Nos montes frescos de Sintra, Draghi veio aumentar a temperatura dos mercados

O enigmático Mario Draghi, anfitrião no Fórum do BCE em Sintra, é um perito na arte do ‘cool’, mas abriu o evento com um discurso que acabou por aumentar a temperatura das ‘yields’ das dívidas soberana da zona euro e levar a moeda única a máximos de quase um ano.

Numa antevisão do Fórum do Banco Central Europeu (BCE) que está a decorrer em Sintra, uma agência internacional de notícias explicava que nos montes frescos (“cool”) perto de Lisboa os banqueiros centrais poderiam escapar ao calor do verão, mas não às decisões que têm de tomar sobre quando e como têm de normalizar as políticas monetárias nestes tempos de retoma económica.

O enigmático Mario Draghi, anfitrião no papel de presidente do BCE, é um perito na arte do ‘cool’, mas abriu o evento com um discurso que acabou por aumentar a temperatura das yields das dívidas soberana da zona euro e levar a moeda única a máximos de quase um ano.

O italiano, que tem mantido os observadores expectantes sobre o calendário para a retirada dos estímulos monetários na zona euro, parece ter aproveitado a oportunidade para dar vários sinais de que o banco central poderá estar prestes a modificar a política monetária, começando por ligeiros ajustes.

Draghi reiterou a confiança na retoma económica, com uma política monetária eficaz que está a ser transmitida a uma economia real cujo crescimento é cada vez mais forte e abrangente. Aqui, nada de novo. Depois explicou que as pressões deflácionárias foram substituídas por pressões reflacionárias, num comentário que não é novo, mas mais forte e claro do que o costume. Logo a seguir deu um sinal novo – que os obstáculos à subida da inflação, especialmente a queda do preço do petróleo, são temporários e que não devem afetar a tendência de subida da inflação a médio prazo.

O título do discurso já oferecia um indício sobre o sinal mais importante – “acompanhar a recuperação económica”. Draghi explicou que uma política constante poderá ser mais acomodatícia e que o “banco central pode acompanhar a recuperação, ajustando os parâmetros dos instrumentos de política – não para ‘apertar’ a posição da política, mas para mantê-la em larga medida inalterada”.

Não parece muito importante, mas é. Escondida no palavreado opaco e defensivo de banco central, está a palavra-chave: “ajustando”. Para os mercados, que estão há meses à espera que Draghi explique o que vai acontecer quando o programa de compra de 60 mil milhões de euros de ativos da zona euro por mês chegar ao prazo de validade no final do ano e quando é que as taxas de juro vão começar a subir de níveis historicamente baixos, foi o gatilho suficiente.

O euro registou a maior subida face ao dólar em um ano após o discurso, tendo tocado num máximo de 10 meses nos 1,1349 dólares. A yield das obrigações alemãs a 10 anos dispararam 10 pontos base para máximos de um mês para 0,35%, com as principais equivalentes na zona euro a subirem até 13 pontos base. As ações europeias caíram, afetadas negativamente pela perspetiva de taxas mais altas, algo que torna o investimento em bolsa menos competitivo.

Uma mini-euforia então, com os investidores a preverem que Draghi deverá anunciar os ajustes à política já após o calor do verão, em setembro.

Mas, como alguns analistas salientaram, é sempre perigoso tentar interpretar em demasia as palavras de Draghi. O italiano reiterou, afinal, que é preciso ainda um grau considerável de apoio monetário. Explicou que é preciso persistir e ser paciente com a política monetária. Frisou que qualquer ajuste aos parâmetros terá de ser gradual. Acima de tudo, avisou que o BCE vai ser prudente.

Mesmo quando está a aumentar a temperatura nos mercados, Draghi permanece enigmático, equilibrado e cool. Até agora parece estar a resultar. Esperemos que continue.

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