Este país não é para mim

A nossa “luta” não passa das conversas de café, preferimos ignorar os problemas e esperar por um qualquer D. Sebastião. É sintomático do nosso comodismo e apatia.

Como povo, os portugueses têm qualidades fantásticas. A capacidade de fazer muito com muito pouco, ou o desenrascanço, é a mais reconhecida e estabelecida. Tendo apenas cerca de 0,14% da população mundial, temos também alcançado o topo em diversas actividades, das artes e desporto às empresariais. É igualmente indiscutível o talento que possuímos para sermos vistos como um actor que agrada a todos, ou que pelo menos não desagrada de sobremaneira a ninguém, como foi o caso da eleição de Guterres para secretário-geral da ONU.

Por outro lado temos alguns defeitos que nos limitam, por vezes de forma fatal, o nosso desenvolvimento. Acomodados e conformados, esses defeitos fazem de nós um povo estático, ao sabor de populismos e principalmente de cabeça na areia no que aos problemas diz respeito. Problemas que só muito excepcionalmente resolvemos, pois preferimos empurrá-los “com a barriga”. A absoluta falta de estratégia é um dos efeitos secundários do “deixa andar” e, mesmo quando batemos na parede, a ideia é sempre “desenrascar” no imediato.

O que se enquadra na filosofia do “se não me doer agora não me preocupo com isso”. Exemplos? Se vemos um chico-esperto, que nos ultrapassa numa fila sem direito ou que usa a faixa de emergência para fugir ao trânsito, refilamos, criticamos e se pudermos impedimos que seja bem sucedido. Se num estabelecimento nos dão o troco errado, exigimos imediatamente o resto. Se nos assaltam reagimos na hora ou agimos junto das autoridades. Se alguém nos insulta, na maioria dos casos não nos ficamos e respondemos à letra. Se não nos dão um artigo em condições, trocamos ou exigimos o dinheiro de volta na hora. E nunca, mas mesmo nunca, damos de livre vontade dinheiro a fura-vidas e a chico-espertos.

Contudo, se a situação ocorrer fora do nosso raio de acção imediato, remetemo-nos à inacção. Todos os dias andamos a sustentar os fura-vidas e chicos–espertos desta vida, os engravatados de São Bento e seus reais patrões. São (e foram) eles que dispõem como querem dos nossos impostos, criam a nossa dívida e, no final do dia, governam-se a si próprios como ninguém, deixando umas migalhas aos contribuintes, mas sempre com segundas intenções, nomeadamente acções para caçar votos.

Mas, apesar desta realidade, a nossa “luta” não passa das conversas de café, preferimos ignorar os problemas e esperar por um qualquer D. Sebastião. É sintomático da nossa inabilidade na busca de conhecimento: dos 20 programas televisivos mais vistos este ano, 17 foram jogos de futebol, um Telejornal (em dia de jogo), um episódio do “Secret Story” e o Festival da Eurovisão. É certo que a comunicação social não ajuda, uma boa parte usa e abusa dos politiqueiros para encher “chouriço” nos seus programas, sem qualquer interesse público. Afinal é sempre bom ter um político, passado, actual ou futuro, “amigo” da empresa.

O caso do futebol é um paradigma de incompetência. Não perdemos um minuto a discutir as qualidades que nos levaram a ter relevância no panorama mundial, as práticas de gestão que podem servir de literacia aos nossos jovens, ou o que fizeram os nossos grandes jogadores para atingirem o sucesso. Ao invés, gastamos milhares de horas a discutir miudezas completamente subjectivas.

Somos, quiçá, o país com mais utilização de politiqueiros nos media, apesar de existir uma ARTV. A minha questão é simples: fica o cidadão com algo de positivo dessas participações, ou são apenas propaganda eleitoral encapuçada? De que vale ter recorrentemente Medina, Portas, Marques Mendes, o trio da Quadratura ou os debates entre dois políticos que povoam o ar noticioso? Vão transmitir ideias ou vão, muito simplesmente, expor-se ao mediatismo?

Mas se os media assim agem é porque nós os suportamos, logo a começar pelo facto de não nos “desligarmos“ dessa lavagem cerebral, não exigindo antes programas com conteúdos de qualidade, com literacia útil e necessária, com debates envolvendo a sociedade civil, as universidades, fonte inestimável de conhecimento, os profissionais dos vários sectores, e não os burgueses sindicalistas.

Portugal não tem uma cultura de debate sério. É o que está na moda, faz-se uns quantos shows e siga para bingo. Isto é uma cultura de cidadania medíocre. Se não debatermos seriamente os temas essenciais estaremos irremediavelmente condenados à vontade alheia. Muitos lutaram pela nossa independência e liberdade, no entanto pouco uso fazemos dela naquilo que interessa – na luta por um futuro melhor para nós e, principalmente, para as próximas gerações.

A “sorte” dos mais novos é por sinal o “azar” de Portugal. Como não precisam nem querem lutar contra um sistema implacável contra a mudança, têm conhecimentos e meios para singrar lá fora, empobrecendo de forma dramática a qualidade do nosso futuro enquanto povo.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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