Um Portugal-Espanha

A Espanha de Lopetegui possui no meio do campo uma quase inacreditável riqueza; Fernando Santos, nas mesmas posições, conta, por enquanto, com muitas incógnitas e, até, desaparecimentos em combate. Ainda há tempo, é certo, mas as dúvidas nesta zona são muitas

A semana das seleções mostrou uma Espanha de novo com inúmeras soluções, como no período dourado de Aragonés e Del Bosque, de 2008 a 2012 – o dos dois títulos europeus e um mundial. Lopetegui tem Isco, Asensio, Koke, Thiago Alcantara, Iniesta, uma riqueza ímpar no centro do campo. É um luxo surpreendente aplicar 6-1 à Argentina. Mesmo com Messi ausente, não é para todos. E os espanhóis, que no Mundial estarão no mesmo grupo de Portugal, não contaram com David Silva e Busquets, dispõem de Saúl e Parejo no banco, dispensam Mata e quase nem se lembram já de Cazorla, prematuramente afastado da alta competição pelas graves e sucessivas lesões.

É exatamente o contrário de Portugal, equipa na qual Fernando Santos tem três meses de incógnitas pela frente. E essas, ao contrário do que acontece com Espanha, estão quase todas no meio-campo.

Quando faltam, ao mesmo tempo, William e Danilo, a seleção perde a bússola. Comparando com o Europeu de França, a equipa ainda não tem em Moutinho, mas sobretudo em Adrien e João Mário, os mesmos jogadores influentes dessa competição inesquecível. Estão fora de forma. Precisam de jogar mais nas suas equipas. Chegarão três meses?

O caso de André Gomes até aqui parece um mistério do domínio do sobrenatural. E, assim, Manuel Fernandes e Bruno Fernandes, sobretudo este, parecem sérios candidatos a vagas, principalmente porque já não há Renato Santos (outro desaparecido em combate) e Rafa (que ainda será hipótese?). Certo, apenas, é que o novo Nani se chama Gelson e Quaresma continua igual a Quaresma, melhor a agitar do que a utilizar de início. A peça-chave é Bernardo Silva. A seleção precisa do talento por ele demonstrado no Mónaco de Leonardo e no City de Guardiola. Essa aparição é cada vez mais urgente.

Ainda há tempo é certo, mas as dúvidas nesta zona são muitas. E, na defesa, faltando Pepe, dando folga a Patrício, dois dos baluartes do título europeu, a equipa perde estabilidade. Há muita coisa a correr mal aos jogadores, e por via disso à equipa.

No que respeita ao jogo com a Holanda, existe, no entanto, uma lição positiva a tirar: quando acabou a experiência daquele meio-campo lento, quase de futebol de salão, num tic-tac sem resquícios de dinâmica, e de jogadores fora do sítio deles, as coisas melhoraram. Na segunda parte, mesmo com dez, depois do lance em que Cancelo voltou a mostrar falta de maturidade, Portugal recuperou, foi melhor e poderia ter marcado duas ou três vezes, sobretudo porque jogou com os médios nas suas melhores posições e teve avançados: Guedes e André Silva, na companhia de Ronaldo; depois também Gelson, melhor que Quaresma. Não se ganha a jogar para o lado, como Fernando Santos bem sabe.

Os jogos com Egipto e Holanda recordam-nos de que estamos melhor do que no tempo de Moutinho-Veloso-Meireles, mas longe da época dourada de Rui Costa, Figo, Deco, até Maniche. Se nesta zona do campo as notícias não forem boas nos próximos tempos, haverá aqui um problema grave, porque Ronaldo, sendo fantástico a marcar golos, já não tem a participação criativa e a influência de antigamente.

Voltando ao Espanha-Portugal: Fernando Santos conta na frente com Ronaldo, André Silva e Gonçalo Guedes. É muito grave para a equipa a ‘perda’ de Nani, agora suplente da Lazio, emprestado pelo Valência, onde terá iniciado o ocaso de uma brilhante carreira, terceiro jogador em internacionalizações por Portugal, com 112 presenças, apenas batido por Figo (127) e Ronaldo. Do outro lado, Lopetegui possui Rodrigo (que marcou no empate com a Alemanha), Diego Costa, Yago Aspas. Pode mesmo dispensar Morata e outros grandes marcadores de golos espalhados pela Europa.

Em todas as dimensões, a manta é mais curta do lado português e convém ter consciência disso, a começar pela imprensa desportiva nacional que todos os dias descobre génios e foras-de-série onde apenas há bons jogadores e projectos interessantes.

O percurso da seleção no próximo Mundial, tal como em França-2016, tem de ser delimitado pelo realismo. Não há alternativa, se a equipa quiser optar a um bom resultado, a uma dinâmica solidária e ao jogo coletivo, complementado com a recuperação dos jogadores por enquanto em sub-rendimento.

Outras notas:

– Os jogos destes dias evidenciaram, ainda, que o campeão mundial de futebol dificilmente deixará de sair do lote habitual: Alemanha, Brasil, Espanha e França, os principais candidatos;

– Depois desses quatro países não se descarte nunca a Argentina, a qual, apesar de Sampaoli ter um enorme campo de recrutamento, se assemelha muito ao conjunto de Fernando Santos: tem uma equipa envelhecida em algumas posições (como a de Mascherano), demasiado dependente de Messi, que precisa de todos os seus melhores e na melhor forma. Restam a Bélgica e, apesar de tudo, Portugal. Tudo o que seja fora disto, seria surpresa, com o devido respeito a Inglaterra e Uruguai, duas selecções de países que já ganharam o título;

– O Brasil, sem Neymar, venceu a Alemanha. Os actuais campeões do mundo jogaram sem vários titulares mas este Brasil já tem treinador. Tite não tem nada a ver com o folclórico Scolari. Faz, como se vê, uma enorme diferença.

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