“Já não há mais privacidade na era do WikiLeaks. E daí?”

Tim Cole, um dos 30 profissionais da internet mais influentes no globo, é um dos oradores convidados do FINCO 2014, congresso realizado na próxima semana pelas empresas Sonae. O autor afirma que se alguém pensou que o cloud computing seria totalmente seguro, é um tolo.   Especialistas mundiais em Lisboa O americano Tim Cole, considerado […]

Tim Cole, um dos 30 profissionais da internet mais influentes no globo, é um dos oradores convidados do FINCO 2014, congresso realizado na próxima semana pelas empresas Sonae. O autor afirma que se alguém pensou que o cloud computing seria totalmente seguro, é um tolo.

 

Especialistas mundiais em Lisboa
O americano Tim Cole, considerado um dos 30 profissionais da internet mais influentes a nível mundial, é especialista em comércio eletrónico, web social e segurança informática. O jornalista e autor é um dos oradores convidados do FINCO 2014, evento das empresas Sonae que decorre nos próximos dias 27 e 28 de outubro (segunda e terça-feira) no Campo Pequeno, em Lisboa. Sob o tema “IT’s Touching Lives”, o congresso reúne alguns dos maiores peritos do globo em tecnologias de informação (TI), que vão debater como esta área está a mudar a vida das pessoas e das empresas. Entre os assuntos abordados estão as principais tendências em TI – big data, cloud computing, internet of things, mobilidade e sharing economy. Na terça-feira, dia 28, Tim Cole analisa as questões da segurança online com a apresentação “Pulchinella’s Secret – Privacy and Security in the Age of WikiLeaks”.

 

Os retalhistas estão preparados para adotar as últimas tecnologias (como os óculos Google Glass, por exemplo, que envolvem toda uma nova abordagem no retalho/reposição de stock)?
Os retalhistas seriam sábios em acolherem as novas tecnologias, em vez de as ignorarem ou de lhes resistirem de forma ativa, como muitos fazem. Numa economia em rede, é o cliente quem decide sozinho qual o canal e/ou tecnologia a utilizar. Se os retalhistas não oferecerem aos clientes toda a gama de opções, então um certo número (de clientes) irá comprar noutro lugar. E os clientes estão a tornar-se mais exigentes a cada dia. A Amazon está a ser forçada a investir em entregas no próprio dia, não porque o deseje, mas porque os clientes assim o exigem. A internet está rapidamente a tornar obsoleto o velho modelo de negócio orientado para a oferta. Hoje está tudo centrado na satisfação do cliente.

Quais são os principais erros cometidos pelo retalho (ou as companhias em geral) quando lidam com o cliente 2.0? E quais as melhores práticas?
Muitos retalhistas adaptaram-se demasiado lentamente às mudanças fundamentais do mercado devido às tecnologias digitais. Hoje o retalho deve ser pessoal, autêntico e aberto. Os mercados são conversações, como o meu amigo Doc Searls escreveu no “Cluetrain Manifesto”. Mas muitos retalhistas são incapazes ou não querem envolver-se num diálogo de igual para igual com os clientes. Em vez disso, ainda acham que controlam a mensagem e que podem transmiti-la para muitos, como nos bons velhos tempos. Não compreendem que o fluxo de informação se virou completamente ao contrário. Os departamentos de marketing têm de funcionar como portas de entrada, através das quais a informação sobre os clientes pode ser encaminhada para os departamentos investigação e desenvolvimento (I&D) e para os departamentos de produção e vendas, onde a informação pode ser transformada em produtos únicos adaptados à medida, aos desejos e necessidades dos clientes individuais. O conceito “one-size-fits-all” já não funciona.

Quais são as tendências mais importantes que o retalho terá de adotar a curto prazo? E aquelas que deve esquecer?
Os retalhistas devem dedicar a maior parte dos seus esforços no sentido de descobrir a verdadeira natureza dos seus clientes e de criar soluções à medida o mais rápido possível – mais rapidamente que a concorrência, pelo menos. No meu último livro, “Digital Enlightenment” [esclarecimento digital], criei o conceito “generation now!” para descrever um novo tipo de consumidor: que cresceu numa era de satisfação instantânea, onde os produtos digitais estão à distância de apenas um clique no rato, e onde a capacidade de esperar pacientemente se está a tornar numa arte perdida. Podemos criticar esta tendência, mas não a podemos parar.

A social web é uma forma de entrar em contacto com o consumidor, ou, em alguns casos, onde a comunicação corporativa falha (ou não existe), uma forma de os aborrecer ou, pior, de os afastar para sempre?  
Estamos a entrar na era da comunicação total, onde todos falam com todos a toda a hora e onde todos conhecem todos. Ou se não os conhecermos diretamente, os nossos amigos conhecem: os cientistas mediram os chamados “graus de separação” entre 1,3 mil milhões de utilizadores do Facebook e descobriram que todos estão apenas separados por 4.7 “hops”: eu conheço alguém que conhece alguém, e assim sucessivamente, vezes 4.7 – e isto em mais de mil milhões de pessoas! Esta é uma enorme oportunidade para as empresas se ligarem com os clientes, mas, como diz, também enfrentam o enorme perigo de os aborrecer. Em vez de gritar a plenos pulmões, como os publicitários e marketers fizeram no passado, devem ouvir com atenção – e reagir o mais rápido possível àquilo que ouvirem.

Como funcionam a privacidade e segurança na era do WikiLeaks?
Desculpe, mas já não há mais privacidade na era do WikiLeaks. E daí? O Homo sapiens passou a maior parte da sua história como uma espécie que vive em aldeias ou ambientes tribais, e todos sabemos que não há segredos numa aldeia. Acredito que estamos de facto a retornar ao estado natural da Humanidade, ou seja, um mundo em que tudo é conhecido e partilhado por todos. Não que os segredos não sejam importantes para o nosso bem-estar mental: se pensarmos em todas as pessoas que conhecem os nossos segredos podemos ficar loucos e descontrolados. Na verdade, as comunidades das aldeias tendem a vigiar-se através de um código de discrição mutuamente acordado: todos podemos saber que aqueles dois estão a ter um caso extraconjugal, mas não saímos para a rua a anunciá-lo. Porquê? Porque iria perturbar a tranquilidade da aldeia e levar a uma possível desordem e caos junto dos cônjuges ciumentos. Em vez disso, todos fingimos que ainda é um segredo, o que funciona surpreendentemente bem na prática. Talvez precisemos de um código de “discrição digital” que suporte a sociedade de cair aos pedaços, mas essas são as regras que nós, como cidadãos internautas, devemos desenvolver e aplicar a nós mesmos; ninguém pode fazer isso por nós, e especialmente não os políticos ou polícias.

Temos um exemplo recente (envolvendo fotos de celebridades nuas) de como o cloud computing não é tão seguro/inextricável como pensávamos…
Se alguém pensou que o cloud computing seria totalmente seguro, é um tolo. Como o meu amigo Kim Cameron, identity guru da Microsoft, uma vez postulou: “dados sensíveis serão vazados”. Não é culpa da cloud, é um facto da vida na era digital. Em vez de ficarmos obcecados com a segurança dos dados e a integridade dos sistemas, devemos preparar-nos para reagir, no minuto em que os dados sensíveis fizerem o que está na sua natureza fazerem, nomeadamente fugindo para a selva. É verdade que podemos reduzir o risco através da implementação de sistemas de autenticação fortes e ferramentas de gestão de identidade poderosas. Mas também precisamos de criar diretrizes de emergência e sistemas de recurso de modo a estarmos preparados quando esses sistemas falham, como acontecerá de tempos a tempos. Não há sistemas 100% seguros, e é bom lembrarmo-nos disso.

Costuma falar de como os gestores podem aprender com as formigas – o quê, exatamente?
Como ser mais eficazes. As formigas são extremamente eficazes a recolher alimentos a partir de vários locais remotos. Os cientistas da computação estão ocupados a criar sistemas “formigo-inteligentes” que podem analisar a enorme quantidade de informações que o big data está a disponibilizar em menos tempo e com menos recursos de computação que nunca. Mas há outras formas interessantes de “inteligência coletiva” que as empresas podem aprender. Veja, por exemplo, as aves migratórias. Os gansos voam em formação de cunha, porque o pássaro líder fornece sustentação para todo o bando. Os outros pássaros grasnam incessantemente a fim de incentivar o líder a voar mais rápido, mas quando o líder fica cansado retira-se para trás e outro ganso assume o comando. Este sistema de “liderança rotativa” já está a ser usado por grandes empresas, especialmente no setor de TI, e está a ser muito bem sucedido. Em vez de deixar uma ascensão individual até ao nível da sua própria incompetência, como nos diz o “princípio de Peter”, os gestores podem mover-se horizontalmente, reunindo, assim, novas habilidades, competências e experiência, em vez de serem forçados a sair porque não há espaço para eles no topo da cadeia hierárquica.

Por fim: por que considera que precisamos de um “esclarecimento digital”?
O meu coautor Ossi Urchs (que infelizmente faleceu no mês passado) e eu acreditamos que, enquanto sociedade, estamos atualmente a passar por uma espécie de divisão digital, que separa o mundo analógico do digital. À medida que mais e mais coisas se tornam digitais, elas mudam, e as pessoas que as utilizam mudam também. Descobrimos cada vez mais que as regras que estabelecemos na era analógica já não funcionam na era digital. Qual o uso do conceito de direitos de autor, aliás uma invenção do séc. 18, num mundo onde não há nenhuma diferença entre o original e a cópia? E como podemos sustentar um sistema legal que protege os direitos de autor face uma crescente população de nativos digitais que não sentem qualquer sentido de injustiça quando “partilham” material digital com os amigos? Não se pode tratar a maioria da população como criminosos só porque era assim que costumava ser. Temos de seguir em frente – e os detentores de “propriedade intelectual” terão de encontrar outras formas de rentabilizar a sua produção em vez de simplesmente imprimirem e venderem cópias. Eu escrevo livros, mas o dinheiro que recebo da minha editora é ínfimo. Em vez disso, dou palestras e dessa forma ganho o suficiente para viver confortavelmente. Eu sei que muitos autores, argumentistas, músicos e editores odeiam isto, mas uma vez mais: eles não podem atrasar o relógio. Precisam de se adaptar, como todos nós. Este processo de adaptação pode ser doloroso, porque significa enfrentar o desconhecido. O digital enlightenment é exatamente sobre isto: aprender a pensar por nós mesmos e a criar novas regras e valores para um emergente mundo digital. Isto é similar ao que aconteceu há 400 anos, durante o primeiro Iluminismo, que aliás foi impulsionado pelo Grande Terramoto de Lisboa em 1755, que coincidiu com a Reforma Protestante e fez com que muitas pessoas perdessem a sua fé na divina providência. Voltaire pegou neste tema no seu livro “Cândido, ou o Otimismo”, e muitos outros começaram a procurar novas maneiras, mais racionais, de explicar a existência e definir regras e valores para uma “nova ordem mundial”. Hoje estamos de novo numa encruzilhada, e espero que, coletivamente, sejamos capazes de tomar as decisões certas e de criar um mundo digital no qual ainda possamos ter uma vida feliz e preenchida. Se não, não temos ninguém a quem culpar além de nós mesmos.

Armanda Alexandre

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