Jeremy Corbyn: O ascético que quer converter sonhos em votos

Não fuma, não bebe e garante não ter vícios. Apenas sonhos e a determinação necessária para levar o Brexit a bom porto. A somar votos junto das camadas mais jovens, Jeremy Corbyn pode vir a tornar-se o maior pesadelo de Theresa May nas eleições gerais desta quinta-feira.

Jeremy Corbyn

O artigo 50º do Tratado Europeu, que vai desencadear o início do processo de saída do Reino Unido da União Europeia (UE), foi ativado, e não tendo alternativa senão conformar-se como os resultados da consulta popular, o líder trabalhista quer mostrar que é a única força política capaz de sarar as feridas do Brexit e unir a nação. Um compromisso hercúleo tendo em conta que dentro do próprio partido se vê confrontado com uma rebelião interna.

Nascido no seio de uma família rica, desde cedo foi aos pobres e aos explorados que decidiu dedicar o seu trabalho. Acompanhado pelo irmão, Piers Corbyn, e seguindo a herança política dos seus pais – que haviam lutado na Guerra Civil Espanhola contra o regime ditatorial de Franco – Jeremy Corbyn ingressou no Partido Trabalhista. Na altura frequentava ainda a escola e era frequentemente ridicularizado pelos colegas e acusado de não ‘vestir a camisola’ por estudar em escolas privadas, reservadas à elite britânica.

Após atingir a maioridade, deixou a escola e decidiu dedicar-se a projetos de voluntariado social. Pelo meio teve uma curta passagem pelo jornalismo, mas foi dos corredores do Parlamento que ambicionou fazer a sua casa. Não fuma – algo inédito nos círculos de esquerda em que cresceu –, não bebe e não tem vícios nem gastos exorbitantes com dinheiro. É vegetariano e não tem carro, sendo várias vezes visto a andar de bicicleta pelas ruas da capital.

Em setembro de 2015 chegou à liderança do Partido Trabalhista, surpreendendo os britânicos por nunca ter ostentado qualquer outro cargo importante no partido. Munido apenas pela sua experiência junto dos sindicatos, o antigo primeiro-minitro trabalhista Tony Blair vaticinou que sob a sua liderança o Partido Trabalhista iria “passar 20 anos de fora do poder”.

A verdade é que um ano depois Jeremy Corbyn voltava a correr à liderança, deixando a concorrência pelo caminho. A pouco e pouco, foi cimentando a sua posição como líder e tornou-se uma figura de culto, algo um pouco irónico para quem sempre insistiu em não cultivar uma política de personalidade. Apesar de ser o candidato mais velho às eleições gerais desta quinta-feira, é o que mais apoio conquista junto do eleitorado mais novo.

A aproximar-se de Theresa May nas sondagens, Jeremy Corbyn sonha já com o seu primeiro dia no número 10 de Downing Street: garantiria imediatamente os direitos dos cidadãos da UE que vivem na Grã-Bretanha e convidaria Angela Merkel para dar início às negociações de Brexit. O líder trabalhista diz ainda que procederia ao desmantelamento dos “cartéis confortáveis” da política britânica e perseguiria o seu sonho de infância de criar “uma sociedade em que as pessoas marginalizadas não são ignoradas”.

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