Ciberguerra de perfis

O mundo começa a despertar para os perigos a que a democracia foi exposta: os manipuladores informáticos agem como mercenários, a soldo da entidade que desembolsar mais dinheiro.

Em fevereiro de 2017, um artigo do “The Guardian” começou a circular internacionalmente, expondo as ligações profundas entre um multimilionário americano com motivações políticas, Robert Mercer e Steve Bannon, na altura editor da “Breitbart News” e que viria a ser um dos estrategas de Donald Trump.

No centro dessa ligação, uma empresa de nome Cambridge Analytica teria adquirido ilegalmente, através do Facebook, as informações pessoais de milhões de utilizadores. O tratamento estatístico a que submeteram esses dados permitiu-lhes orquestrar uma complexa guerra cibernética a favor da campanha Trump nos EUA, assim como a favor do Brexit no Reino Unido. Era difícil não pensar nesta notícia como uma teoria de conspiração grotesca e uma forma de desculpabilizar muito do que correra errado em 2016.

Um ano depois, um whistleblower (denunciante), Christopher Wylie, veio a público confirmar as nossas piores suspeitas. Quantidades enormes de informação foram compradas ou ilegalmente extraídas (basta responder a alguns dos testes de personalidade do Facebook para abrir a porta a esse tipo de extração de dados), e depois utilizadas contra os utilizadores. Pior. O Facebook apercebeu-se dessa compilação de dados e não tentou investigar ou impedir a prossecução de objetivos altamente questionáveis.

A “guerra de informação” é um termo datado que já não se aplica à extrema sofisticação presente neste tipo de ofensiva, sendo “ciberguerra de perfis” talvez um termo mais apropriado. Com base em operações psicológicas que aliciam as pessoas a mudar de ideias com recurso a técnicas de boatos, desinformação e fake news, as expetativas de Bannon e Mercer terão sido certamente superadas.

O mundo começa a despertar agora para os perigos a que a democracia foi exposta, perante um denunciante cujas revelações expõem a mentalidade de manipuladores informáticos da era contemporânea que agem, na realidade, como mercenários, a soldo da entidade que desembolsar mais dinheiro. Amorais e subversivos, provaram a facilidade imensa em contornar as leis e enganar os reguladores.

Muitas das informações agora reveladas poderão explicar o desejo recente manifestado por Zuckerberg de regressar às origens e tornar o Facebook, de novo, uma aplicação meramente social. Mas será suficiente para esquecer o papel que a sua rede social teve em algumas das maiores reviravoltas políticas deste século?

E já sabe, da próxima vez que fizer um like ou responder a um teste de personalidade do Facebook, pense duas vezes. Por cada clique, pode estar a contribuir para que piratas cibernéticos recolham e vendam a sua informação, tanto para governos como organizações criminosas. E se ainda assim insistir em jogar, porque acha que é tudo fruto da paranóia, lembre-se de que eles foram bem-sucedidos nos seus objetivos em 2016.

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