BCP: Miguel Maya vai focar-se na rentabilidade e Nuno Amado na supervisão

Nuno Amado terá funções de controlo e supervisão, acompanhamento, relação com as comissões e relação com os acionistas. Será vice-presidente não executivo quer na Polónia, quer em Moçambique. Miguel Maya será o CEO, focado na rentabilidade, eficiência digital e crescimento. Orgânico e por aquisições.

Miguel Maya, atual vice-presidente executivo do Banco Comercial Português (BCP) será eleito esta quarta-feira, em assembleia geral, presidente executivo do banco, passando o atual CEO, Nuno Amado, a presidente do conselho de administração.

A proposta assinada pelo grupo chinês Fosun, o maior acionista do BCP, a petrolífera angolana Sonangol e o fundo de pensões do grupo EDP propõe que Nuno Amado deixe de ser presidente executivo (cargo que assumiu em 2012) e passe a presidente do conselho de administração (chairman), cargo até agora ocupado pelo embaixador António Monteiro.

O que quer isto dizer? Quer dizer que Nuno Amado  terá as funções de controlo e supervisão, acompanhamento, relação com as diversas comissões e será responsável pela relação com os acionistas. Será também vice-presidente não executivo quer na Polónia, quer em Moçambique.

Nuno Amado fecha ciclo de resistência e Miguel Maya inicia ciclo de crescimento 

Miguel Maya será o típico CEO, que vai gerir o banco no dia-a-dia e traçar a estratégia para conduzir o maior banco privado português para o novo ciclo de crescimento. Maya chega à cúpula do BCP depois de Nuno Amado ter fechado com sucesso o ciclo da resistência.

O início do mandato de Nuno Amado ficou marcado por três anos consecutivos de prejuízos – em 2012 (1.219 milhões de euros), 2013 (740 milhões de euros) e 2014 (217,9 milhões de euros). Em 2012, o banco teve de recorrer à ajuda do Estado para se recapitalizar, através de 3.000 milhões de euros de obrigações de capital contingente (os chamados ‘CoCos’), subscritos em junho de 2012 pelo Estado e reembolsados na totalidade no início de 2017. O banco teve ainda de gerir durante estes anos montantes elevados de crédito malparado, que em março eram de 6,3 mil milhões de euros.

O mandato de Nuno Amado fica ainda marcado pela redução da dimensão do banco. O número de trabalhadores em Portugal reduziu-se em 1.793, ao passar de 8.982 em 2012 para 7.189 no final de 2017, e fechou 261 agências, já que eram 839 em final de 2012 e passaram a 578 em final de 2017.

O que vai ser o BCP de Miguel Maya? Um banco que terá o foco na recuperação da rentabilidade e na melhoria da eficiência. Vai ser um banco que vai travar a batalha do digital. A digitalização e o posicionamento do BCP num mercado onde entram novos competidores, as Fintechs, é a empreitada de Miguel Maya para os próximos quatro anos.

As propostas à assembleia-geral do BCP hoje votadas incluem ainda uma proposta para que o mandato do Conselho de Administração do BCP passe dos atuais três para quatro anos, justificada com a necessidade de dar “maior estabilidade ao desempenho de funções dos membros dos órgãos sociais”.

Miguel Maya vai apostar no crescimento orgânico através do aumento das receitas, mas o BCP prepara-se também para ser um player do crescimento por aquisições, quer no mercado nacional, quer no mercado internacional, sabe o Jornal Económico. O mercado português ainda não está consolidado e o futuro do Novo Banco, pós-Lone Star, continua em aberto.

O que vai ser votado na AG

A Assembleia Geral do BCP, marcada para as 14:30 (hora de Lisboa) no Taguspark, em Oeiras, antevê-se longa. Tem 10 pontos em agenda, mas os penúltimos são os mais importantes. O ponto sete trata da alteração de estatutos, nomeadamente o alargamento do mandato e há também uma proposta de alteração dos estatutos que determina que o Conselho de Administração passe a ser composto por um mínimo de 17 e um máximo de 25 membros eleitos pela Assembleia Geral e o ponto oito é o da eleição dos órgãos sociais.

Para além de Nuno Amado e Miguel Maya, na lista estão Norberto Rosa (que vai ser também presidente da Comissão da Auditoria), Jorge Magalhães Correia (presidente da Fidelidade e em presentação da Fosun) entre outros, sendo ao todo 17.

Para a Comissão Executiva são propostos, além de Miguel Maya, mais cinco: Miguel Bragança (foi para o BCP em 2012 com Nuno Amado), João Nuno Palma (ex-administrador da Caixa Geral de Depósitos até 2016 e que entra no BCP pelas mãos da Fosun), José Miguel Pessanha e Rui Teixeira e ainda Maria José Campos (do BCP, ligada ao banco Millennium na Polónia).

Já para administradores não executivos são propostos onze nomes. Além de Nuno Amado como presidente, e do presidente da Fidelidade, Jorge Magalhães Correia estão na lista Ana Paula Gray (com experiência em banca em Angola, representando o acionista Sonangol), Lingjiang Xu (ligado à Fosun), Xiao Xu Gu (administradora do grupo Fosun), Teófilo Ferreira da Costa (até 2017 diretor do grupo CGD) e José Manuel Elias da Costa (secretário de Estado em governos PSD de Cavaco Silva, trabalhou no Santander Totta e desde 2016 consultor do Banque de Dakar, Senegal).

A lista carece ainda da aprovação do BCE.

O BCP tem como principal acionista o grupo chinês Fosun, com 27,06% do capital social, sendo a petrolífera angolana Sonangol o segundo maior acionista, com 19,49%. Já o Grupo EDP tem 2,11% do capital. Em conjunto, estes três acionistas, que propuseram os novos membros do Conselho de Administração, têm mais de 48% dos direitos de voto.

Apesar de subscrever a lista conjunta a EDP não propõe nenhum representante para o ‘board’ do BCP.

Ponto 5 propõe 4,9 milhões de pagamento extraordinário para pensões dos administradores 

O conselho de remunerações do BCP vai levar à assembleia-geral ainda uma proposta para o pagamento extraordinário de 4,9 milhões de euros para os fundos de pensões dos actuais administradores executivos. A proposta relativa do ponto cinco da agenda de hoje refere que em 2017 foi feito um estudo, pela Mercer, sobre o regime de reforma dos administradores executivos do BCP comparando com outras empresas bancárias e empresas cotadas no índice bolsista PSI-20. O estudo concluiu que o “regime de complemento de pensões dos membros da comissão executiva do BCP evidencia que a taxa de reposição dos administradores abrangidos é inferior à taxa de substituição média das empresas do PSI-20 com um plano de benefício definido, sendo que no caso do BCP se encontra em vigor um regime de contribuição definida e não um regime de benefício definido”. Assim, o conselho de remunerações e previdência propõe que os acionistas aprovem hoje um aditamento ao regulamento de reforma dos administradores executivos que permita que em assembleia-geral seja decidido uma contribuição extraordinária para o complemento de reforma desses administradores, e que “seja aprovado o pagamento de uma contribuição única e extraordinária do BCP para os fundos de pensão dos administradores executivos que desempenharam funções no mandato 2015/2017 no montante total de 4.920.236 euros (quatro milhões, novecentos e vinte mil, duzentos e trinta e seis euros) a acrescer aos montantes já entregues no decurso do exercício a título de contribuição para complemento de reforma”.

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