Entrevista a David Marçal: “Os mais perigosos inimigos da ciência são os ignorantes com poder”

É doutorado em bioquímica e dedica-se à divulgação científica, através de diversos projetos educativos e de comunicação, além da publicação de livros. Em entrevista ao Prisma, identifica os principais inimigos da ciência: desde os negacionistas das alterações climáticas até aos movimentos anti-vacinas, passando por ditadores que falsificam a ciência para encaixar numa ideologia política.

Cristina Bernardo

No livro “A Ciência e os Seus Inimigos” destacam-se quatro categorias de inimigos: os ignorantes, os vendilhões, os fundamentalistas e os cientistas tresmalhados. Quais são os mais perigosos?

Penso que os mais perigosos são os ignorantes com poder. Especialmente quando a ignorância pode estar ao serviço do autoritarismo. Portanto, há a ignorância involuntária, a ignorância por não saber, mas por outro lado há a ignorância deliberada. Ou seja, aquela ignorância que não é ingénua, mas que pretende impor a arbitrariedade, isto é, ignorar os factos, ignorar os argumentos, ignorar a razão, para impor uma agenda pessoal. Como é claramente o caso de Donald Trump, atual presidente dos EUA. E também há a ignorância militante e proselitista, aquela ignorância que pretende semear e alargar a ignorância, no fundo para impor essa agenda pessoal. Eu diria que esses são os mais perigosos, até porque podem conduzir ao autoritarismo, podem conduzir a “soluções” de ditaduras. No entanto, aqueles que estão mais presentes numa sociedade democrática como a nossa são, de facto, os vendilhões. São aqueles que nos enganam com produtos que dizem ter uma validade científica, sem que isso seja verdade. E esses também podem ser perigosos, em alguns casos, por exemplo para a saúde das pessoas, quando vendem tratamentos que não funcionam, argumentando que funcionam, e isso pode ter consequências ao nível da saúde pública.

 

O fenómeno dos “ignorantes com poder” agravou-se nos últimos anos e daí a sua preocupação? Ou considera que se trata de algo cíclico na história mundial?

Depende um pouco de até onde recuamos…

 

Desde a queda dos grandes totalitarismos do século XX que não se assistia a uma tão vasta infiltração de ideias anti-científicas na esfera do poder político…

Sim, é verdade. A ciência sempre esteve associada às sociedades mais livres. Não é por acaso que a ciência floresce melhor, e funciona melhor, em sociedades livres. A ciência precisa de liberdade de opinião, de liberdade para pensar. Na ciência tem razão quem apresenta provas e não quem está acima na hierarquia. E nas sociedades autoritárias, muitas vezes pretende-se que a ciência esteja de acordo com uma determinada ideologia. Como é o caso da ciência alemã, do nazismo, ou a ciência socialista que remonta ao tempo do estalinismo. Portanto, quando nós queremos dobrar aquilo que são os factos científicos, para eles encaixarem numa determinada ideologia, normalmente estamos a falsificar a ciência. Estamos a dizer que o que importa não é a natureza, o que importa não é o que é, mas aquilo que nós queremos que pareça que é. Isso dá mau resultado. E prova disso é que os países que ganharam a II Guerra Mundial, os vencedores, são, de facto, os países que tinham sociedades mais livres, onde a ciência pôde florescer mais pujantemente, de uma forma mais efetiva. A ciência e a liberdade são duas faces da mesma moeda.

 

A vitória dos Aliados foi um marco importante para a ciência…

Penso que a partir daí a ciência ganhou uma grande importância. Quer dizer, a ciência sempre teve importância ao nível militar. A ciência não se impôs historicamente, a partir do século XVI, não se impôs no meio académico, inicialmente. Mas impôs-se porque tinha aplicações práticas. Permitia encontrar caminhos no meio do mar, construir fortificações mais eficazes, apontar melhor os canhões (fazendo contas de balística e de trajetórias), impôs-se por causa dessas aplicações práticas. Não porque os filósofos escolásticos das universidades tivessem de repente aderido todos ao pensamento científico. A ciência impôs-se porque era útil, porque dava uma vantagem. E, de facto, diria que nos últimos cinco séculos, a hegemonia das nações está associada à ciência e à técnica. Primeiro a técnica e depois a ciência. Por exemplo, no caso da expansão ultramarina dos países ibéricos, foi uma grande vantagem técnica que permitiu que esses países ganhassem a hegemonia global nessa altura. E desde então para cá que tem sido assim. Hoje em dia, os países que são grandes potências globais também são grandes potências da ciência e da técnica. E no século XX isso tornou-se particularmente evidente. No caso da II Guerra Mundial, os países vencedores desse conflito ganharam todas as corridas científicas em que se meteram. Por exemplo, o caso do radar que foi desenvolvido na Inglaterra e deu uma grande vantagem nas guerras do espaço aéreo. Aliás, no final da II Guerra Mundial, Winston Churchill escreveu que “se a ciência britânica não tivesse sido superior à ciência alemã, nós teríamos sido derrotados e, sendo derrotados, nós teríamos desaparecido”. Portanto, ao longo do século XX há realmente uma perceção de que a ciência é extremamente vantajosa ao nível político. É a ciência que permite às nações e às sociedades afirmarem-se. Por isso concordo que não deixa de ser paradoxal que, no início do século XXI, vejamos sociedades em que sobem ao poder políticos com um discurso e uma atitude anti-científicos. Que procuram desvalorizar a ciência para impor uma agenda pessoal. No fundo, esse movimento, quanto muito poderá circunstancialmente favorecer esses líderes, mas vai enfraquecer as sociedades em que eles se inserem.

 

“As vacinas e os antibióticos conferem-nos uma sensação de segurança tão grande em relação às doenças infecciosas que (…) muita gente já não está preocupada com as doenças infecciosas. Está mais preocupada com os riscos das vacinas, do que com os riscos das doenças que as vacinas previnem. (…) Isto é um problema de ‘Primeiro Mundo’. Ou seja, é o próprio sucesso das vacinas que abre espaço ao movimento anti-vacinas”.

 

Na Itália, o Movimento 5 Estrelas, que acaba de formar um Governo de coligação, lançou campanhas anti-vacinação que estão a gerar efeitos catastróficos na saúde pública. Como é que vê essa situação?

Vejo com muita preocupação. O Movimento 5 Estrelas insere-se numa lógica populista, é um partido que diz às pessoas aquilo que elas querem ouvir, para ganhar eleições. E certamente identificou que há uma franja do eleitorado que está à procura de uma validação para essas opções anti-científicas, das quais essas pessoas estão convencidas. Penso que é uma questão de mercado eleitoral…

 

Como é que se explica esse convencimento, ou a difusão de ideias anti-científicas nas sociedades contemporâneas? Deve-se a um fraco ensino da ciência nas escolas?

No caso específico das vacinas, eu acho que é ‘chorar de barriga cheia’. As vacinas e os antibióticos conferem-nos uma sensação de segurança tão grande em relação às doenças infecciosas que nós já não estamos preocupados, ou muita gente já não está preocupada com as doenças infecciosas. Está mais preocupada com os riscos das vacinas, do que com os riscos das doenças que as vacinas previnem. Muitos médicos atuais, em Portugal, da minha geração [David Marçal nasceu em 1976], nunca viram um doente com sarampo. Alguns terão visto agora, porque houve surtos episódicos e contidos de sarampo em Portugal, um deles infelizmente com um caso trágico. As pessoas que são pais e mães, hoje em dia, nunca terão visto alguém com poliomielite, nunca viram alguém com varíola, uma doença erradicada no final dos anos 70…

 

É um problema de “Primeiro Mundo”?

Isto é um problema de “Primeiro Mundo”. Ou seja, é o próprio sucesso das vacinas que abre espaço ao movimento anti-vacinas.

 

Carlos Fiolhais & David Marçal, “A Ciência e os Seus Inimigos” (Gradiva, 2017).

 

Em resposta anterior, alertou para a forma como os regimes totalitários ou autoritários instrumentalizam a ciência. Há um caso paradigmático, em torno do agrónomo Trofim Lysenko, na antiga URSS, que é abordado no livro “A Ciência e os Seus Inimigos”. Que lições para a atualidade devem ser retiradas dessa história?

Acima de tudo que a ciência deve ser independente. A ciência não pode ser controlada pelo poder político, tem que haver liberdade de pensamento e liberdade de debate, ação, discussão. A ciência não se pode submeter a uma ideologia circunstancial, porque as leis da natureza são as mesmas em qualquer lugar do universo. Portanto, a força da gravidade é a mesma aqui e num outro país com uma cultura diferente, com uma ideologia diferente. E se nós tentarmos dobrar a ciência, às nossas convicções e às nossas ideologias, nós estamos a falsificar a ciência. Isso tem consequências. No caso de Trofim Lysenko, as consequências foram dramáticas, resultou na fome de milhões de pessoas. Por uma teoria absolutamente errada e que, no fundo, era uma teoria oposta à da evolução das espécies, a qual não era considerada como estando em linha com uma certa visão socialista do mundo, era uma coisa muito competitiva e fazia muito mais lembrar o capitalismo.

 

Uma espécie de biologia ideológica?

Lysenko propõe, de facto, uma teoria para explicar a biodiversidade que tem como base algo muito mais compatível com o socialismo, há uma certa ideia de cooperação biológica, há uma certa ideia quase lamarckiana de transmissão das características adquiridas… E isso teve toda uma série de repercussões negativas, porque essa teoria estava obviamente errada, e o que é interessante é que estava errada e pôde estar errada porque nesse ecossistema, nesse ambiente, não interessava que estivesse certa, não interessa as provas, mas interessava o que parecia. Ao mesmo tempo que todas as experiências de Lysenko falhavam, que se mostravam completamente trágicas e que se mostravam completamente inúteis e a teoria completamente disparatada, os relatórios do regime continuavam a elogiar o sucesso daquela abordagem. Na altura em que milhões de pessoas na União Soviética passavam fome, a União Soviética exportava cereais como uma manobra de propaganda… Portanto, isso é um exemplo claro de como os factos não interessam. E quando os factos não interessam e se procura impor arbitrariamente uma agenda que nos interessa, isso é uma falsificação da ciência e pode ter consequências graves.

 

Por um lado, Lysenko quer ver uma construção social na natureza e na ciência, baseada numa ideologia política. Por outro lado, o regime socialista soviético também impele no sentido dessa visão, através de uma máquina de propaganda…

Sim, com certeza, é uma ditadura. Repare, nesse ambiente não tem razão quem apresenta provas, tem razão quem está mais acima na hierarquia. E isso obviamente falsifica a ciência. O que está escrito à porta da Royal Society, em Londres, a sociedade científica mais antiga do mundo, é nullius in verba, não acredites na palavra do mestre. Ou seja, não é a palavra de nenhum homem que diz o que é que está certo. São as provas, é a natureza, é a observação. Não importa quem é que propõe uma determinada teoria, importam sim as provas que apresenta em seu abono.

 

“A questão aqui não é científica, é uma questão da influência que a ciência tem na opinião pública e na decisão política. Mas também acrescento que nem sempre ‘onde há fumo, há fogo’. Por vezes também se geram alarmismos injustificados”.

 

Além da manipulação ao nível do poder político, outra vertente é a das grandes empresas. Por exemplo, quando o geoquímico norte-americano Clair Patterson descobriu a poluição do ar pelo chumbo proveniente da combustão de gasolina nos automóveis, as indústrias química e petrolífera promoveram estudos científicos que apontavam no sentido oposto e prolongaram a contaminação por mais duas décadas, até ser imposta a gasolina sem chumbo. Também há o risco de a ciência ser instrumentalizada por interesses económicos?

Sim, com certeza. Mas é difícil instrumentalizar a ciência. Aquilo que é o conhecimento em si, é difícil de instrumentalizar, porque é um empreendimento global. Para conseguir manipular, ou falsificar o conhecimento científico, implicava ter capacidade de influência sobre os cientistas em todo o mundo, sobre todas as agências financiadoras, sobre todas as revistas científicas que publicam trabalhos científicos… É esta característica descentralizada da ciência, não há uma autoridade central na ciência que diz que isto está certo ou está errado. É um consenso que se atinge através dos mecanismos próprios da ciência, em que não existe ciência sem a sua comunicação. Portanto, os resultados têm que ser publicados, têm que ser escrutináveis. As experiências, as análises têm que ser passíveis de ser repetidas, confirmadas ou refutadas. Não acho que haja um risco tão grande assim de se conseguir manipular o conhecimento científico. Há um risco grande de se conseguir manipular, no fundo, a efetividade desse conhecimento na decisão política e na opinião pública. Isso sim. Temos assistido várias vezes a tentativas de falsificação desse conhecimento científico, ou de relativização das suas conclusões. O caso mais paradigmático é o das alterações climáticas.

 

Novamente envolvendo interesses de determinadas indústrias…

Mas quanto aos riscos para a saúde pública, há também o caso do amianto. No caso do amianto, é conhecido desde os anos 20 que o pó de amianto tem consequências gravíssimas para a saúde e pode causar um determinado tipo de cancro e outros problemas de saúde graves. E, de facto, demorou décadas até que esse conhecimento que foi sendo construído e solidificado, desde os anos 20, até que esse conhecimento tivesse tido uma repercussão nos regulamentos que impedem a utilização de amianto em certas aplicações, por questões de saúde pública. Aí houve, designadamente nos EUA, bloqueios e uma inação face aos resultados científicos, com base em motivos económicos. Acabou por ser um jornalista, chamado Paul Brodeur, que publicava na revista “The New Yorker”, a denunciar essa situação. Foi a partir do trabalho dele que se introduziram regulamentos para a indústria restringir a utilização de amianto…

 

Mais do que uma disputa científica, é um combate por influência na opinião pública e na decisão política?

É verdade. Ou seja, a questão aqui não é científica, é uma questão da influência que a ciência tem na opinião pública e na decisão política. Mas também acrescento que nem sempre “onde há fumo, há fogo”. Por vezes também se geram alarmismos injustificados. O Paul Brodeur logo a seguir, talvez entusiasmado pelo seu sucesso e o grande serviço que prestou à humanidade com a questão do amianto, andou sempre à procura de outras questões, de um novo amianto, de  um novo encobrimento, mas a partir daí foi só tiros ao lado. Primeiro estava convencido de que as radiações em micro-ondas nos iam matar a todos muito rapidamente, depois eram os campos magnéticos dos cabos de alta tensão que nos estavam a causar cancros a todos, especialmente às crianças que viviam lá perto, e nada disso tinha realmente um fundamento racional. Portanto, é preciso ter cuidado, de um lado e do outro pode haver uma falsificação da opinião pública. Há alarmismos injustificados, como no caso das vacinas, em que a ciência mostra que os riscos são muito favoráveis à utilização de vacinas. No caso das alterações climáticas, o que a ciência mostra é que, de facto, há uma preocupação legítima. Em todos estes casos, o que está em causa é o papel da ciência na decisão política e na opinião pública.

 

“Teve consequências naquilo que é a estrutura da nossa academia que, ao longo do século XX, foi uma universidade avessa à investigação. A investigação nem sequer era muito bem vista. Penso que hoje em dia, as nossas universidades, já temos universidades muito viradas para a investigação, para a inovação, mas foi um peso que se teve que arrastar e que ainda nos marca”.

 

Tendo Portugal vivido 41 anos sob o regime do Estado Novo, isso teve efeitos nocivos ao nível do desenvolvimento científico do país?

Sim, teve, até por uma questão muito direta que é a educação. Não há desenvolvimento da ciência, e de um sistema científico, sem educação. E Portugal, que já entrara no século XX com níveis de analfabetismo enormes, e com um atraso enorme em relação a outros países, não recuperou desse atraso durante as décadas do Estado Novo. Só a partir da revolução do “25 de abril”, com uma generalização da educação e dos níveis mais elevados de ensino a faixas mais amplas da população, é que nós de facto conseguimos ter condições para ter uma massa crítica, para ter pessoas que podem ambicionar seguir carreiras científicas, para a ciência poder ter um papel na nossa sociedade. Porque até aí seria um paradigma da ciência do século XIX. Eu costumo dizer, no que diz respeito à ciência, que nós estivemos no século XIX até ao “25 de abril”, porque tínhamos uma pequena comunidade científica, virada para ela própria e até mais para o estrangeiro do que para o país. A qual até podia ter alguns expoentes de qualidade, nós tivemos um Prémio Nobel da Medicina, o Egas Moniz, em 1949…

 

Embora seja contestado…

Contestado, é verdade. Hoje em dia há quem defenda que se deve retirar o Prémio Nobel a Egas Moniz, mas isso é outra história… Portanto, há esta questão da educação, no Estado Novo, ficámos muito para trás na educação. E também há a questão das perseguições políticas a cientistas, que também houve em Portugal. Alguns foram obrigados ao exílio, outros foram expulsos da Função Pública… E isso teve consequências. Teve consequências naquilo que é a estrutura da nossa academia que, ao longo do século XX, foi uma universidade avessa à investigação. A investigação nem sequer era muito bem vista. Penso que hoje em dia, as nossas universidades, já temos universidades muito viradas para a investigação, para a inovação, mas foi um peso que se teve que arrastar e que ainda nos marca. Apesar do grande avanço, tanto no ensino superior como na ciência, nas últimas três décadas, temos que nos lembrar sempre de onde é que nós viemos.

 

Na sua perspetiva, a Internet é uma poderosa ferramenta de divulgação da ciência, ou tem um lado negativo que suplanta esse virtuosidade da divulgação? Por exemplo, ao colocar no mesmo patamar os cientistas, os propagandistas, os negacionistas do Holocausto, os movimentos anti-vacinas, os lunáticos da “Terra Plana”…

Eu diria que ambas as coisas. É sem dúvida uma poderosa ferramenta de divulgação da ciência, não se pode excluir um meio de tão ampla difusão. Mas, por outro lado, a Internet, designadamente as redes sociais, também são um ecossistema novo em que há uma espécie de anulação, ou uma espécie de queda dos especialistas. Antigamente, para uma ideia vingar, ou poder ser amplamente difundida, tinha que passar por uma série de barreiras. Tinha que passar por decisões de editores, por uma certa validação de uma elite  intelectual… Com a Internet, com as redes sociais, isso já não acontece. Portanto, consegue-se gerar uma certa massa crítica a partir do nada. Ou seja, uma ideia pode ser difundida sem que tenha qualquer processo de revisão, de edição, de validação, de confronto com ideias de especialistas. Nesse aspeto é uma realidade recente, da última década, que possibilita essas oportunidades de criar bolhas de concordância à volta de disparates. Penso que isso será inevitável e nós temos é que aprender a lidar com isso.

 

“De cada vez que se faz um debate sobre alterações climáticas e se põe um defensor do ponto de vista científico em confronto com um negacionista, está a dar-se uma validação ao ponto de vista anti-científico que ele não tem. (…) Não é em todos os casos que nós devemos abdicar de participar no debate. Porque também não podemos perder por falta de comparência. Há pessoas que não têm um ponto de vista científico, mas têm uma grande capacidade de influência na opinião pública e, em alguns casos, pode valer a pena confrontá-las em público”.

 

Acha que um cientista deve participar nesses debates, colocando-se no mesmo patamar de um ignorante, um vendilhão, um fundamentalista, ou outro género de inimigo da ciência? Deve intervir sempre para defender o conhecimento científico?

Depende das circunstâncias, essa é sempre uma decisão muito difícil. Eu, por exemplo, quando me envolvo em debates científicos, ou debates acerca de temas polémicos com representantes da “pseudociência”, para mim é sempre uma decisão difícil. Porque há esse risco, é verdade, o risco de estarmos a validar uma posição simplesmente por aparecermos. Mas também há o risco de perdermos por falta de comparência. E assim deixar pessoas, em determinados meios, a falarem sozinhas e a serem a única voz acerca de uma determinado assunto, num dado contexto. Acho que é sempre necessário fazer uma avaliação. Os cientistas devem ter voz no espaço público e devem assumir o seu espaço no discurso público, seja na Internet, nos jornais, na televisão, até mesmo na política. Não devem obviamente entrar em todas as discussões em pé de igualdade, mas também acho que devem jogar fora, não podem só jogar em casa. Não podemos só fazer palestras no Pavilhão do Conhecimento, ou em universidades e institutos de investigação, e esperar que dessa forma se consiga mobilizar a opinião pública para os argumentos racionais e da ciência. Tem que ser uma avaliação estratégica, caso a caso. Os momentos em que os cientistas devem “ir a terreiro” e debater, até em pé de igualdade, com um representante da “pseudociência”, ou aqueles em que isso não faz sentido, porque as perdas são maiores do que os ganhos…

 

A historiadora Deborah Lipstadt recusou participar em debates com David Irving, negacionista do Holocausto, porque considerava existir um núcleo central de factos históricos, cientificamente comprovados, cuja negação não podia aceitar. Ao debater com Irving estaria a validar essa negação, essa falsificação histórica. É uma posição que faz sentido?

Eu compreendo essa posição. Repare, isso foi o mesmo que aconteceu com as alterações climáticas. De cada vez que se faz um debate sobre alterações climáticas e se põe um defensor do ponto de vista científico em confronto com um negacionista, está a dar-se uma validação ao ponto de vista anti-científico que ele não tem. Isso aconteceu, amiúde. Qual é o efeito que isso tem? Isso tem o efeito de se criar uma controvérsia social que não tem uma correspondência no plano científico. Ou seja, é uma falsa controvérsia científica. A controvérsia até pode existir no plano social, mas não tem correspondência no plano científico. No caso das alterações climáticas, o que acontece é que não há uma corrente alternativa, uma corrente científica alternativa em relação ao que pensamos hoje em dia sobre as alterações climáticas. Mas se nós assistimos a um debate com um negacionista, até podemos ficar convencidos de que há essa corrente alternativa. O mesmo se aplica ao caso das vacinas. Do ponto de vista da ciência, não há cientistas sérios, não há uma corrente científica que ponha em causa a importância e a segurança das vacinas. Concordo com essa posição, é uma avaliação difícil, mas acho que não é em todos os casos que nós devemos abdicar de participar no debate. Porque também não podemos perder por falta de comparência. Há pessoas que não têm um ponto de vista científico, mas têm uma grande capacidade de influência na opinião pública e, em alguns casos, pode valer a pena confrontá-las em público.

 

“Penso obviamente que tem de haver uma estratégia para a investigação, mas penso que tem de haver um equilíbrio, tem de haver um espaço para a investigação fundamental, para o conhecimento pelo conhecimento. Porque nós não sabemos o que é que vamos encontrar. E no que vamos encontrar, nas coisas que ainda não sabemos é que poderá estar o maior potencial”.

 

O atual sistema de financiamento da ciência está a fomentar uma espécie de “tecnociência”, utilitarista, baseada estritamente na obtenção de resultados, deixando pouco espaço para uma ciência mais livre?

Se estivermos a falar da ciência da procura de conhecimento, hoje em dia é centrada na publicação de artigos científicos. Ou seja, como se mede a produtividade de um investigador, hoje em dia é através da publicação de artigos científicos. E até há fórmulas matemáticas bastante divertidas que, de alguma forma, procuram reduzir toda a produtividade científica e importância do investigador a um único número. Levam em conta o número de artigos que publicam, o impacto que eles têm, o número de citações… A publicação é importante, porque não há ciência sem comunicação, mas corre-se o risco de estar a confundir os meios com o fim. O fim é obter conhecimento, enquanto que publicar é um meio para difundir o conhecimento, para expor o conhecimento ao escrutínio dos pares. Mais isso é um problema relacionado com a elevadíssima competitividade das carreiras científicas de hoje, em todo o mundo. À medida que as pessoas progridem na carreira de investigação, os passos seguintes da carreira são cada vez mais competitivos. Há cada vez mais candidatos e esse competitividade é tão grande que há uma pressão enorme para publicar, sobretudo em revistas de alto impacto, para terem um maior número de citações. Essa pressão também conduz, em alguns casos, até um certo incentivo à fraude científica. É também algo a que é necessário estar atento, embora uma fraude científica, se for de um assunto relevante, não se aguente durante muito tempo. Porque há outros investigadores que têm de confirmar os resultados e não se consegue enganar muita gente durante muito tempo, na ciência. E um investigador que caia em descrédito, é muito difícil que volte a ter outra oportunidade na comunidade científica. Não sei se respondi à pergunta…

 

Referia-me à ciência livre dos resultados, do financiamento, da publicação de artigos, uma ciência que no atual sistema pode parecer inútil mas, por vezes, pode abrir o caminho para novas descobertas…

É a investigação fundamental. Essa investigação é importantíssima, o conhecimento pelo conhecimento. Li em algum lado que se nós pensássemos só em aplicações, teríamos todo o tipo de velas fantásticas, mas não teríamos luz elétrica. E se nós pensarmos, por exemplo, na edição genética, uma espécie de corte-e-cola com o ADN, isso foi uma tecnologia que se chama CRISPR, tem a ver com uma enzima e uma sequência de ADN, CRISPR/Cas9. No fundo, esta tecnologia foi descoberta a estudar outra coisa qualquer. Ou seja, era uma investigação fundamental, feita em bactérias, em que se descobriu, por acaso, um mecanismo que permitia substituir segmentos de ADN de um organismo vivo, eventualmente adulto, plenamente desenvolvido, por outro segmento de ADN. Portanto, podemos substituir um gene, podemos substituir uma sequência relativamente longa de ADN. E isto foi descoberto por acaso, não foi um laboratório que disse que poderá haver um interesse económico muito grande na edição do ADN e decidiu financiar. Não, ninguém imaginava que se iria descobrir isto. De alguma forma, nós não podemos fazer apostas sobre o conhecimento que ainda não temos. É verdade que hoje em dia, até ao nível da política europeia para a ciência, há uma pressão muito forte para financiar, de alguma forma, a investigação que interessa. Muito dirigida e apontada para resultados. Penso obviamente que tem de haver uma estratégia para a investigação, mas penso que tem de haver um equilíbrio, tem de haver um espaço para a investigação fundamental, para o conhecimento pelo conhecimento. Porque nós não sabemos o que é que vamos encontrar. E no que vamos encontrar, nas coisas que ainda não sabemos é que poderá estar o maior potencial.

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