Stresse europeu

No passado dia 26 de Outubro foram apresentados os resultados dos últimos testes de stresse a que o Banco Central Europeu (BCE) e a Autoridade Bancária Europeia (EBA) submeteram 130 bancos europeus, resultados esses que revelaram um número significativo de chumbos: vinte e cinco, representando um valor global de déficit estimado de 24,6 mil milhões […]


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No passado dia 26 de Outubro foram apresentados os resultados dos últimos testes de stresse a que o Banco Central Europeu (BCE) e a Autoridade Bancária Europeia (EBA) submeteram 130 bancos europeus, resultados esses que revelaram um número significativo de chumbos: vinte e cinco, representando um valor global de déficit estimado de 24,6 mil milhões de euros. Infelizmente um desses chumbos é do português BCP com um déficit de 1,137 mil milhões.
Antes de soarem os alarmes na sua cabeça, de salientar a premissa prévia de que estes testes são relativos aos balanços finais de 2013 e que, caso o capital angariado no decorrer deste ano tivesse sido considerado, este valor global descia para 9,5 mil milhões de euros. Uma diminuição considerável.

Em termos simplistas, importa saber que os testes de stresse servem basicamente para avaliar a solidez de um banco de acordo com dois cenários delineados: o de base e o adverso, sendo que é exigido aos bancos que consigam apresentar uma almofada financeira de 8% sobre o risco dos ativos no primeiro e 5,5% no segundo.
De referir igualmente que, em contraste com testes anteriores, estes exames foram precedidos de uma extensa avaliação de ativos – AQR (“Asset-Quality Review”) em que os supervisores verificaram a forma como os bancos avaliaram os seus ativos.

Esta análise prévia prejudicou fortemente o BCP uma vez que considerou que apresentava uma sobreavaliação de 896 milhões de euros. Uma situação que o banco terá de rever. Apesar disso conseguiu apresentar um rácio de 8,8% no cenário base, acima portanto do mínimo exigível, chumbando somente no segundo cenário em que o mesmo rácio desce para 3%. Não obstante estes valores, analistas financeiros e o próprio Banco de Portugal, apontam que as medidas mais recentes do BCP, bem como aquelas que estão já previstas para o futuro próximo, são suficientes para fazer face às falhas de 2013.

Dos outros bancos nacionais envolvidos nos testes, de salientar a excelente performance do BPI (14,9% no primeiro cenário e 11,6% no segundo) e a solidez habitual da CGD (9,4% e 6,1%). O Novo Banco não foi sujeito ao teste devido ao seu recente processo de conversão, mas pessoalmente teria muita curiosidade em ver que resultados teria apresentado.
A alguns dias apenas de o BCE assumir as novas funções de supervisão no quadro do MUS – Mecanismo Único de Supervisão – estes resultados mostram que os bancos de países do sul da Europa continuam fortemente condicionados, apesar de muitos deles terem já realizados aumentos de capital, caso do BCP. Na lista dos vinte e cinco maus alunos, nove são bancos italianos, três gregos, três cipriotas, um português e um espanhol. Todos têm agora duas semanas para apresentar os seus planos de recapitalização, planos esses que deverão implementar nos próximos 6 a 9 meses. Vamos ver o que sucede nesse espaço de tempo.

A boa notícia para as economias europeias, nomeadamente as do sul, pode advir do facto de que, conhecidos os resultados dos testes e clarificados os níveis de capital, muitos dos bancos que se resguardaram para enfrentar os exames poderão agora abrir a torneira da concessão de crédito. Um passo que se pode revelar fundamental para dar um impulso definitivo a muitas economias ainda em vias de recuperação.

Pessoalmente, a minha experiência diz-me que não poucas vezes acontecem imprevistos nos mais variados cenários que se podem traçar, por mais fidedignos que sejam, mas estes testes servem exatamente para obrigar os bancos a constituírem recursos suficientes que possam evitar uma nova crise semelhante à de 2008, estabilizando as economias, salvaguardando os investidores e protegendo o comum cidadão europeu.
Quero acreditar que a Europa está no bom caminho.

 

João Costa Reis
CEO da Present Value

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