O medo de dizer não à Banca

Gerada pela falta de educação económico-financeira e por uma cultura histórica de receio da banca, a incapacidade de muitas empresas em dizer não, às pressões efetuadas pelos bancos, tem resultado em más práticas de gestão de tesouraria, num ciclo de falências desnecessárias e na reduzida recuperabilidade dos créditos concedidos. O problema Ao longo dos últimos […]

Gerada pela falta de educação económico-financeira e por uma cultura histórica de receio da banca, a incapacidade de muitas empresas em dizer não, às pressões efetuadas pelos bancos, tem resultado em más práticas de gestão de tesouraria, num ciclo de falências desnecessárias e na reduzida recuperabilidade dos créditos concedidos.

O problema
Ao longo dos últimos anos, com o agravar do clima económico-financeiro, grande parte das empresas portuguesas, com destaque para as PME, têm vindo a apresentar resultados decrescentes e negativos, acompanhados muitas das vezes por constrangimentos de tesouraria.
Para agravar a situação, a crise instalada no sector bancário provocou uma diminuição da oferta de crédito às empresas, negando-lhes o acesso a um dos instrumentos que, durante muito tempo, lhes permitiu sobreviver em momentos de maior pressão financeira.
Adicionalmente, para além desta redução de financiamento, tem-se vindo a verificar um esforço suplementar de recuperação dos créditos por parte do sector bancário, com vista a reverter uma parcela das provisões/imparidades registadas e minimizar o incumprimento futuro.
Deste modo, sem acesso a financiamentos bancários adicionais e a sofrer pressão por parte dos bancos para reembolsar as linhas de crédito contratadas e em atraso, as empresas deparam-se com um dilema – pago aos meus fornecedores e ao Estado ou reembolso os meus financiamentos bancários?

A resposta encontrada
Invariavelmente, sem se aperceberem que estão a agir contra os seus melhores interesses, as empresas têm vindo a optar pela segunda hipótese, deteriorando assim a sua relação com os fornecedores e precipitando-se para uma situação de redução de descontos, solicitações de pronto pagamento e até cessação de fornecimentos.
Deste modo, uma decisão que surgiu do receio de enfrentar a banca e evidenciar a necessidade de reescalonar o pagamento de juros e de capital, pode projetar uma Empresa para um ciclo vicioso que resulta na sua falência, acabando por prejudicar os acionistas, os fornecedores e por fim o sector bancário.
Por outro lado, e surpreendentemente, a atitude demonstrada pela maior parte dos bancos (que felizmente se encontra a mudar lentamente) nem sempre tem ido neste sentido. A necessidade de garantirem o reembolso do crédito de curto prazo, põe em causa as operações correntes das empresas, que se sentem pressionadas para a adoção de más práticas de gestão, comprometendo muitas vezes o reembolso dos restantes créditos no médio-longo prazo.
Mais ainda, pela pressão sobre as empresas resultar no atraso do pagamento aos seus fornecedores, esta abordagem acaba por solucionar um problema com a criação de outros, uma vez que que em muitos dos casos estes fornecedores são também clientes do mesmo banco.

A solução
Posto isto, numa fase inicial, deverá potenciar-se uma atitude menos agressiva da banca aliada a uma maior educação/cultura financeira das empresas, para que, numa fase posterior, seja possível negociar e acordar prazos de reembolso em linha com a capacidade de cada empresa fazer face ao seu serviço de dívida, com base nos fluxos gerados pela sua atividade. As empresas terão, assim, hipótese de se focar na melhoria das operações no curto-médio prazo para que, no médio-longo prazo, restituam os créditos em atraso, reequilibrando o seu balanço.
Este entendimento (equilíbrio) entre os objectivos dos setores bancário e empresarial, é fulcral para a diminuição do número de falências e para a potenciação da produtividade das empresas.

 

André Vilaça
Supervisor de Corporate Finance – Baker Tilly

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