Crime financeiro: governação e riscos

A crescente pressão resultante dos desafios regulatórios, escrutínio reputacional e escassez de talentos, obriga a respostas estruturais, de maior oferta de valor.

As mudanças regulatórias no sector financeiro têm sido de uma velocidade e complexidade vertiginosas, com implicações relevantes nos modelos de negócios e estruturas organizacionais que os suportam.

A crise desencadeou e mostrou inúmeras falhas críticas nos controlos que exigiram medidas imediatas. Em reposta, surgiu uma tendência – adicionar camadas de controlos e afetar recursos de forma intensiva e discricionária. Não se formou uma abordagem estrutural e de mitigação das causas e raiz dos riscos. Pelo contrário, adicionou complexidade e sustentabilidade questionável.

O âmbito, o foco regulatório e os riscos continuam não só a expandir-se como a ser menos tolerantes, mais exigentes e sujeitos a escrutínio estreito, particularmente nos riscos de conduta, corrupção e fraude em diversos níveis, relação com contrapartes/subcontratados, restrições derivadas de sansões e branqueamento de capitais e financiamento do terrorismo, riscos estes que emergem do contexto atual.

Terão aqueles riscos da disciplina Crime Financeiro o mesmo carácter e natureza e serão geríveis de forma similar, ou estarão e terão componente diversa e extensa da conformidade? Um inventário integrado de riscos operacionais e de conformidade, taxonomias de riscos, processos e controlos, remediação e metodologias aplicáveis a Crime Financeiro, demonstram exigir saberes e necessitam de abordagem diversa daqueles da esfera da disciplina Compliance.

O modelo organizacional de controlo tradicional foi projetado numa era diferente, para uma finalidade diferente, num contexto diferente.

Nessa distinção impactante das disciplinas – Compliance e Crime Financeiro – reside o estado da arte. Aqueles que descartarem o antigo modelo e se estruturarem para esta nova realidade de modelo organizacional autonomizando-as, desfrutarão de vantagem competitiva, tornando o quadro de riscos e controlo mais efetivo e poderoso.

A crescente pressão resultante dos desafios regulatórios, escrutínio reputacional e escassez de talentos, obriga a respostas estruturais, de maior oferta de valor, que reforce a visão e especialização numa cobertura abrangente dos riscos e facilite uma alocação mais eficiente de recursos sem se perder uma visão integrada de todos os tipos de risco, tornando a organização mais robusta e sustentável.

Redesenhar a estrutura de governação destas disciplinas e domínios de risco segregando-as, naqueles que já o fizeram, observam-se avanços nos níveis de mitigação e controlo dos riscos, e uma melhor qualidade de supervisão ao mesmo tempo que se obtêm aumentos de eficiência, proporcionando melhores serviços, reduzindo custos e complexidade estruturais – estruturar e gerir diferente aquilo que é diverso.

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