Itália reaviva traumas da crise e dificulta percurso do BCE

A subida dos juros das dívidas dos países do sul da Europa, devido à instabilidade política italiana, está a criar nervosismo entre investidores e analistas. A questão ganha especial importância dada a expetativa que o BCE anunciasse o fim dos estímulos monetários dentro de duas semanas.

Ralph Orlowski/Reuters

O risco conferido pelos investidores aos países do sul da Europa disparou devido à instabilidade em Itália, reavivando alguns traumas da crise das dívidas soberanas. Na altura, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou que faria “o que fosse preciso” para evitar o colapso. A instituição está prestes a reduzir os estímulos monetários e a situação italiana poderá complicar o processo.

O rally do euro face ao dólar, no ano passado, deveu-se em grande parte à recuperação económica e estabilidade política. Emmanuel Macron afastou as ameaças populistas da zona euro o presidente do BCE, Mario Draghi, manteve uma mão firme num programa de compra de ativos que garantiu melhores condições de financiamento a país mais arriscados, incluindo Portugal.

“A crise política italiana provou ser o primeiro grande retrocesso para essa tendência”, afirmaram os analistas do ING, que antecipa que novas eleições aconteçam no país entre setembro e outubro.

O banco de investimento espera que o resultado seja, no entanto, o mesmo que há três meses já que o Movimento Cinco Estrelas e a Liga do Norte têm o apoio de 57% dos eleitores italianos. “Parece improvável que a atual volatilidade nos mercados de dívida italianos os force a mudar de rumo”, afirmam.

O BCE tem-se mantido à margem de questões políticas dos governos, mas o curso da política monetária poderá ser influenciado pelos desenvolvimentos em Itália.

As yields das dívidas soberanas dos países do sul da Europa dispararam. Em Itália, registaram a maior subida diária desde 2011, tendo chegado aos 3,16%. Em Espanha agravaram para 1,62%, na Grécia para 4,799% e em Portugal para 2,19%.

“Itália é Itália… O mercado pode extremar, mas não vai extremar além do precipício. Tudo vai depender das questões políticas, comprometendo até o curso da política monetária e a redução do Quantitative Easing (QE)”, afirmou João Lampreia, head of research do BiG – Banco de Investimento Global.

Após mais de dois anos a adquirir ativos da zona euro, o banco central está a preparar a normalização da política monetária. Desde o início do ano que o programa decorre a metade do ritmo do ano passado, ou seja, com a aquisição de 30 mil milhões de euros mensais. Está planeado até setembro de 2018, sendo que a expetativa dos analistas é que Draghi anuncie os próximos passos na próxima reunião do BCE, dentro de duas semanas.

O presidente do BCE não poderá prolongar as compras por causa de Itália sob o risco de ser acusado de financiar um país. Como o QE foi criado para reavivar a inflação em toda a zona euro, maior intensidade de compras será uma hipótese se os problemas em Itália comprometerem o outlook para os preços de todo o bloco.

“Isso só é poderá acontecer no caso de uma crise prolongada. Por isso é possível, mas é improvável que se materialize no curto prazo, especialmente porque o BCE gostaria de evitar ser visto como político”, acrescentou Antoine Bouvet, estrategista da Mizuho International, em declarações à agência Bloomberg.

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