Carocha: Afinal, o carro do povo não morreu

Ao fim de oito décadas, o veículo que atravessou diversos momentos históricos chegou ao fim de uma longa estrada. O Carocha foi um símbolo do renascimento económico da Alemanha do pós-guerra e foi um sucesso de vendas nos Estados Unidos. Em Portugal, o espírito continua bem vivo: além de um hino, são vários os clubes e os colecionadores que guardam relgiosamente um modelo que pode valer mais de 100 mil euros.

Cândido Baptista, responsável da Clínica do Carocha, em Fernão Ferro, já perdeu a conta às centenas de automóveis que entraram na sua oficina para fazer a revisão e mudar óleo. Se precisarem de acessórios também não há problema. “Há sempre peças para estes modelos em todo o mundo, até na Índia e na Tailândia”, explica ao Jornal Económico.

Mais a norte, na Associação dos Amigos dos Carochas de Aveiro, o presidente João Redondo é o homem responsável por mais de 500 sócios que adoram motas antigas e carros clássicos. “Temos muitos sócios com Carochas. Este carro tem uma mecânica muito acessível. Nunca há problemas de aquecimento porque a refrigeração é feita a ar. Os automóveis passam de geração em geração. Mas também há quem venda para ir comprar um modelo mais antigo”, acrescenta João Redondo.

Segundo as contas de Cândido Baptista, da Clínica do Carocha, um carro dos anos 40 poderá valer hoje em dia mais de 100 mil euros, dependendo do estado de conservação. Já um modelo da década de 50 chegará aos 50 ou 60 mil euros em leilão.

Se a prova de que o Carocha pode ser o único automóvel do mundo capaz de flutuar, o feito deve-se a dois amigos italianos. Em 1964, entraram com o carro nas águas do estreito de Messina, em Itália, e conseguiram boiar durante 38 minutos. Um feito comemorado 20 anos depois com igual travessia.

Também Malc Buchanan partiu da ilha de Man e cobriu os 59 quilómetros que distam da costa inglesa de Cumberland, em sete horas e meia. A Baía de Hong-Kong, o Lago Michigan e os Estreitos de Singapura foram também palco de aventuras do Carocha.

O Carocha foi idealizado por Hitler. Quando chegou ao poder, o ditador alemão exigiu um carro para cada família, que transportasse dois adultos e três crianças. Por isso, pediu ao engenheiro Ferdinand Porsche que criasse um automóvel para o povo. Em 1936, Ferdinand construiu o primeiro protótipo e deu-lhe o nome de Kraft Durch Freude, que significa “Força através da alegria”. Mais tarde, o nome alterou-se para Volkswagen (“carro do povo”). No início da Segunda Guerra Mundial, a principal fábrica de produção, perto da cidade de Wolsburg, foi destruída pelos bombardeamentos das forças aliadas.

Mas quando as tropas inglesas dominaram a região decidiram voltar a fabricar o Carocha. As exportações do automóvel cresceram rapidamente e os lucros ultrapassavam os mil milhões de euros anuais. Por isso, a marca Volkswagen criou um departamento só para tratar das vendas. Os funcionários admitidos tinham de ter falar e escrever o básico em pelo menos 20 línguas.

Os muitos nomes e os recordes
Além de flutuar na água, o carro ganhou ainda mais um recorde: o de motor mais resistente. “Ao contrário da Alemanha Ocidental, onde o seu baixo preço, qualidade e durabilidade representavam uma normalidade pós-guerra, nos Estados Unidos as características do Carocha emprestaram um ar não convencional a uma cultura automóvel dominada pelo tamanho e carisma”, escreveu Bernhard Rieger no livro “O Carro do Povo”, citado pela CBS.

Em 1995, o conta-quilómetros do carro de Albert Klein, um americano residente em Pasadena, na Califórnia, marcava 2.512.852 quilómetros, o equivalente a 62 voltas à Terra. Mais nenhuma outra marca de automóveis conseguiu atingir este valor.

O cinema também ficou rendido ao automóvel do povo. Os êxitos de bilheteira “Herbie, um Carocha dos Diabos” ou “Herbie no Rally de Monte Carlo”, são alguns dos filmes produzidos por Hollywood. Na música o êxito repetiu-se. Na capa do álbum “Abbey Road”, dos Beatles, lançado em 1969, surge um carocha em segundo plano.

Atualmente existem mais de mil clubes de fãs espalhados pelo mundo. Para cada país, o carro tem uma designação diferente. Por exemplo, no Irão é conhecido por Fólex, nas Honduras por Cucarachita e na Austrália por Dak Dak. Os ingleses e americanos traduziram para “Beetle”, mas é também conhecido por “Maggiolino” (Itália), “Kever” (Bélgica e Holanda), “Buba” (Jugoslávia), “Escarabajo” (Espanha), “Fusca” (Brasil), “Coccinelle” (França), “Aelg” (Suécia) ou “Sedan” (México).

No dia 22 de junho de cada ano os admiradores reúnem-se para comemorar o dia mundial do Carocha. Portugal também se associou à festa. Em 1997, na freguesia de Paços de Brandão, em Santa Maria da Feira, foi estreado mundialmente um hino para o homenagear: “Nasceu na Alemanha, vive em todo o mundo, lindo Volkswagen não pára um segundo… todo redondinho, fecha-se num ovo, é forte e robusto, é o carro do povo.

O fim de uma era 81 anos depois
A mesma fábrica no México onde, em 2003, a Volkswagen deu por terminada a produção da primeira geração do Carocha serviu agora de palco para uma nova despedida. Na quarta-feira, 10 de julho, saiu da linha de montagem de Puebla, diretamente para o Museu da Volkswagen, em Wolfsburg, o derradeiro exemplar do Beetle, o icónico modelo alemão.

Em produção desde 1938 e com mais de 21,5 milhões de unidades fabricadas ao longo destes 81 anos, o automóvel conheceu várias gerações: Clássico, “Beetle” e “Beetle Last Edition”, limitada a 5.961 unidades.
Segundo o próprio patrão da Volkswagen, Herbert Diess, o regresso do Carocha só fará sentido tirando partido da plataforma modular MEB, projetada especificamente para carros elétricos. Isso permitiria, inclusivamente, dotar o Beetle de novo com tração traseira – uma das características mais marcantes do modelo lançado há 81 anos. A última versão construída, com o desenho de 2012, de apenas 5.961 exemplares, vai ser exposta num museu mexicano, em Puebla, para marcar o fim da produção do famoso veículo.

Apesar do fim anunciado, o culto do Carocha continua bem vivo através dos clubes de fãs que, por todo o mundo, organizam concentrações para homenagear um carro que ficará para sempre na história.

Artigo publicado na edição nº1998, de 19 de julho, do Jornal Económico

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