Incerteza geopolítica e volatilidade dos ativos marcam o ano

Após ganhos recorde em 2017, o primeiro semestre de 2018 não está a ser tão favorável. Os gestores terão de navegar entre mudanças nos bancos centrais, guerra comercial e instabilidade política.

Da Europa aos EUA, da política monetária à comercial, os mercados financeiros vivem um ano de dúvidas. Não havendo, no entanto, ainda uma fuga ao risco, as ações continuam a captar a atenção dos gestores de ativos, em detrimento da dívida.

“Em 2018, num ambiente de maior incerteza, sobretudo ao nível geopolítico, as principais classes de ativos têm evidenciado um padrão comportamental menos positivo, associado a um registo de maior volatilidade, face ao verificado no ano anterior”, afirma João Marques, diretor de estratégia e alocação da Caixagest, sociedade gestora que lidera o mercado com 33% da quota e detentora de 22 dos 153 fundos disponíveis no país.

Os principais riscos atuais afetam afetam os fundos de investimento de forma diferenciada. No caso dos veículos que predominantemente investem em obrigações, os desempenhos poderão ser negativamente influenciados por uma forte subida das taxas de juro de mercado, estando dependentes do crescimento económico e da inflação. “Estes poderão, eventualmente, determinar uma maior rapidez da remoção do grau acomodatício das políticas monetárias em vigor”, explica Marques.

Caso haja a economia ou a inflação cresçam acima do esperado este ano, poderá haver subidas mais pronunciadas das taxas diretoras pela Reserva Federal Americana (Fed), ou de uma antecipação do incremento das mesmas pelo Banco Central Europeu (BCE).

Já no mercado acionista, os fatores penalizadores poderão surgir se houver surpresas negativas em termos de crescimento económico ou dos lucros empresariais. O diretor de estratégia e alocação da Caixagest sublinha ainda outros riscos como o possível escalar das tensões comerciais ou dos focos de instabilidade política que possam ser geradores de expetativas de impactos mais negativos no crescimento e, consequentemente, impulsionadores de um maior grau de aversão ao risco.

O valor sob gestão dos organismos de investimento coletivo em valores mobiliários totalizou 11.331,3 milhões de euros, em maio de 2018, segundo os últimos dados disponíveis da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). O montante representa uma diminuição de 58 milhões de euros (0,5%) face ao mês anterior.

O valor das aplicações em ações de emitentes nacionais e de estrangeiros registou uma subida de, respetivamente, 0,1% e 1,7%. No que respeita à dívida pública, desceu 1,6% na nacional, tendo aumentado 2,4% na estrangeira. Já o valor aplicado em obrigações de emitentes nacionais manteve-se inalterado, enquanto nas emissões de emitentes estrangeiros caiu 1,7%.

Entre as incertezas das ações e das obrigações, estão as apostas na variedade, que têm ganho destaque em Portugal. Os fundos multi-ativos representavam, em 2007, apenas 3% do total em Portugal, neste momento representam cerca de 13%. “As rendibilidades dos fundos que investem em várias classes, vulgo multi-ativos, poderão ser menos afetadas pelos supracitados fatores, tendo em conta a predominância de correlações negativas, entre os diferentes mercados, que perspetivamos para a segunda metade do ano”, refere João Marques.

Desde o início do ano, os principais índices de ações apresentam, em média, desempenhos marginalmente negativos. No entanto, e apesar das incertezas, as rendibilidades dos mercados de referência não denotam um comportamento clássico de fuga para ativos denominados de refúgio ou uma trajetória associada a aversão ao risco, caraterizada por movimentos corretivos pronunciados.

Do lado das obrigações, as yields dos instrumentos de dívida pública consideradas de menor risco não têm evidenciado uma tendência de descida significativa. As taxas a 10 anos norte-americanas têm subida, enquanto as yields alemãs descem ligeiramente devido ao risco político na Europa.

“Por sua vez, outros instrumentos que beneficiam de comportamentos negativos das classes de risco, como o ouro e o iene, apresentam comportamentos divergentes”, afirma o gestor. “O metal precioso regista uma rendibilidade negativa e a moeda nipónica, face ao dólar, apresenta uma apreciação moderada. Adicionalmente, a métrica de volatilidade implícita para o índice de ações dos EUA, S&P 500, apesar dos níveis mais elevados face aos verificados em 2017, situa-se abaixo da sua média de longo prazo”.

O futuro das estratégias de gestão dos fundos de investimento vai, assim, depender de se o aumento da volatilidade e o desenvolvimento dos vários fatores de incerteza vão causar uma fuga ao risco para ativos-refúgio.

Na Europa, o foco está na estabilização política em Itália, associada a uma retórica menos anti-europeísta por parte do atual governo, bem como na Alemanha. Dos EUA, o maior questão prende-se com as políticas comerciais e se estas irão gerar uma escalada de imposições tarifárias a nível global. Simultaneamente, a prevalência de um regime de subida gradual das taxas de juro pela Fed e de políticas monetárias expansionistas por parte dos restantes principais bancos centrais, bem como a extensão do ciclo de crescimento acima do potencial nas principais economias, não associado a uma forte subida da inflação, não ser outros pontos a que os gestores irão estar atentos no segundo semestre.

Caso estes fatores se alinhem positivamente, serão propícios a um impulso nos retornos das classes de ações e para uma minoração das rendibilidades negativas no caso das obrigações, segundo o diretor de estratégia e alocação da Caixagest. Consequentemente, constituirão um suporte positivo para os retornos das estratégias de multiativos.

“Prevalece um contexto macroeconómico global benigno, de taxas de juro ainda baixas e de crescimento dos lucros empresariais. Apesar dos principais mercados não denotarem valorizações absolutas atrativas, em termos relativos, na nossa ótica continua-se a verificar um maior potencial de ações face a obrigações. Deste modo, em termos de macro classes, mantemos uma estratégia pró-cíclica de maior exposição ao segmento acionista por contrapartida dos mercados de rendimento fixo, nomeadamente de obrigações do tesouro e de crédito”, acrescentou.

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