Independentismo catalão abre a primeira brecha

A CUP, o partido mais à esquerda do conjunto dos que apoiam a independência, fez saber que não apoia a substituição de Carles Puigdemont pelo seu número dois, Jordi Sànchez.

Pode ser a primeira boa notícia para o governo de Madrid na demorada crise aberta com a Catalunha desde o dia 1 de outubro – quando a Generalitat promoveu o referendo à independência da autonomia: a Candidatura de Unidade Popular (CUP), a mais esquerdista das três formações que mantêm a maioria independentista no Parlamento catalão, não apoia o nome de Jordi Sànchez para assumir a presidência do governo autonómico.

Pode ser um duro golpe na estratégia da coligação Junts per Catalunya, de Carles Puigdemont – apoiada pela Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) – que previa convencer o presidente do Parlamento, Roger Torrent (ERC), a avançar com o nome do segundo nome da lista do exilado em Bruxelas para o substituir.

O conselho político da CUP, após debate com as bases, decidiu não apoiar o acordo conseguido pelas outras formações separatistas e o seu porta-voz, Vidal Aragonés, explicou este sábado em Barcelona que os seus quatro deputados se absterão se o n ome de Sànchez chegar a ser votado.

A CUP, citada por vários jornais espanhóis, explicara que não é um veto ao nome do antigo presidente da Assembleia Nacional da Catalunha (ANC), mas uma rejeição do acordo global, que também inclui a organização do Conselho da República em Bruxelas e a presidência simbólica de Carles Puigdemont. “As suas propostas são submissão à legalidade espanhola e não avançar nos problemas das classes populares”, disse Aragones.

O porta-voz do partido explicou que, embora o Junts per Catalunya e a ERC permaneçam no campo do independentismo, não existe um acordo possível: “Temos uma alternativa que não passa pelo simbolismo, o simbolismo não funciona para o movimento republicano”, disse Aragonés sobre as estruturas que estão previstas para a Bélgica, cujo papel oficial seria promover o processo constituinte de uma hipotética república catalã.

Junts per Catalunya e ERC têm 66 assentos no Parlamento, dos quais apenas 64 votos são efetivos. Os quatro parlamentares da CUP fazem um total de 68 votos, a maioria absoluta – com os Cuidadanos, PSC e PP a totalizarem 57 votos e o CatComú (coligação onde está o Podemos e que também não apoia Sànchez) a assegurar oito lugares.

Mais do que a contagem dos votos, salientam os analistas, a recusa da CUP em acompanhar os restantes partidos independentistas é importante porque dá um sinal de que as forças que se opõem a Madrid começam a dar mostras de divisão. Mais importante ainda, essa divisão pode significar que a estratégia de oposição a Madrid está a esgotar-se – já que mais não seja pelo cansaço.

É que, desde as eleições antecipadas, a 21 de dezembro passado, a estratégia independentista tem sido a de arranjar subterfúgios para conseguir convencer o pode central de que a sua vontade tem de prevalecer. Madrid e o governo de Mariano Rajoy escudam-se na lei e na Constituição para não cederem um milímetro, e o certo é que há quase dois meses e meio que a Catalunha está num completo impasse.

Para além das questões económicas – a economia da Catalunha tem sido largamente afetada – a questão política prevalece: não há nenhuma evidência de que a estratégia dos independentistas consiga fazer impor a sua vontade. Neste quadro, a hipótese de novas eleições volta a fazer sentido – e o governo pode criar a convicção de que quanto mais tempo passar nesta indefinição, mais as forças independentistas sofrerão com isso. É de recordar que os três partidos independentistas conseguiram a maioria absoluta em 21 de dezembro, mas essa maioria é mais pequena que a conseguida nas eleições anteriores.

Os próximos dias serão determinantes para Madrid perceber se vale ou não a pena apostar na brecha que agora se abriu no seio das forças independentistas.

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