Mariana Vitorino: “As fake news têm de ser combatidas na faculdade”

A Universidade Católica Portuguesa reuniu peritos para debater o atual panorama dos meios de comunicação social. A academia acredita que ainda há esperança para o papel e que a cultura é a chave para um futuro jornalista singrar.

Os jornalistas também são motivo de notícias atualmente – desaparecimento de títulos, emergência de um trabalho precário, despedimentos coletivos, entre outros ‘fantasmas’. A degradação do setor e o aumento das notícias online sentou à mesma mesa, na Universidade Católica Portuguesa, especialistas que discutissem justificações, soluções e antevissem o futuro dos meios de comunicação social em Portugal.

Através de live stream, os alunos do Porto acompanharam o encontro ‘Breakfast Católica’ que se realizou na capital. Depois de ouvirem os oradores, os jovens perceberam que era exatamente ali, nas salas de aula e nos auditórios, que podiam inverter a tendência. Com vista a singrarem enquanto profissionais de comunicação social, devem ter cultura geral e consultar mais do que uma fonte de informação para estarem seguros da credibilidade das notícias que redigem. “As fake news [notícias falsas] têm de ser combatidas na faculdade”, garante a docente Mariana Vitorino.

“Porque é que uma mudança de paradigma em que, até 1998-1999, os primeiros lugares eram rádios generalistas, de palavra, e a partir daí a maioria dos ouvintes passa a querer rádios musicais e de entretenimento? Uma parte do auditório é mais nova. Os novos ouvintes têm gostos e preferências diferentes”, explicou o padre Américo Aguiar, presidente do grupo Renascença Multimédia, ao Jornal Económico.

A seu ver, a rádio tem mudado – por exemplo, as estações locais já são poucas –, no entanto, nenhum órgão ‘mata’ outro “se houver adaptação”. Na opinião do cónego, é transversal a outros media e a mais parâmetros da sociedade, como a literatura, os cidadãos não estarem disponíveis para “tudo o que significa reflexão, disponibilidade para ouvir o diferente e a opinião diversa” no prime time.

No caso do grupo que lidera, Américo Aguiar garante que “há prejuízos que se tem de assumir na vida” quando o assunto é “promover a reflexão” e por um pouco de parte as audiências. O controlo dos meios é outro dos temas que o inquieta: “Quando olho para os grupos de media privados fico curioso. Quem é o dono? O que pretende? Quando chega o calendário eleitoral há submarinos que sobem, submarinos que descem, temas que aparecem, temas que desaparecem (…). O grupo Renascença nunca escondeu a quem pertencia”.

No painel surgiu a questão de que quem está sujeito a constrangimentos éticos são os jornalistas e não o grupo que detém o(s) título(s), o que torna mais complexo do ponto de vista jurídico gerir a influência exacerbada nos conteúdos que são publicados.

“O futuro é risonho mas devemos estar atentos”

Além da divisão de receitas, dos reajustes, do impacto das redes sociais e do facto de “o bolo da publicidade” nos media ter passado de “um bolo-rei” a “um bolo de arroz”, a deterioração poderá também ser justificada pela faca de dois gumes que é a relação entre empresas e jornalistas. Os oradores destacaram que a menor especialização dos jornalistas leva as redações a descredibilizá-los e, por outro lado, a maior experiência das equipas de comunicação, muitas vezes repletas de ex-jornalistas, faz com que os profissionais nas redações sejam mais facilmente influenciáveis.

“As agências de comunicação têm de fazer chegar bons conteúdos aos órgãos de comunicação social e quem já trabalhou nos media conhece os códigos, a forma de trabalhar. É mais fácil para adequarmos as nossas mensagens e a forma de as fazer chegar”, argumentou a universitária Mariana Vitorino, da Universidade Católica, em declarações ao semanário.

Positiva e crente no poder do youthquake, a especialista em Comunicação Social arrancou o debate com o exemplo do filme “The Post” enquanto “bom retrato” do que interessa aos media e às organizações e dos conflitos de interesses. Talvez por isso acredite que os media ainda não estão “num panorama estável”. “Existe um crescimento do digital e dos novos influenciadores, mas ainda não estão assentes nem estabelecidas as regras do jogo, as questões éticas e de regulação não estão clarificadas”, adiantou, acrescentando que a imparcialidade editorial pode ser posta em causa com a proliferação do branded content.

A ainda diretora-geral da Porter Novelli não imagina um futuro em que os meios de comunicação digitais ponham fins aos jornais e revistas impressos e antevê que ganhe dimensão o “papel com valor-acrescentado, com qualidade de conteúdos, apresentação e toque”.

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