Merkel na i3S: uma licenciada em física entre físicos que querem saber para onde vai a Europa

Num encontro com alunos onde estudam 34 nacionalidades, a maioria das perguntas revelaram uma preocupação com a Europa que a chanceler alemã e o primeiro-ministro António Costa assumiram como muito positiva.

Fabrizio Bensch/Reuters

A chanceler alemã Angela Merkel esteve esta quarta-feira na i3S – um centro de investigação científica em saúde que reúne alunos de 34 nacionalidades e liderada por Honório Barbosa – num encontro com dezenas de alunos de doutoramento da área da química e da física (precisamente a área da chanceler) da instituição.

Para António Costa, primeiro-ministro português, o lugar não podia ser o mais indicado, para atestar o caráter transnacional da economia portuguesa, mas também a estratégia de foco no futuro e no global que, disse, está por trás da postura do seu Governo. “Trabalhamos em rede e a rede precisa de ter pontos em comum com a União Europeia – que investe cada vez mais na capacidade de inovação” que está explanada no Orçamento da própria União Europeia.

Dos 80 mil milhões de euros do Horizonte 2020, passam agora a 100 mil milhões de euros” o orçamento para a investigação. “Seguramente vamos ter uma Europa melhor”, concluiu.

Merkel – que pediu para que a poupassem dos temas ligados à física e à química – quis sobretudo falar sobre a Europa. Que, disse, está na linha da frente da investigação mas “os outros também não ficaram parados”. Nesse quadro, “trata-se de promover excelência, pelo que os chefes de Estado da Europa decidiram criar uma agência para a inovação”, disruptiva e que trate de financiar a investigação.

A primeira pergunta colocada pelos alunos presentes na i3S era mais para a realidade portuguesa: o que fazer com a sabedoria e conhecimento que tem de atravessar fronteiras por não encontrar no país de origem uma saída profissional compatível. Merkel revelou que na Alemanha já teve o mesmo problema: ‘cérebros’ alemães que viajaram para a Alemanha e não regressaram. O contrário, disse, é um caminho que tem de ser feito – e Portugal estará por certo a fazê-lo. Mas o problema continua a ser transversal à Europa, desde logo na área da inteligência artificial. “Temos de ser mais flexíveis”, afirmou.

Costa quer atrair empresas que contratem

António Costa disse, por seu turno, que Portugal “está a inverter a situação”, o que fica provado pelo número de contratações que estão a surgir nas áreas científicas – contratações essas que em larga medida são apoiadas pelo Estado.

Mas “precisamos de continuar a atrair para Portugal empresas que contratem” essas qualificações, apesar do muito que tem sido feito nos últimos anos. “Mais importante: as empresas portuguesas perceberam que, para serem mais competitivas, precisam cada vez mais de pessoas qualificados”, o que “vai permitir travar a fuga de qualificações”.

Por outras palavras, a pergunta repetir-se-ia – desta vez não em termos de emprego científico, mas da capacidade de transformar conhecimento em racional de negócio. António Costa teve a oportunidade de afirmar que essa é uma das preocupações do Governo, explanada em patentes registadas, em apoio a startups e na investigação aplicada “sem a qual não existem setores que trabalhem nas áreas científicas”. O renascimento dos setores tradicionais, calçado, têxteis e vinhos, são disso prova. Quanto aos vinhos, Angela Merkel levantou as suas dúvidas!

No que a chanceler não tem dúvidas é que a estratégia dos ‘clusters’ foi um dos segredos do sucesso da poderosa indústria alemã – isto é: diversificação sim, mas concentração geográfica de interesses industriais comuns. Em Portugal, recorde-se, os ‘clusters’ têxtil, de calçado e dos componentes automóveis são os exemplos mais significativos.

Merkel respondeu também a uma questão sobre o terrorismo na Europa: “é preciso aumentar o trabalho em rede”, afirmou, mas essa rede já existe, o que fica provado pelas vitórias que os Europeus já conseguiram.

Pergunta pertinente: a Europa parece ser neste momento mais reativa que ativa, ao mesmo tempo que apresenta uma envolvente atrativa, mas que depois não se consubstancia na prática. “Talvez alguns saibam vender-se melhor que nós”. Costa atalhou: “um dos maiores riscos do futuro da Europa é a fratura entre diversas partes da Europa – entre o leste e o oeste”. Mas essa experiência, que obriga à partilha da diversidade, tem de ser uma mais-valia e não o contrário, o que “é um exercício permanente”. Em diversas situações, nomeadamente, disse, no combate ao terrorismo.

Para todos estes mecanismos de fortalecimento da Europa é fundamental, recordaria António Costa, que todos votem nas eleições para o Parlamento Europeu (que serão em 2019): “é fundamental que todos participem porque Bruxelas só decide na medida em que nós permitimos que ela decida”.

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