Brexit pode acelerar fim dos estímulos monetários no Reino Unido

O governador do Banco de Inglaterra afirmou esta quarta-feira que as negociações sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, e o desenvolvimento dos riscos associados, poderão levar a uma normalização da política monetária.

Inflação, consumo das famílias, investimento das empresas e, principalmente, as negociações do Brexit são fatores para que o Banco de Inglaterra está a olhar para ajustar a política monetária em tempo de riscos. O governador do banco central, Mark Carney, explicou esta quarta-feira que uma normalização poderá não demorar, dependendo do balanço de “incertezas” que estão a influenciar o Reino Unido.

“Temos de eliminar as incertezas”, garantiu Carney, num discurso no Fórum do BCE, em Sintra. O governador considera que o ambiente é “geralmente construtivo”, mas que a economia britânica enfrenta incertezas como a forma como os consumidores irão ajustar a um período de crescimento mais fraco dos rendimentos reais, o acesso ao mercado no pós-Brexit e os potenciais riscos na transição para os novos acordos com a UE e o resto do mundo.

Carney afirmou que o Banco de Inglaterra tem estado a reagir ao “choque” do Brexit e lembrou o mandato de uma inflação próxima de 2%. O governador não está, no entanto, preocupado com a atual aceleração dos preços acima do objetivo por estar relacionada com o momento que o país está a enfrentar. “O Brexit é uma situação de exceção”, explicou para justificar a inflação de 2,9% em maio, sublinhando que “as pressões inflacionárias continuam contidas”.

O comité de política monetária britânico está, por isso, à espera do momento de trade-off entre o desvio de produção e a inflação para ajustar os estímulos à economia. “É provavel que alguma remoção dos estimulos monetários se torne necessária se o compromisso enfrentado pelo comité de política monetária continue a diminuir e que as decisões sobre politica [monetária] se tornem, em linha com isso, mais convencionais”, afirmou Carney.

“O grau no qual esse compromisso se move nessa direção irá depender no grau no qual o crescimento mais fraco do consumo é compensado por outros componentes da procura, incluindo o investimento empresarial, se os salários e os custos unitários do trabalho começam a ser mais sólidos, e de forma mais geral, como a economia reagir tanto às condições financeiras mais apertadas e à realidade das negociações do Brexit”.

Carney adiantou que a estratégia do banco central também visa garantir acesso ao capital para as empresas britânicas: “com detalhado planeamento de contingência em relação aos impactos do Brexit na estabilidade financeira, as empresas do Reino Unido podem estar confiantes sobre o acesso contínuo ao financiamento num mundo incerto”.

Em plenas negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia, Carney tinha mantido o silêncio sobre o assunto durante quase um mês, mas na semana passada mostrou preocupações em relação ao impacto da mudança para a economia britânica. O governador garantiu, na altura, que não tinha pressa em aumentar as taxas, devido à fragilidade do crescimento económico do Reino Unido, lembrando os desafios do Brexit e a incerteza causada pelas negociações.

Com a inflação britânica no máximo em quatro anos, três dos oito membros do Comité de Política Monetária do Reino Unido, defenderam, no entanto, na última reunião do banco central uma subida das taxas de juro de referência do mínimo histórico de 0,25% devido aos riscos de aceleração da inflação. Sobre as divergências de opinião entre os membros do comité, Carney afirmou hoje que são normais tendo em conta o momento em cada um considera que o trade-off é alcançado.

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