Nem sequer conseguimos uma expulsão

Para além dos argumentos falaciosos e pobres do lado português, o que está em causa é a forte influência dos partidos da geringonça.

1. Portugal acusa falta de solidariedade com os países da União Europeia e da NATO ao não aproveitar a “onda” que varreu países ocidentais, depois do apelo da PM britânica para a expulsão de diplomatas russos, na sequência do envenenamento do ex-espião russo Serguei Skripal no Reino Unido.

A opção diplomática foi concertada com os EUA e boa parte dos países europeus que seguiram o apelo de Theresa May. O MNE português preferiu chamar o embaixador português em Moscovo, algo que o Presidente da República considerou uma “decisão forte”, enquanto o Governo, através da SE dos Assuntos Europeus, Ana Paula Zacarias, lamentava ter apenas três funcionários em Moscovo, o que significa que uma expulsão em Lisboa poderia resultar na ausência de presença consular em Moscovo. Para além dos argumentos falaciosos e pobres do lado português, o que está em causa – é nítido – é a forte influência dos partidos da geringonça, com destaque para o Bloco. Aliás, tudo isto não é de admirar. Pelo contrário, é algo muito próprio da esquerda portuguesa, onde estes temas nunca são brancos ou pretos, serão antes cinzentos com várias tonalidades.

O que está em causa, repetimos, é uma falta de solidariedade com os países da UE e nem sequer o argumento de que Portugal seria particularmente afetado pelas trocas comerciais é suficientemente forte. Seriam menos latas de sardinha, azeite e vinho a ser vendidos, mas nada que outros mercados não compensassem. Diferente é se o tema envolvesse Angola e aí é o que se vê. Aquele que já foi o quarto destino das exportações portuguesas é relevante mas, claro, há todo um legado histórico que no momento atual nos prejudica. As boas relações com o MPLA e com o poder foram do PSD e de Cavaco, enquanto o PS continuou a sofrer com o legado de Mário Soares, que sempre se mostrou mais próximo da Unita. No momento atual há um claro complexo deixado pela herança e as soluções tardam em aparecer.

2. A questão das florestas levou duas dezenas de governantes a protagonizar uma operação de marketing no terreno, vestindo coletes ou transportando ramos. E alguns nem tiveram tempo para cobrir de poeira o verniz dos sapatos. O que se pode dizer é que a intenção com que foram feitos os vários eventos pelo país é criticável, mas o efeito poderá ser benéfico. Recordemos o exemplo do tenor Plácido Domingo, que estava no México em setembro último quando ocorreu um sismo com muitos mortos, e decidiu ir ao terreno e empurrar umas pedras durante um minuto de televisão. O seu gesto levou milhares de voluntários aos locais do sinistro para ajudar, ou seja, a intenção trouxe benefício e é recordada.

Veremos como se revelará a ação de marketing do Governo. Se falhar, terá sempre as coimas sobre os mais pobres e desprotegidos e um bom argumento para atacar a propriedade.

 

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