Marques Mendes diz que Ricardo Robles estragou a imagem do Bloco de Esquerda

Marques Mendes falou neste domingo do caso Ricardo Robles, da crise nos comboios, da descentralização contestada, de Centeno e os professores, entre outros temas. Sobre Robles elogiou-lhe a proeza como investidor imobiliário. “Se algum dia abandonar a vida política já tem uma profissão alternativa”, disse.

O comentador Luís Marques Mendes, no seu habitual espaço na SIC, comentou o caso do Vereador do Bloco de Esquerda que comprou um prédio em Alfama por 347 mil euros que foi posto à venda por 5,7 milhões de euros até abril, altura em que foi retirado. Uma notícia avançada em primeira-mão pelo Jornal Económico de sexta-feira.

Com este caso Ricardo Robles “vai comprometer fortemente a sua carreira política”, disse, acrescentando que este episódio “foi um desastre político para a sua carreira e um desastre para a imagem e credibilidade do Bloco de Esquerda”.

“O problema do vereador do Bloco de Esquerda não é ter feito esta operação. A operação de comprar uma casa, recuperá-la e vendê-la com mais valia fazem muitos portugueses. Ricardo Robles não cometeu nenhuma ilegalidade. O problema é que Ricardo Robles, no discurso, é contra este tipo de operações. A bota não bate com a perdigota. Ao longo destes anos ele tem criticado fortemente este tipo de operações, apelidando-as de especulativas e de altamente condenáveis”, disse.

“Ou seja: ele diz uma coisa e depois faz outra. Ele condena e faz especulação imobiliária, ele diz mal dos especuladores mas depois acaba por ser um deles. É um exercício de incoerência e de hipocrisia. Aplica-se aquele ditado de Frei Tomás: olha para o que ele diz, não para o que ele faz”, disse Marques Mendes.

A partir de agora, Ricardo Robles “fica fortemente afectado na sua autoridade. Quando quiser criticar negócios imobiliários não é levado a sério, fica fortemente limitado na sua legitimidade para denunciar situações, e isto afecta e muito a sua credibilidade política, e deixa-o muito comprometido na sua carreira política”, adiantou Marques Mendes.

O partido Bloco de Esquerda “sai muito mal disto”, disse o comentador.

“Catarina Martins e o Bloco de Esquerda saem muito mal, porque perante uma situação desta natureza, a líder e o BE só tinha uma solução, era demarcar-se do comportamento de Ricardo Robles. Pois Catarina Martins fez precisamente o contrário, veio pactuar com este comportamento”.

“Achei deprimente a intervenção de Catarina Martins, foi o seu pior momento político”, disse o comentador.

“Veio a público tentar justificar o injustificável, tentar defender o indefensável.  Tentou transformar isto numa cabala da imprensa contra o Bloco de Esquerda. O que é ridículo”, disse. “Se isto se passasse com alguém de direita, Catarina Martins estaria a condenar, criticar, a pedir a demissão caía o Carmo e a Trindade. mas como é dentro de casa, com os seus, pactua e aprova. É isto que mina a credibilidade”, disse Marques Mendes.

“É fácil criticar os adversários, mas o que é credível é criticar dentro de casa”, disse lembrando que a líder do Bloco critica Manuel Pinho, Ricardo Salgado, José Sócrates, o caso Tutti-Frutti, o BPN, mas só tem credibilidade quando tem a coragem de criticar os seus, de pôr ordem dentro da própria casa”.  O Bloco vai ficar minado na sua credibilidade e talvez aprenda aqui um bocadinho de humildade, de deixar-se dos falsos moralismos e tentar desqualificar os adversários com alegada superioridade moral”, adiantou.

A única coisa boa que Ricardo Robles mostrou, disse Marques Mendes em tom de ironia, “é que consegue ser um grande investidor imobiliário. Porque alguém que em quatro anos consegue tentar fazer uma mais valia de quase 500%, é caso para dizer que domina bem a matéria. No dia em que abandone a vida política já tem uma profissão alternativa garantida”.

Crise nos comboios

A semana foi marcada ainda pelo desinvestimento na ferrovia. A resposta do Governo de que está a preparar o concurso para a compra de comboios e que autorizou a contratação de mais de 100 pessoas para a EMEF.

Numa altura em que o número de reclamações aumentou 64% no ano passado e o comboio é o transporte público com mais queixas.

O que diz Marques Mendes da contestação popular durante a semana relativamente à degradação da qualidade dos serviços da CP, fecho de linhas, falta de carruagens. “A situação é explosiva. Há 20 anos que não se compra um comboio novo em Portugal. As estimativas apontam para a necessidade de 10 novos comboios para a linha de longo curso, de 25 para o serviço regional e a substituição de todos ou praticamente todos na linha de Cascais, por estarem já obsoletos. A manutenção está cada vez com menos pessoas, porque saem os reformados e não são substituídos por outros, por outro lado o pouco investimento que tem sido feito ao longo dos anos é sobretudo em obras e não em material circulante, como se isso não bastasse a população que utiliza comboios está a aumentar. No ano passado 122 milhões de utentes utilizaram o comboio. E  estamos a um ano da liberalização do transporte ferroviário de passageiros que trará para Portugal outros operadores, que podem ser espanhóis, franceses.  como dizia há dias um sindicalista, isto pode ser a morte da CP”, relatou Marques Mendes.

“Isto é culpa de muitos Governos que não investem na ferrovia, investem mais na rodovia”, considera o comentador.

Marques Mendes elenca os vários Governos. “O Governo de Durão Barroso não tinha recursos para investimento público porque foi a primeira vez que Portugal entrou na lista negra dos défices excessivos e teve de apertar o cinto”.

Depois vem o Governo José Sócrates, “aí já havia dinheiro para investir porque foi o tempo das vacas gordas, mas foi a megalomania do TGV e a irresponsabilidade das PPP rodoviárias. A ferrovia ficou a ver navios”.

Depois “o Governo Passos Coelho com a troika e não havia dinheiro para investimento público. Tiveram que apertar o cinto”.

“Agora a situação melhorou um pouco e o Governo António Costa fez algumas promessas, e lançou o Programa Ferrovia 2020, mas por causa das cativações que está tudo muito atrasado. E pouco investimento previsto é sobretudo em obras e não em material circulante”, alertou.

“A situação é muito delicada, não vai ser possível dar a volta de um dia para o outro, porque não se arranjam comboios novos”, disse ainda.

“Em conclusão, é na Saúde, é nos Comboios, como é noutras áreas quando durante muitos anos não há investimento alguém paga a fatura. Os serviços públicos degradam-se.  E quem paga é o mexilhão.
É natural que as pessoas se revoltem. Precisam do comboio para ir para o trabalho. Não para fazer turismo”, concluiu.

Está previsto um aluguer de composições a Espanha enquanto não chegarem os novos comboios.

 

Descentralização contestada

O Parlamento aprovou há dias, por maioria PS/PSD, a nova lei quadro de descentralização que teve o acordo da Associação Nacional de Municípios. Mas é uma lei que está a ser muito contestada pelos autarcas.

Marques Mendes diz que a ideia de descentralizar mais poder para as autarquias é boa. “Mas a lei que foi aprovada é uma fraude, uma desilusão”, disse.

O comentador justificou dizendo que em primeiro lugar “não é uma reforma. É um simulacro de reforma. Vai ficar tudo na mesma”. Por exemplo,  “no domínio da educação, os municípios não vão definir a oferta formativa dentro do seu concelho. As autarquias não podem ter intervenção na escolha de cursos, ou decidir mais cursos profissionais. Não vão ter intervenção na definição do horário e calendário escolar. Não vão ter intervenção na definição dos número de alunos por turma, nem do número de turmas. Nem vão ter intervenção em matéria de turmas”, lembrou.

No domínio da saúde a descentralização que está prevista também desilude Marques Mendes.

“Os municípios vão tratar da gestão dos centros de saúde? Não. Horários do centro de saúde, atendimento domiciliário, ações de emergência, tudo continua no poder central. Ou seja, na minha opinião é uma enorme desilusão. Não consigo perceber como é que o PSD vota a favor desta lei. Os autarcas do PSD tinham propostas mais ambiciosas e sem o voto do PSD o Governo não conseguia fazer aprovar esta lei”, disse.

“Tudo o que é importante continua no Poder Central”, rematou. Claro que na prática é impossível o Presidente da República vetá-la, “porque foi aprovada por uma maioria alargada de dois terços (PS/PSD). Mas em boa verdade era o que verdadeiramente merecia: ser vetada e devolvida ao Parlamento para ser aprofundada. Esta lei é uma oportunidade perdida”, disse Marques Mendes citando o deputado do PSD, António Leitão Amaro na sua declaração de voto.

Sobre as reivindicações dos professores e a entrevista do Ministro das Finanças ao Público, Marques Mendes diz que “Mário Centeno fez de polícia mau – dizendo não às reivindicações dos professores, resta saber se vai surgir algum polícia bom”.

A questão dos professores “é um berbicacho para o Governo. Se cede aos professores na totalidade a opinião pública vai cair-lhe em cima, depois dá cabo do Orçamento de Estado e dá cabo do Ministro das Finanças”, disse.

“O Governo ceder aos professores na totalidade ou quase e fazer com estes efeitos financeiros sejam refletidos ao longo de anos, comprometendo governos futuros e orçamentos futuros, julgo que isso é impossível porque toda a gente estaria contra”.

“A opção de Governo ceder aos professores, não em remuneração mas em antecipação da idade de reforma – a solução menos má – acaba criar um precedente para outras carreiras e tem igualmente impacto financeiro na Caixa Geral de Aposentações”, disse.

“Se o Governo cede aos professores, desagrada à opinião pública que está contra a reivindicação dos professores. Se o Governo não cede e o conflito se mantém, provavelmente o Governo paga um preço político – não chega à maioria absoluta. Pois os professores têm um peso eleitoral significativo”, disse lembrando que a origem do problema está nas promessas do Governo.

“O que nasce torto tarde ou nunca se endireita. O Governo criou expectativas e facilidades no início e agora gera dificuldades”, disse.

Amanhã e na 3ª feira o Presidente da República vai ouvir os partidos.

“É uma iniciativa habitual do Presidente. Não é difícil antever os principais temas a abordar”, disse. No plano externo, a UE, o Quadro Financeiro Plurianual e as Migrações. No plano interno, a questão do OE; dos professores: o estado da saúde; a legislação laboral; os incêndios florestais”, disse.

“Politicamente falando, julgo que há pelo menos três questões relevantes: Uma tem a ver com a geringonça e o Orçamento de Estado. O Presidente quer assegurar-se de que o OE para 2019 vai ser aprovado pela geringonça. Ou seja, quer ter a certeza não haverá nem crise política, nem eleições antecipadas. E julgo que vai ter respostas favoráveis”, disse Marques Mendes.

Uma segunda questão, na óptica de Marques Mendes, vai ser a eventual criação de um novo partido, na área da direita, ou centro direita, a ser liderado por Santana Lopes, já pré-anunciado. Vai ser provavelmente um tema a abordar. O Presidente vai seguramente querer indagar junto dos partidos PSD e CDS, para saber o que pode mudar na direita, que perturbações e que desafios o novo partido pode colocar ao nosso sistema partidário”, disse o comentador que é membro do Conselho de Estado que é o órgão consultivo do Presidente da República.

O terceiro tema que antevê que venha a ser abordado por Marcelo no encontro com os partidos, sobretudo com o PS, “é a abertura do novo ano lectivo, a abrir em setembro. Com a crise dos professores em agenda, o PR vai querer assegurar-se de que o próximo ano lectivo vai abrir com normalidade, porque coincide com a guerra dos professores”.

Nas notas finais lembrou, entre outras coisas, saudou o adiamento da venda da Comporta “para garantir transparência”.

Deu ainda nota das “boas notícias para os emigrantes”. Dado que o recenseamento eleitoral passa a ser automático. O voto por correspondência passa a ser gratuito. E os cidadãos com dupla nacionalidade, residentes no estrangeiro, passam a poder ser eleitos para a Assembleia da Repúblico (desde que não tenham cargos nos países de acolhimento).

Marques Mendes saudou ainda a trégua entre Estados Unidos e a União Europeia na guerra comercial, decorrente do encontro entre Trump e Juncker.

(atualizada)

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