O Benfica no meio do pântano

Só há duas possibilidades: ou o presidente, Luís Filipe Vieira, sabia de tudo, como os e-mails internos parecem indicar – e isso implica o clube, que corre riscos; ou não sabia, e deveria afastar imediatamente o seu até ao momento tão próximo colaborador Paulo Gonçalves

O Benfica, como maior clube português, não deveria estar sujeito a um processo como este da ‘Operação e-Toupeira’, suspeito do crime de tentar espiar a Justiça, e através dela os processos que envolvem a principal concorrência nacional, FC Porto e Sporting, em benefício próprio. Só há duas possibilidades: ou Luís Filipe Vieira sabia de tudo, como os e-mails internos parecem indicar – e isso implica o clube, que corre riscos; ou não sabia, e tem de afastar imediatamente o seu até agora tão próximo colaborador Paulo Gonçalves.

Repare-se: em causa estão suspeitas de prática de crimes como corrupção ativa e passiva, acesso ilegítimo, violação de segredo profissional, falsidade informática e favorecimento pessoal. Foram emitidos, só nesta operação, 28 mandatos de busca em cinco cidades de Portugal.

Neste caso, grave, gravíssimo, não há espaço para momentos pseudo-descontraídos, mais ou menos encenados, como aquele em que o presidente do Benfica afirmou, sorridente e em passo de corrida: “Tudo o que sei é pelos jornais”. É uma reação deprimente, quase infantil, de alguém que não sabe o que dizer, sobretudo quando é do conhecimento público que, neste processo, como infelizmente para o clube em outros, os investigadores têm passado dezenas de horas à volta dos computadores da SAD do Benfica e em buscas em instalações do clube e de alguns dos seus dirigentes e colaboradores.

Se aquilo que Luís Filipe Vieira tem a dizer sobre o processo ‘e-Toupeira’ é apenas isto, e com esta descontração, a conclusão é óbvia: o Benfica não está bem. Os adeptos e simpatizantes do clube têm aqui razões para estarem preocupados, sobretudo quando este momento se cruza com a chegada do tempo das decisões desportivas no futebol.
O que mais surpreende, se colocarmos este caso em perspetiva, é a quantidade de investigações em que o Benfica tem estado envolvido, desde o processo dos ‘vouchers’ e ‘e-mails’ ao ‘Lex’, que também o atinge de forma indireta.

Não há como fugir ao tema: Luís Filipe Vieira não tem sido criterioso a escolher alguns dos seus colaboradores, desde José Veiga (que estava nessa altura acompanhado de Jorge Gomes e Alexandre Pinto da Costa), ao juiz Rui Rangel, passando por Paulo Gonçalves. E podia citar outros. O caso de Paulo Gonçalves é paradigmático por ter chegado a conselho de Veiga, com quem trabalhara de perto na época do título nacional do Boavista. O mesmo Veiga que é figura central do processo principal, ‘Operação Atlântico’, do qual se destacou a certidão que deu origem ao ‘Lex’.

Este caso do Benfica, como outros que já envolveram clubes diferentes, é igualmente bem elucidativo de uma doença que anda à solta no futebol em Portugal: aquela que gera o convencimento de que para ganhar é preciso andar de braço dado com a batota, meta ela árbitros, delegados técnicos, pessoas que apliquem os regulamentos de Justiça ou Disciplina, empresários ou outros agentes. Agora até vale espiar a Justiça!

Está na hora de limpar esta indústria, que já basta estar ameaçada pela ganância dos vigaristas das apostas desportivas – e temos exemplos disto a correr em Portugal.

Não é só a tutela governamental, como sugere a secretária-geral adjunta do PS, Ana Catarina Mendes, que deve intervir. Também da Liga e da FPF têm de vir palavras e ações concretas. O nosso futebol, a nível doméstico, embora hoje não queira generalizar e trazer aqui outros exemplos de outros clubes e outras pessoas, está transformado num pântano. Os clubes elegem e veneram gente sem cultura, sem educação, pobres diabos que despertam os mais perigosos sentimentos nas massas de adeptos estupidificados pela clubite, de quem depois esses próprios dirigentes se tornam reféns. É uma bola de neve a rolar há demasiado tempo. Perante ela, quem tem princípios, e os defende, é considerado ingénuo e logo excluído. Os ‘espertos’ são reconhecidos pela capacidade de vomitarem insultos e de participarem em ‘coisas’ como esta de que é suspeito Paulo Gonçalves. A qualidade de intervenção dos gabinetes de comunicação são outra prova do que digo. E até nisso se pode perceber como o Benfica de Luís Filipe Vieira está intranquilo: nem pela comunicação tem sido capaz de explicar o que quer que seja aos seus adeptos. Até quando, Luís Filipe Vieira?

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