“Financiamento prejudica empresas nacionais”

A questão do financiamento dos grandes projetos no exterior que envolvem concursos é um problema para as empresas portuguesas. Há exemplos de quem foi afastado das parcerias internacionais por não ter o acompanhamento financeiro, alerta António Saraiva, presidente da CIP. O Salário Mínimo Nacional de 505 euros é razoável? Os portugueses conseguem viver com tão […]

A questão do financiamento dos grandes projetos no exterior que envolvem concursos é um problema para as empresas portuguesas. Há exemplos de quem foi afastado das parcerias internacionais por não ter o acompanhamento financeiro, alerta António Saraiva, presidente da CIP.

O Salário Mínimo Nacional de 505 euros é razoável? Os portugueses conseguem viver com tão pouco?

Reconhecemos que é um valor baixo, mas representa para as empresas um aumento dos encargos dos 708 para 733 euros, mesmo depois de uma redução de 0,75 na TSU, senão passaria para 738 euros. É pouco para quem recebe, é um encargo significativo para quem paga se o compararmos com os valores pagos em países concorrentes em termos de estratégia de internacionalização. Nos setores de maior capital intensivo, caso dos têxteis e confeção, Portugal concorre com países em que os salários mínimos não são maiores. Mais. Sendo certo que não queremos comparar-nos por baixo, o que é verdade é foi neste modelo de desenvolvimento que a economia portuguesa assentou. Precisamos de mais tempo para enfrentar esta globalização, pois não se cuidou em instituir regras que acautelassem setores mais frágeis e áreas mais desfavorecidas. Isto significa que deveríamos ter mais tempo de adaptação ao desenvolvimento.

A grande maioria das PME consegue pagar este salário mínimo sem despedir ninguém?

Creio que sim. Muitos dos contratos coletivos já tinham como tabela mínima os 500 euros. Muitas empresas, sem ter o evoluído o salário mínimo (SMN) já tinham incorporado nos seus custos, valores mais altos que os 485 euros. A nova realidade é absorvível nas PME, e algumas terão de sofrer este custo acrescidos, sobretudo pelo efeito do arrastamento.

Como?

Empresas onde tinham como mínimo os 485 euros, mas onde tinham chefias de equipa que diferenciavam por mais 10, 15 ou 20 euros. Ora, ao subir o SMN essas mesmas chefias têm de ser “arrastadas” em conformidade. A massa salarial é superior aos 20 euros e admito que em alguns casos seja mais difícil que outras.

O impacto pode levar algumas das PME a fechar?

Temos empresas mas expostas. Bastará que o delta/minuto que vão ser obrigadas a sofrer as afastar do preço da captação de encomendas. Concorremos com espaços europeus, como a Eslováquia, República Checa ou Polónia, mas também com o Egipto e a Tunísia. Há espaços geográficos que estarão ameaçados quando o minuto subir. Quero pensar que saberão absorver esse diferencial, não provocando mais desemprego. A alteração do modelo de desenvolvimento de novos produtos com valor acrescentado e novas tecnologias está a ser feito a seis ou sete anos e, logo, não acredito que vá provocar desemprego.

Nas PME há falta de gestores profissionais?

A maioria do tecido empresarial tem menos de 10 trabalhadores. Há os que foram evoluindo nas suas profissões e há sucessões geracionais, mas há uma necessidade de formação profissional quer dos gestores, quer dos trabalhadores em geral. Temos de vencer a batalha da qualificação. Há uma necessidade de aumentar as competências e a formação profissional. Na CIP e ainda durante o consulado do governo anterior celebrámos acordos de formação para empresas. O objetivo foi colmatar a lacuna da formação. A qualificação profissional tem de ser ganha e é um objetivo que não está totalmente atingido.

Regista-se mais insolvências e as PME estão a ser duramente atingidas. Quais os fatores explicativos de fundo?

A estrutura de capitais das empresas portuguesas é baixa. Há uma necessidade de recapitalização do tecido empresarial, tal como houve necessidade de recapitalização da banca. Penso que se deveria encontrar outras formas de recapitalizar as empresas nacionais, nomeadamente através de outros mecanismo de financiamento, caso do Alternext, de fusões e aquisições e outros modelos.

Qual o impacto das linhas de crédito introduzidas no governo Sócrates? Não foi uma forma de adiar falências? As empresas estiveram a fazer o revolving das dívidas em vez de investirem.

As linhas PME Invest e Crescimento poderão ter adiado e escondido situações de pré-falências. Algumas acabarão por fechar. As empresas que não fecharam tiveram um papel económico e social relevante. Não deixaram de ter o mérito ao manterem o nível de emprego, que se teria degradado ainda mais.

E há capacidade de investimento da globalidade das empresas?

Temos alguma capacidade. Quando falamos em setores, temos alguns muito bem, outros com algum mal e também temos outros em situação critica. O tecido é heterogéneo. Muitas empresas têm capacidade de investimento, aplicando novas tecnologias em vários níveis. A nível global há uma falta de confiança na economia. Esta quebra de confiança é limitativa do investimento.

O acesso a capitais alheios por parte da banca acabou por alimentar muito a perceção de risco. O que é verdade é que para os bons projetos a banca tem encontrado financiamento.

Se não, como se pode aumentar a produção? As empresas têm, com os atuais ativos industriais, capacidades para reforçarem a produção? Para fazerem face a encomendas maiores?

Em termos de produção temos empresas que estão no limite da capacidade instalada e essas têm necessidade de aumentar a capacidade de investimento. A banca está hoje mais disponível para ser parceira do que há dois ou três anos, mas a capacidade instalada, sem novos investimentos não nos permitirá aumentar o nível de exportação. Temos outros casos onde isso não acontece. Estamos perante cenários diversos e direi que há empresas que sim e outras que não têm margem de progressão.

 

Continua a haver poucas empresas que exportam e ainda menos as que internacionalizam. É um problema congénito?

Há poucas empresas a internacionalizarem e isso tem a ver com a dimensão do tecido empresarial. As grandes empresas contam-se pelos dedos de uma mão. Há muitas empresas pequenas e para mudarmos todo este cenário temos que nos mover com fusões e concentrações, temos de perder o ADN do individualismo, quer na vida empresarial e associativa. Temos de criar parcerias e dou o exemplo dos materiais de construção, onde atuo. Uns vendem torneiras, outros toalheiros e outros louças sanitárias, mas o cliente quer uma casa de banho completa. Precisamos de nos unir, pois falta dimensão ao tecido empresarial português.

Faz sentido falar-se na necessidade de criação de linhas de financiamento específicas para projetos internacionais realizados em países em desenvolvimento?

Os grandes projetos, onde concorrem as maiores companhias, obriga à existência de instituições financeiras que façam o devido suporte. Melhor, os concursos internacionais têm de ser acompanhados de projetos de financiamento e, neste aspeto, Portugal sai prejudicado.

Os outros players trazem financiamentos e, as empresas portuguesas não o conseguem, ou conseguem-no para montantes limitados. Isto prejudica grandemente as empresas de ganharem concursos, mesmo em parceria. E os casos mais elucidativos estão na construção civil, com empresas afastadas pelos pares por incapacidade de responder na sua quota de responsabilidades. Esta é uma grande limitação e governo e bancos têm de encontrar mecanismos de solução. Atualmente há projetos de dimensão considerável na América Latina e as empresas não têm meios de financiamento. É preciso rever esta matéria habilitando as empresas com capacidade de irem aos concursos. Friso que os que existem são insuficientes para a dimensão dos projetos.

É raro o projeto espanhol que não tem tudo espanhol, e o mesmo acontece com franceses e italianos. Por que é que as maiores empresas nacionais não servirem de porta-aviões para o exterior?

Apesar das campanhas “Portugal sou eu” ou o “Compre o que é nosso”, algo que é positivo, também temos a central de compras do Estado a adquirir o que não é português.

São regras comunitárias…

Independentemente de alguns concursos terem de aplicar regras comunitárias, há outros que fazem os mesmo concursos com mestria e, pro isso, os espanhóis só compram espanhol. Não somos criativos q.b. Somos muito bons alunos a muita coisa e não podemos pensar apenas em concluir o curso com sucesso!

Há políticos e economistas a defenderem que as importações têm de diminuir. Portugal tem capacidade para produzir mais sem importar mais matéria-prima?

Tudo o que seja energia obriga-nos a estar dependentes de importações e na balança é um tema que pesa muito. Não há soluções milagrosas, mas podemos fazer mais do que temos feito. Os 12 principais setores de exportação são, simultaneamente, os 12 principais importadores. Está demonstrado que é possível substituir importações pelo mercado interno. Dou um exemplo com a Portucel que precisa de determinada quantidade de toneladas de amido e o país não consegue tudo, tem de importar, mas se a empresas fizesse um acordo que garantisse uma compra anual, poderia fazer-se o investimento e trocaríamos importação por produção interna.

No agroalimentar e na agricultura continuamos com muitas dependências. Um exemplo claro é aquele que fez a Sonae com o Clube dos Produtores. Estes fizeram os investimentos porque tinham a compra garantida. Temos de encontrar as tais parcerias, ter garantias de procura e garantias para o investimento.

O que espera da evolução das exportações?

Receio alguma quebra porque os nossos parceiros internacionais estão a fraquejar. Receio algum abrandamento de algumas exportações.

Que nível de crescimento é necessário para gerar emprego e suportar a dívida?

Se o país não crescer 2,5% ao ano não resolveremos os nossos problemas, quer o flagelo social e ao qual deveríamos dar muita atenção, quer no investimento. Não é um problema português pois a zona euro tem um nível de desemprego insustentável. Os países com excedentes no espaço europeu deveriam ter outro comportamento.

O crescimento nacional no segundo semestre vai basear-se no consumo interno. É saudável?

Claro que não. É preciso dois motores para sustentar a economia, o consumo interno e as exportações, é preciso balancear entre os dois.

 

Vítor Norinha

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