Guantanamera

*gentílico de uma mulher de Guantánamo, cidade mais conhecida por nela se encontrar uma prisão dos Estados Unidos. Quanto à canção, reza a história que, numa tarde de Verão de 1929, um grupo de rapazes lançou um piropo a uma moça que ia a passar. Ela fez cara feia e um deles terá exclamado: ¡Eh, […]

*gentílico de uma mulher de Guantánamo, cidade mais conhecida por nela se encontrar uma prisão dos Estados Unidos. Quanto à canção, reza a história que, numa tarde de Verão de 1929, um grupo de rapazes lançou um piropo a uma moça que ia a passar. Ela fez cara feia e um deles terá exclamado: ¡Eh, qué se habrá figurado [levou a mal], la guajira guantanamera!’ A melodia nasceu nessa mesma noite, e a rapaziada pôs-lhe uma letra de José Marti, herói – já então falecido – da independência cubana… E também poeta.

Na passada terça-feira, pela 23ª vez consecutiva, a Assembleia Geral das Nações Unidas  votou contra o embargo dos EUA a Cuba, o qual já dura há mais de 50 anos. Como de costume, a resolução amplamente maioritária foi vetada por Washington, com o apoio singular de Israel, que assim paga favores do poder estado-unidense, quando este fecha os olhos a votações semelhantes condenando o Estado judaico pelas suas diatribes na Palestina.
O embargo a Cuba foi desde o início uma hipocrisia – conta-se que a última coisa que John F. Kennedy terá feito antes de decretar el bloqueo foi encomendar umas cem caixas de puros cubanos, que a partir de então foram proibidos nos Estados Unidos, para gáudio de Rafael Torrillo, o ditador da República Dominicana que governava com o apoio da CIA, e que vendia uns charutaços marranos, bem longe da qualidade cubana.
Quando Fidel Castro e outros patriotas resolveram pôr fim à ditadura cleptocrática e mafiosa de Fulgencio Baptista, – que, de tão corrupto, perdera entretanto o apoio militar oficial dos Estados Unidos, embora mantivesse o da CIA por portas travessas – haveria entre eles, se tanto, meia dúzia de comunistas. Um deles chamava-se Ernesto Guevara.
Baptista, um sargento estenógrafo que se impôs galões de oficial superior, tinha vendido Cuba aos mafiosos de Lucky Luciano e Meyer Lanski, que encontraram na ilha o refúgio que já não tinham há mais de 20 anos. O primeiro congresso da mafia depois da década de trinta foi realizado em Havana, no mítico Hotel Nacional, um evento de que Coppola dá uns bons planos em ‘O Padrinho II’.
No dia da revolução, o petróleo cubano estava totalmente nas mãos de companhias dos EUA. Os norte-americanos eram donos de 60% da ‘ilha do crocodilo verde’. O açúcar era deles, e deles eram o tabaco, casinos, hotéis, casas de passe, ‘dancings’ e bares que atraíram no pós-guerra a nata do hedonismo mundial.
Fulgêncio Baptista ganhava um pecúlio de tudo isto. E, finalmente, o filho de rústicos, o primeiro presidente ‘não branco’ de Cuba, era aceite na alta sociedade, que dele zombava enquanto lhe enchia os bolsos e ele matava opositores. No dia 1 de Janeiro de 1959, quando as tropas de Fidel deixaram a Sierra Maestra e entraram em Havana, ele foi dos primeiros a dar à sola, mais uns 300 milhões de dólares, parte dos quais gastou na Madeira, onde se refugiou graças à hospitalidade do seu amigo Oliveira Salazar. Morreu em Marbella, a apanhar sol, em 1973.
Um dos primeiros actos de Fidel foi nacionalizar as grandes companhias. Os Estados Unidos não gostaram e juraram que o haviam de tirar do poder. Inventaram a Baía dos Porcos, que deu o que tinha a dar, e depois decretaram o bloqueio. A URSS de Kruchev chamou-lhe um figo – passou a ser o parceiro privilegiado de Cuba, comprando-lhes o açúcar mais caro e refinando-lhes o petróleo. Em troca, Fidel tornou-se comunista – embora ‘não-alinhado’…
George W. Bush, essa sumidade, disse um dia que ‘enquanto o governo comunista estiver em Cuba, nunca abriremos mão do embargo’. Entretanto, os EUA dão agora uma no cravo e outra na ferradura, permitindo às suas empresas negócios até 700 milhões de dólares anuais em Cuba. A Elf e a Total (francesas) já ajudam no petróleo e a Repsol (espanhola) prepara-se para abrir o maior furo da plataforma marítima cubana, que se prevê possa passar dos actuais 850 mil barris por dia para mais de 3 milhões. Américo Amorim é um dos parceiros da economia cubana, tendo contribuído para o restauro do Malecón, a mítica avenida marginal de Havana. Pelo meio, o BNP Paribas levou uma multa astronómica por fazer negócios com o Governo cubano.
Desde a Guerra da Independência de Espanha, nos finais do século XIX, que a ilha se habituou à guerrilha. Uma das poucas épocas em que tal não ocorreu foi no tempo do presidente Leonardo Machado, logo deposto pelos apaniguados de Baptista com as palmas da Esso, da Texaco e da Shell. Os bohios [favelas] de Havana sempre lá estiveram, num país que chegou a ter um per-capita igual ao de Itália – mas muito mal distribuído. Podia ser um sonho para os que lá vivem, e não só para os turistas parolos de Varadero. Mas os Estados Unidos não deixam. E o governo de Cuba continua a fazer disso ‘capital de queixa’ e a eternizar-se, ensinando aos miúdos nas escolas qual é o ‘bode expiatório’ das montras vazias e dos buracos nas estradas.
No fundo, agrada a todos… Ou talvez não a José Marti, qando escreveu há mais de cem anos a letra de Guantanamera…
Yo quiero salir del mundo
por la puerta natural:
en un carro de hojas verdes
a morir me han de llevar.
No me pongan en lo oscuro
a morir como un traidor:
yo soy bueno y como bueno
moriré de cara al sol

Guantanamera,
guajira guantanamera
Guantanamera,
guajira guantanamera.

 

Márcio Alves Candoso
Jornalista
Ma.candoso@gmail.com

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