Crescimento de 2,8%, take 2: afinal o que aconteceu?

Depois de estimativa provisória, INE revela hoje o valor definitivo da taxa de crescimento do PIB no primeiro trimestre. Afinal o que está a puxar pela economia?

Cristina Bernardo

Um post anterior, escrito no meu blog pessoal acerca do crescimento do primeiro trimestre, suscitou uma série de reações. Apesar de a peça ser bastante técnica, ela parece ter gerado bastante interesse, pelo que talvez valha a pena clarificar, de forma mais simples e junto de um público mais alargado, aquilo que queria (e o que não queria) dizer com o texto.

O artigo tinha duas ideias de fundo. Em primeiro lugar, sugeri que o crescimento em curso, que vemos há vários anos nos números do INE, representa apenas a retoma habitual de um choque transitório e cíclico por natureza. Tudo o que está a acontecer é a reintegração no mercado de trabalho de parte das pessoas que foram – formal ou informalmente – colocadas à sua margem desde 2008. Depois de subir, o desemprego desce.

Esta sugestão parece-me tão trivial quanto consensual, e não deveria surpreender nenhuma pessoa habituada a pensar em ciclos económicos. Sendo a recessão de 2009-2013 causada por um choque no emprego, é no mínimo expectável que a sua recuperação seja marcada por um movimento simétrico. A produtividade é um problema, mas nem é um problema recente nem tem muito que ver com a crise do subprime ou com a crise da dívida soberana.

A segunda ideia do post era a sugestão de que o crescimento de 2,8% não é um quebra-cabeças tão grande quanto parece, porque parece ser apenas mais um ponto de uma tendência que tem vindo a ser desenhada desde 2013. Quando limpamos os programas do IEFP da imagem, obtemos uma imagem depurada com uma tendência de aceleração crescente.

Mas ao ler algumas reacções ao post notei que muita gente não fica satisfeita com este tipo de explicação. O ‘Ah, é a tendência habitual’ não é uma história intelectualmente apelativa. Falta-lhe a componente ‘narrativa’ de pessoas a agirem sobre coisas, e de causas a produzirem efeitos.

Suponho que seja pela mesma razão que os adeptos de futebol têm tanta dificuldade em perceber que os bons e maus resultados por vezes não têm nada a ver com o treinador em funções. Correndo o risco de fazer chover no molhado, vou tentar clarificar a ideia, recorrendo a exemplos mais concretos.

Vamos imaginar uma economia afectada por uma forte recessão e em que, por hipótese, o crescimento da produtividade é zero e a demografia é imutável. Até onde pode crescer esta economia? A velocidade máxima atingível em cada ano é dada por dois factores: i) o número de desempregados disponíveis para trabalhar; ii) o ritmo a que as empresas vão abrindo vagas para os colocar.

É por isso que muitos dos grandes surtos de crescimento surgem logo depois de recessões. Se as recessões foram profundas, o desemprego será alto, e se o desemprego for alto a criação de emprego subsequente também será elevada. Nesse caso, basta que o ritmo a que o desemprego converge para o valor normal seja alto para que o PIB cresça bastante.

Por exemplo, em 2011, quando a crise da dívida europeia começou a aquecer, discutiu-se imenso os casos de sucesso dos países bálticos, que no meio do turbilhão conseguiam crescer acima dos 5%. Mas as razões do furor báltico eram muito pouco misteriosas. Bastava olhar um pouco para trás que percebia-se logo a natureza do crescimento: o habitual bouncing back de economias flexíveis. Assim que o output gap foi sendo fechado, o crescimento voltou a convergir para valores normais.

A Grande Depressão americana é outro exemplo clássico deste bouncing back súbito. Isto é um pouco como dizer que quando estamos a bater com a cabeça há uma forma fácil de nos sentirmos melhor: basta deixar de bater com a cabeça. Mas depois de pormos de parte esse incómodo, é preciso encontrar outra forma qualquer de melhorar sustentadamente o nosso bem-estar – e, por razões óbvias, voltar a bater na parede não é uma sugestão inteligente.

(Uma pequena nota: é possível que este processo de ‘recessão-retoma’ seja mais complicado do que isto devido a fenómenos de skill mismatch: pessoas que perdem empregos num sector e que têm de se requalificar para encontrar um posto de trabalho numa área diferente. Mas parece-me que estas fricções serão, na prática, muito pouco relevantes. No caso dos EUA, por exemplo, a hipótese tem muito pouco suporte – e tem menos ainda depois de a taxa de desemprego ter voltado aos níveis pré-crise).

Portanto, e se a histerese não for muito grande, recessões profundas podem, em princípio, criar um enorme potencial de crescimento no período subsequente. A forma e a dimensão da recuperação subsequente dependem do ritmo e do perfil a que a reabsorção de desempregados se fizerem.

Se olharem para a imagem lá de cima vão ver um perfil em V: os países bálticos sentem o choque de uma só vez, mas no ano seguinte recuperam a maior parte das perdas passadas, abrandando o ritmo de crescimento daí para a frente. E este parece ser mais ou menos o ‘esquema mental’ que FMI, OCDE e Comissão Europeia usam para fazer previsões. O CFP agrega várias previsões macroeconómicas, e parece-me que todas apresentam, com maior ou menor intensidade, esta propriedade de ‘fading out’.

Quem pensa dentro deste quadro deve contar com um crescimento muito tímido em 2017, e cada vez mais modesto daí para a frente. Afinal de contas a economia saiu da recessão em 2014, o output gap está a ser fechado desde então, e como o ritmo a que ele é reduzido tende a diminuir, a ‘margem de manobra’ para crescer pela via de absorção dos desempregados é progressivamente menor.

Mas e se o fecho do output gap assumir a forma de um U invertido (Nota: há várias letras em torno das quais as reformas se podem desenhar) Ou seja, e se o ritmo de criação de emprego começar a crescer lentamente, acelerando até atingir a velocidade de cruzeiro e abrandando a partir daí?

Se for esse o caso, então o que estamos a ver agora é exactamente o que seria de esperar: um crescimento progressivamente maior do emprego, começando de baixo e cavalgando para taxas cada vez mais robustas, até eventualmente começar a perder fulgor.

Essa era a sugestão do post anterior. Aliás, se eu olhar para as últimas três recessões, parece-me ser mais ou menos esse o perfil das recuperações. Na verdade, a regra histórica até tem sido o emprego cair no primeiro ano após a saída da recessão, estugando o passo a partir daí.

A imagem de cima compara as últimas três recessões, deduzindo à criação de emprego o aumento da população em idade activa, para tentar ‘controlar’ o facto de as forças demográficas serem radicalmente diferentes em cada período. Não é para levar muito a sério, é mesmo só para reforçar a ideia de que o fading out implícito na maioria das previsões macroeconómicas estar longe de ser óbvio no caso da economia portuguesa.

As comparações europeias são sempre arriscadas, porque cada país tem as suas próprias circunstâncias, está exposto a choques diferentes e provavelmente atingiu o ‘fundo’ do ciclo em momentos divergentes. Em todo o caso, se usar os dados ajustados de Portugal e os comparar com os de Espanha, não me parece que em termos de timings e valores haja uma grande divergência.

A imagem mostra que o ritmo de crescimento do emprego espanhol foi acelerando gradualmente até chegar aos 3,4%, e perdendo algum fulgor, de forma muito gradual, a partir. Portugal também foi melhorando o ritmo de crescimento de emprego ao longo do tempo, mas com menor vigor durante parte de 2013 – o que poderá explicar o facto de a taxa ter continuando a acelerar durante mais tempo.

Enfim, neste ponto já estamos a discutir décimas e é possível inventar mil e uma histórias para justificar pequenas diferenças. A conclusão principal que gostaria de reforçar é que em traços largos a criação de emprego do primeiro trimestre pode perfeitamente ser o produto de dois efeitos básicos, um certo e seguro (enorme pool de desempregados) e outro mais especulativo (retoma do emprego em ‘U invertido’).

P.S.- Já agora, note-se uma coisa: esta explicação não é uma alternativa a explicações deste género. É um complemento. Como é óbvio, o output gap não se fecha por geração espontânea. A economia só volta a convergir para o seu potencial mediante a actuação de forças económicas que a empurram nesse sentido, como descida do preço do petróleo, a desvalorização do câmbio real, um choque de procura externa, melhores condições financeiras, melhores expectativas, etc.

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