu dizer mais e melhor de que “Brexit means… Brexit”. Literalmente: “Brexit significa… Brexit”. Uma resposta enigmática, uma verdade de La Palisse. Mas também uma autêntica “não-resposta”. Uma não-resposta que serve para nos dar uma ideia da complexidade do processo que se traduz na separação do Reino Unido da União Europeia.

Uma complexidade tal que, mesmo neste momento, impede que alguém possa garantir, com um mínimo de certeza, em que se irá traduzir esse processo de separação. Aliás, este processo tem-se caracte­rizado por uma particularidade absolutamente notável – ainda que, temos de o reconhe­cer, não completamente imprevisível. À medida que nos vamos aproximando do que deveria ser o final do próprio processo, o mesmo, em lugar de se tornar mais claro e transparente, vai assumindo maior opacidade e incerteza.

Os tempos mais recentes foram pródigos em acontecimentos que vieram lançar um novo manto de interrogações sobre este processo de desvinculação da ilha relativa­mente ao Velho Continente.

Os mais relevantes desses acontecimentos levaram à crise política e governamental que se vive em Londres, com dois influentes ministros do gabinete de May a demitirem-se do governo – precisamente os ministros para o Brexit, David Davis, e o ministro dos negócios estrangeiros, Boris Johnson.

Ambos saíram em protesto pela forma como es­tão a decorrer as negociações entre o governo de Londres e o executivo de Bruxelas. Johnson, por seu lado, não esconde que a sua ambição é vir a liderar o governo conser­vador, substituindo a própria May; e a oportunidade pode vir-lhe, justamente, da forma como se desenvolver este complexo dossiê. Ambos entenderam que a primeira-minis­tra May estava a tergiversar e a ceder em aspetos fundamentais perante a Comissão Europeia, no complexo processo negocial em curso. E aproveitaram a oportunidade para bater a porta tentando escapar incólumes a um naufrágio político que se adivinha sem grande dificuldade.

É verdade que, em lugar de optar por uma negociação pura e dura – o dito hard Brexit – May tem dado sinais de privilegiar um soft Brexit, que alguns já começam a divisar como um hard remain.

Ou seja, conduzir o processo negocial para uma situação em que Londres alcançaria o melhor de dois mundos: manteria os laços comerciais com a União, no quadro de uma ampla zona de comércio livre, mas imporia fortes limitações à liberdade de circulação de cidadãos e, sobretudo, à sujeição à legislação comunitária e à jurisdição do tribunal de justiça da União Europeia. Significaria isto que o Reino Unido partilharia das vantagens económicas do projeto comum europeu sem suportar os cus­tos políticos derivados da correlativa partilha de soberanias associada aos tratados eu­ropeus.

O esquema, convenhamos, seria engenhoso e imaginativo. Porém, por muito que a primeira-ministra se empenhe em fazê-lo prosperar, não há sinais de que o mesmo possa vir a ser aceite pelos negociadores da União Europeia. Da mesma forma que não é líquido que a esmagadora maioria dos membros da Câmara dos Comuns es­teja na disposição de sufragar uma tal abordagem do processo de separação da União Europeia.

Isto é, numa altura em que se exigiria clareza na ponta final de um processo negocial que deveria estar concluído em pouco mais de oito meses (a 29 de março de 2019), não só essa possibilidade parece estar cada vez mais distante e difícil de alcançar como, multiplicam-se as vozes dos que acreditam que a própria Theresa May terá mui­tas dificuldades em levar o barco a bom porto, não se podendo considerar a salvo de um qualquer golpe palaciano dentro do seu próprio grupo parlamentar que lhe possa custar o próprio cargo.

É, portanto, neste clima de instabilidade profunda e de crise política latente, que Lon­dres se prepara para enfrentar os meses que se avizinham. Com um problema suple­mentar mas não despiciendo. Durante muito tempo, um dos argumentos dos defenso­res do Brexit residia na relação privilegiada que ligava o Reino Unido aos Estados Unidos. Esses, porém, também são tempos passados. Como resultou evidente da recente via­gem de Trump a Londres, a Casa Branca atual não tem nem parceiros nem aliados pre­ferenciais.

A irracionalidade e errância que caraterizam a política externa de Trump não são de molde a suscitar a confiança de quem quer que seja. Para Trump não existem aliados e parceiros. Existem impulsos e interesses. Londres e a Sra. May já se apercebe­ram dessa caraterística dos novos tempos que vivemos. E, ao tomarem consciência dela, aperceberam-se que acabava de ruir a principal e mais importante alternativa que os partidários do Brexit tinham para oferecer aos que defendiam a continuidade do Reino na União.

Por tudo isto merecem atenção especial os tempos mais próximos da relação político-económica entre Londres e Bruxelas. Nada pode ser considerado como adquirido, a não ser, como afirmou May, que “Brexit means…. Brexit” – signifique lá isso o que significar, ou venha lá isso a traduzir-se no que vier. Sem excluirmos a possibilidade, tantas vezes já aqui alvitrada, de este Brexit sui generis acabar por redundar num qualquer Remain.

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