Herdade da Comporta, que futuro?

Um príncipe francês tem um projeto para a Comporta que é “para dar dinheiro”. A filosofia subjacente de olhar o mundo é que é outra. Assenta na conjugação Natureza-Arte-Educação.

Não é que existe, segundo leio em alguma comunicação social portuguesa (Expresso e Visão), um príncipe francês, Louis-Albert de Broglie – não será bem um príncipe “encantado”, embora se encontre assim pela Comporta, onde “vai há 25 anos e onde planeia viver em permanência” – que se candidata à compra da Herdade da Comporta para a transformar num foco, a nível mundial, de agricultura biológica, educação e arte? Este candidato à compra da Comporta afirma que se propõe construir apenas 15% do imobiliário que era previsível ser realizado no projecto do grupo Espírito Santo, de que adiante falaremos.

1. O príncipe ambientalista

Mas outras afirmações de Albert de Broglie são de grande simbolismo quanto ao seu pensamento: “na Comporta não se podem reproduzir os erros cometidos no Algarve, França ou Espanha” (não precisava de ir tão longe. Bastava-lhe olhar para a vizinha Tróia). E indo este projecto em frente: “o mundo inteiro vai querer vir aqui para ver como se faz um bom projecto com ambições sociais e ambientais”. Mas, é peremptório, este projecto é negócio. É “para dar dinheiro”. A filosofia subjacente de olhar o mundo é que é outra. Assenta na conjugação Natureza-Arte-Educação.

Louis-Albert de Broglie é um ambientalista ligado ao grupo Deyrolle, parceiro da Unesco e da COP21 (redução do efeito de estufa). Os seus projectos estão a espalhar-se pelo mundo, onde tem ganho o desenvolvimento de parques ecológicos.

Por exemplo, ganhou o concurso público para o desenvolvimento do 9º bairro ecológico junto ao Palácio de Versalhes, “com 150 jardins partilhados onde vão viver 800 famílias” e na China, em Sichuan, ao lado do Parque dos Pandas, negociou com as autoridades chinesas a criação de um parque cultural e ecológico. Na assinatura deste acordo, estiveram presentes o Presidente Emmanuel Macron e dois ministros franceses, Negócios Estrangeiros e Economia. Versalhes e Sichuan estão em curso. Albert de Broglie só pensa agora na Comporta, onde gostaria de tornar o Alentejo e Portugal “defensores da ordem, uma inspiração do que deve ser o território do século XXI”.

Resumindo, “a sua ideia passaria por criar sete centros: um de agro-ecologia, inspirado na permacultura (para dar formação nesta forma de trabalhar a terra e de gerir a floresta); um centro de inovação low tech e high tech, que potenciasse a produção agrícola local; uma escola alternativa (inspirada na filosofia Montessori e nas escolas verdes de Bali) que investisse na autonomia e na inovação; um centro de arte (um museu de Arte Natural e de Arte Contemporânea), como uma arca de Noé; um centro de média-medicina e de bem-estar e um de reciclagem e transformação; e, por fim, um centro de conferências, onde se juntassem regularmente grandes cientistas, gestores e a sociedade civil, para debater e divulgar temas como os oceanos ou a saúde alimentar”.

“Comporta Utopia”. É a designação que o Príncipe francês dá ao projecto, mas questionado pela Visão logo afirma: “Não somos utopistas. Somos realistas, pragmáticos”. Utopia, diz, citando Victor Hugo, “é o futuro do amanhã”.

2. Até agora, mais dois potenciais compradores

Que nada têm a ver com o projecto e filosofia do príncipe francês como forma de conceber e explorar o território no século XXI.

A Vanguard Properties, empresa portuguesa do multimilionário francês Claude Berda, em parceria com a empresária Paula Amorim, representante de um grande grupo português, é um dos candidatos à compra.

Como diz a Vanguard Properties, através do seu porta-voz em Portugal, a parceria reúne todas as condições financeiras para avançar de imediato e afirmou que o primeiro passo é concluir as infra-estruturas iniciadas e o campo de golfe. Depois avançar com os restantes empreendimentos.

O que distingue este projecto é a ideia de imprimir-lhe a marca do restaurante de luxo que Paula Amorim tem em Lisboa. Contudo, apesar desta nuance, não vai além de um projecto clássico turístico-imobiliário, na sequência da componente turística inicialmente definida pelo grupo Espírito Santo.

A Oakvest holdings, empresa luxemburguesa do controverso empresário britânico Mark Holyoake com uma história de conflitos nos tribunais britânicos, associada à família portuguesa Carvalho Martins que controla a rede dos restaurantes Portugália, é o outro candidato conhecido. Contudo, em termos de projecto imobiliário-turístico, pouco se diferencia do anterior concorrente.

3. O que era o projecto inicial?

Por razões várias, conheci o projecto do grupo Espírito Santo. Mas antes, umas quantas informações sobre a Herdade da Comporta no seu todo. A Comporta com 12 500 hectares era, e é, detentora de um património natural, ambiental e ecológico de valor inestimável e único na Europa.

Esta área era sensivelmente distribuída da seguinte forma: praias e dunas, 624ha; várzea, 1.006ha; florestas e matos, 8.253ha; Estuário do Sado e sapal, 1.698ha; aglomerados urbanos (7 aldeias), 175ha; áreas de desenvolvimento turístico, 744ha.

Sobre estes 744 hectares estavam previstas duas zonas de desenvolvimento turístico, designadas por ADT2 e ADT3, situadas, a primeira no concelho de Alcácer e, a segunda, no de Grândola – bem distantes entre si. Para ficarmos com uma ideia precisa, a ADT2 (junto à aldeia da Comporta) teria: 2 hotéis de 4 e 5 estrelas; 2 hotéis-apartamentos de 4 e 5 estrelas; 3 aldeamentos turísticos, com capacidade para 1.750 camas turísticas e moradias com a capacidade para 1.500 camas residenciais.

Os dois hotéis previstos para a parte central da ADT seriam envolvidos por dois campos de golfe. A ADT2 teria uma envolvente forte no desporto. A ADT3 (junto à aldeia do Carvalhal) integraria 5.700 camas distribuídas por 4 hotéis; 1 hotel-apartamento; 760 casas em aldeamento turístico e 335 lotes de moradia. Haveria nesta ADT um campo de golfe com 18 buracos em 100ha.

Releve-se que todas as construções teriam, no máximo, dois pisos de altura que não ultrapassariam as copas das árvores adultas. Tudo isto aprovado pelas respectivas Autarquias.

Mas a Herdade da Comporta não se resumia ao projecto turístico. Tinha outras valências, sobretudo de natureza agrícola (arroz, vinho e outras culturas) e a ideia era dar consistência e coerência ao desenvolvimento da Comporta, integrando por exemplo as 7 aldeias que fazem parte da Comporta na dinâmica global, atribuindo-lhe funções na gastronomia, na cultura e nas artes. Fica aqui esta nota breve do projecto inicial da Herdade da Comporta.

4. O dinheiro falará mais alto?

Entre estas três propostas de compra há dois blocos distintos. A ligada ao grupo Amorim e à família Carvalho Martins assentam fundamentalmente nas premissas da componente turística base do grupo Espírito Santo. A do príncipe francês é de facto revolucionária.

Nesta, nada do projecto inicial ficava como previsto, excepto o Hotel Aman já em construção, cuja arquitetura o próprio de Broglie considera desinteressante por não respeitar as características do Alentejo. Em termos de projecto, sem dúvida, só este poderia tornar-se um ícone para Portugal, em termos europeus e mundiais.

Fico com o sentimento de que a visão de conjunto do desenvolvimento da Herdade da Comporta foi amputada, pois do que li, só está à venda a componente turístico- imobiliária. Nesta base, só mesmo a visão de Louis-Albert de Broglie pode salvar a Comporta. Mas temo que o que vai imperar na venda é o dinheiro.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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