Não sei porquê desta vez o anúncio da greve na TAP fez-me lembrar “O Principezinho”. Não sabia porquê!

Não havia reclamações monetárias, economicistas dizem alguns, como se neste momento a ambição da grande maioria dos portugueses não fosse poderem ver melhoradas as suas condições económicas. Mesmo alguns portugueses de quem há alguns meses não suspeitaríamos poderem ter esse desígnio… A argumentação, por vezes posta a circular por meios mais próximos da administração, desta […]

Não havia reclamações monetárias, economicistas dizem alguns, como se neste momento a ambição da grande maioria dos portugueses não fosse poderem ver melhoradas as suas condições económicas. Mesmo alguns portugueses de quem há alguns meses não suspeitaríamos poderem ter esse desígnio…
A argumentação, por vezes posta a circular por meios mais próximos da administração, desta vez não colhe. Não se pede dinheiro (como se isso fosse crime…).
Mas porque razão então uma greve sem “razão”? “Isto não vai dar nada mas temos que a fazer”. Foi a explicação mais estranha e mais consistente que ouvi. Ao contrário do que se pensa os tripulantes de cabine contribuíram, e muito, para a recuperação da empresa. Não só não reclamando aumentos, aceitando, contrariados mas pacíficos, reduções de custos que foram lentamente melhorando (do ponto de vista dos resultados) diversas rubricas dos gastos da empresa. A situação fez-me lembrar a explicação dum administrador bancário para a publicidade: não ganhamos clientes mas se não fizermos corremos o risco de perder. Assim uma espécie de ginástica de manutenção. Os tripulantes, não tendo feito greves próprias nos últimos 14 anos (sim, é verdade) não têm feito ginástica de manutenção. E a empresa, passo a passo, foi agradecendo a compreensão e a colaboração com mais 1 hora aqui, uma falta a mais ali, uma carta não respondida umas quantas vezes, inúmeros pequenos abusos, cada um por si e pontualmente talvez insignificantes mas que se vão acumulando sem uma palavra, sem uma explicação, sem um gesto de compreensão.
A administração sabia (sabia mesmo, desta vez não é o sabia ou devia saber…) do mal-estar que se vinha acumulando sobretudo depois de um verão desastroso em que é impossível imputar responsabilidades aos tripulantes. A administração, embalada no sono indeciso do e pelo governo, foi sempre tentando não ver o problema nascente, como se o (aparente) desconhecimento fosse de facto uma inexistência. Não era! E contribuiu para o agravar.
E o mal-estar transformou-se numa questão de dignidade. As pessoas sentiram-se humilhadas, desconsideradas. O resultado da votação da greve é disso ilustração.
Nova argumentação: e uma greve por causa disso? Deve ser uma questão política! Pois bem: é uma questão política, esta é que é a verdadeira questão política. Não confundir com partidos ou interesses aparentados. Esta é a verdadeira política, a dignidade dos tripulantes. Ousaríamos dizer que é a greve que todos os portugueses gostariam de fazer: a reivindicação da sua dignidade. E como de costume o essencial não é visível aos olhos. Lá está, o tal do Principezinho.

 

Pedro Rodrigues
Economista, ex-administrador público e ex-professor universitário

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