Veiga Sarmento: “Não há capital português para investir em fundos imobiliários”

Os fundos de investimento em Portugal ainda não recuperaram da crise, segundo o presidente da APFIPP. Face a 2007, o volume de ativos caiu 36%. Na Europa, o tombo é apenas menor que o grego.

As cicatrizes da crise ainda estão marcadas no mercado de fundos de investimento em Portugal. A recuperação é lenta e o negócio ainda está longe dos níveis pré-crise, de acordo com José Veiga Sarmento. Em entrevista ao Jornal Económico, o presidente da Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios (APFIPP) alerta para a necessidade de os portugueses pensarem na poupança para a reforma.

Quais as principais tendências que estão a marcar este ano os fundos de investimento?

O ano passado foi muito bom para os fundos de investimento, houve recuperação do interesse por parte dos investidores e os mercados também ajudaram. Este ano, os mercados estão mais complicados. Há uma série de interrogações quanto ao comportamento dos EUA no comércio, o que tem introduzido alguma instabilidade que afeta principalmente os países emergentes, mas que acaba por afetar as economias europeias.

Quanto aos fundos, continuamos a recuperar um pouco da dimensão que existia antes da crise, embora a um ritmo que podia ser melhor. Os países do sul da Europa foram os países que foram atingidos pela crise. Em Portugal, Espanha, Itália e Grécia, foram afetadas as economias, o emprego e o sistema financeiro, mas também muito a poupança que tinha optado por fundos de investimento. Em Portugal, há uma situação muito semelhante à italiana. Os espanhóis começaram a recuperar e os gregos estão bastante piores que nós no que diz respeito à poupança das famílias e ao dinheiro aplicado em fundos de investimento.

O que aconteceu nos países do sul foi uma diminuição porque as pessoas precisaram de dinheiro, por um lado, e um aumento do peso dos depósitos no compito das poupanças, por outro. Em Portugal, o volume de depósitos relativamente ao PIB, entre 2007 e 2016 aumentou 6%, enquanto de fundos de investimento diminuiu 5%.

Já voltámos a níveis pré-crise?

Não, não voltámos de maneira nenhuma. Nem nós nem os outros países do sul. Estamos muito longe. Perdemos entre 2007 e 2017, considerando todo o tipo de fundos, 36% do volume. Itália perdeu 10% e a Grécia 66%. Espanha conseguiu praticamente recuperar o volume. Estamos ainda a digerir o que aconteceu nos últimos anos, do ponto de visto de equilíbrios financeiros e da estrutura da poupança das nossas famílias.

O que é que é necessário para o setor crescer?

A nossa economia foi abaixo e, com ela, o sistema financeiro, que, como transmissor de capacidade de investimento das famílias afetou as oportunidades de crescimento. O processo de recuperação de uma crise é sempre moroso. Em termos concretos, estamos num quadro europeu que tem de encontrar forma de eliminar estas assimetrias de perspetivas económicas para se atingir um enquadramento mais homogéneo, que não tínhamos e que levou a um impacto da crise muito assimétrico. Esta pergunta tem a ver também com a agenda europeia.

Portugal foi beneficiado pela melhoria da economia a nível global. Também pelo turismo, que afetou um setor que, para nós, é importantíssimo, que é o imobiliário. Portanto nem nos podemos queixar muito da situação em que estamos relativamente ao pico da crise, mas ainda não saímos dela… E prova disso é que as pessoas ainda não têm dinheiro para poupar e investir em fundos.

Entre os diferentes tipos de fundos, quais estão a recuperar melhor e pior? Falava dos fundos imobiliários. São os mais importantes atualmente?

Durante a crise, houve um conjunto de alterações no sentido de menos risco e de opções por multi-ativos. Os fundos multi-ativos representavam, em 2007, apenas 3% do total em Portugal, neste momento representam cerca de 13%.

Quanto ao imobiliário, Portugal tem sido beneficiado com grande volume de investimento no setor imobiliário, mas não tem sido através de fundos de investimento imobiliário. O que aconteceu até agora foi a vinda de capital estrangeiro individual (pessoas que optaram por vir viver para Portugal), o que potenciou também a entrada de investimento institucional.

Vemos que grandes operadores internacionais do imobiliário entraram a fazer grandes operações em Portugal e assistimos nos últimos dois anos a valores recorde do investimento em imobiliário. É preciso ter presente que os fundos de imobiliário nacionais ainda não participaram neste movimento por uma razão simples que é: não há capital nacional em Portugal para investir em imobiliário e esse é um dos dramas que a crise nos deixa. Um fundo de investimento é um ponto de encontro entre pessoas que querem investir e oportunidades de investimento. Pode acontecer com ações, obrigações, imobiliário… Em Portugal, o que assistimos é que existem oportunidades, mas não há dinheiro português para investir. Quem tem beneficiado são os estrangeiros.

Qual o peso do investimento alternativo em Portugal?

Estamos perante uma tendência global e é natural que os operadores portugueses acompanhem as tendências. Enquanto associação, temos promovido ações de troca de informações sobre esses temas. Foi criado um fundo da Caixagest – o Caixagest Investimento Socialmente Responsável -, mas está longe de ser uma preocupação dos agentes que estão mais preocupados em agarrar o core do negócio e promovê-lo do que em dispersar-se por preocupações desse tipo. Não é uma preocupação central dos gestores em Portugal, mas vai ser uma tendência.

O número de fundos a investir em criptomoeda disparou no início do ano. Como é que vê esta tendência?

Sobre isso, vou-lhe dar uma resposta como economista e não como presidente da associação porque nunca foi discutido. Percebo que o sistema financeiro internacional padece de um conjunto de problemas, nomeadamente ao nível das moedas, o que tem implicações graves ao nível do comércio internacional. A forma como o dólar, o euro, o iene ou renmibi se comportam são afetadas por um conjunto de fatores causa ruído nas trocas globais. Portanto, a procura por uma moeda de troca global é algo que está na cabeça dos economistas já há algum tempo.

O que aconteceu recentemente com a bitcoin, que foi depois seguido de uma série de iniciativas semelhantes, foi a criação de uma unidade de troca cujo objetivo inicial era ser imune às vicissitudes do câmbio, mas também com interesses menos legais por estar fora da regulação e supervisão.

Esse conceito acabou por ser objeto de investimento. Do ponto de vista económico, é um disparate porque não há ninguém que garante que essa unidade tem valor ou representa alguma coisa, a não ser a fé das pessoas que a procuram. Vamos assistir, inevitavelmente, a sangue, suor e lágrimas num horizonte relativamente curto porque não representam nada.

Por outro lado, juntamente com esta unidade, surgiu uma tecnologia que facilita imenso o relacionamento entre sistemas. Mas isto é o blockchain. O que se veio a perceber foi que servia otimamente para suportar transações comerciais ou financeiras. E foi aí que os bancos e as sociedades financeiras começaram a ver como é que podiam aproveitar essa tecnologia, que foi um exercício que também fizemos.

Falou da poupança. Como estão as poupanças dos portugueses?

Há um tema muito querido por nós que é o tema da poupança, em especial da poupança para a reforma porque temos um país que tem características demográficas e envelhecimento mais exacerbado que outros países. Saiu recentemente um novo ageing report da Comissão Europeia, que refere que o desequilíbrio demográfico (em termos de peso das pessoas com mais de 65 anos em relação ao resto da população) não para de se agravar, ao mesmo tempo que as perspetivas de dimensão do país também não param de se agravar. Prevêem a diminuição de dois milhões de pessoas em 40 anos.

Há um esforço a fazer ao nível da natalidade, se queremos sobreviver enquanto país, e há muita coisa a fazer ao nível da proteção da reforma. Em Portugal, está na esfera exclusiva do Estado porque existe esta ideia que a segurança social é universal e sustentável. A nossa preocupação é que sabemos que isto não é verdade e deixar para o futuro a ideia de que o sistema de segurança social vai dar apoio a todas as pessoas que vão requerer esse apoio não é matematicamente exequível.

O que é que é preciso fazer?

A situação portuguesa é a pior da Europa, mas acontece em Espanha, França, Alemanha… O que tem acontecido é que em todos os países, à exceção de França que tem alinhado com Portugal, têm surgido políticas de incentivo à poupança individual para a reforma para que, quando o Estado for chamado a ajudar, as pessoas tenham almofadas. Não acontece em Portugal e os apoios que existiam, ao nível dos PPR e dos fundos de pensões, deixaram de existir. Não existe em Portugal qualquer incentivo à poupança que vá suportar o papel do Estado. Não dizemos que o Estado não deve pagar pensões, não é nada disso. No entanto, o Estado não tem condições para assegurar 100% dessa proteção pelo que é urgente que se desenvolvam mecanismos de promoção da poupança privada para suplementar o apoio que o Estado devia dar aos reformados.

Espera que esses incentivos sejam incluídos no Orçamento do Estado proximamente?

Temo que não porque existe, por um lado, um preconceito ideológico em relação à poupança privada que há muita gente que acredita que a função da segurança social é tão nobre que só pode ser executada pelo Estado e os particulares que não devem fazer parte desta equação. Por outro lado, existe a demonstração de que só existe poupança privada quando é induzida, ou seja, quando os governos criam condições para que essa poupança privada aconteça. Isto pode acontecer através de benefícios fiscais, como aconteceu com os PPR ou de uma outra forma que foi inventada em Inglaterra, que é o auto-enrollment.

Há 15 anos, havia a perceção de que a proteção de reformas futuras no sistema de pensões inglês estava risco e foi criada uma comissão, chefiada pelo Lorde Turner. Basicamente o que diz é que é necessária aumentar a poupança privada. O sistema de auto-enrollment é uma obrigação legal para que todas as empresas, no momento em que pagam salários, retirem dinheiro e coloquem numa conta individual dos empregados num regime em que não lhe podem mexer.

No início, a estimativa de abandono era de 10% a 15%. Verificou-se que é de 2% ou 3%, portanto o sistema funciona às mil maravilhas. Neste momento, está a ser copiado na Europa. Na Alemanha, foi publicada em janeiro uma lei semelhante, mas que funciona através da contratação coletiva. São soluções como várias outras que vêem a ser tomadas para fazer face a um problema que é do sistema ser muito antigo. A realidade demográfica evoluiu e, neste momento, não funciona. Portanto, se as pessoas querem ter dinheiro no futuro, têm de poupar para si hoje e não confiar que o sistema que o Estado tem vai ter possibilidade de lhes dar o que não vai ter possibilidade de dar. Esta solução do auto-enrollment é uma das medidas. Outra é a diminuição das pensões do Estado, que é o que já está a acontecer em Portugal. Só que não está a acontecer mais nada.

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