O que os políticos disseram (e prometeram) sobre incêndios florestais no passado recente

O flagelo dos incêndios florestais em Portugal repete-se ano após ano, tal como as declarações de políticos (sobretudo os governantes) assegurando que no verão seguinte tudo será diferente, para melhor. Também há piruetas retóricas na transição entre Governo e oposição. Promessas, muitas promessas. E desculpas.

HO/Reuters

“O país deve colocar como prioridade da sua acção o repovoamento florestal, um tratamento mais moderno e eficaz da nossa floresta. Há décadas que todos falam da necessidade de termos uma floresta diferente. E há décadas em que tudo fica na mesma. Encarreguei o ministro da Agricultura, na sequência do programa de ação florestal aprovado pelo Governo em março, de apresentar, até finais de outubro, um conjunto de propostas e medidas concretas para a reforma da floresta.”

Durão Barroso, primeiro-ministro, 12/08/2003

 

“Portugal está mais preparado do que nunca para combater fogos.”

Durão Barroso, primeiro-ministro, 13/05/2004

 

“Com este programa, o país vai ter os melhores soldados na defesa da natureza e das florestas.”

José Sócrates, primeiro-ministro, 29/04/2005

 

“Os fundos comunitários vão ser utilizados para desenvolver políticas de prevenção e premiar os proprietários que não desprezam o que são as suas responsabilidades na prevenção dos riscos de incêndios.”

José Sócrates, primeiro-ministro, 13/05/2005

 

«Desde 2006 temos feito uma revolução tranquila e hoje a Proteção Civil tem uma doutrina, tem meios, tem uma estratégia para enfrentar este combate. O país está preparado e nós podemos confiar na nossa Proteção Civil.”

Rui Pereira, ministro da Administração Interna, 28/07/2010

 

“O que é importante destacar é que a capacidade operacional do dispositivo de combate aos incêndios tem-se revelado muito positiva.”

José Sócrates, primeiro-ministro, 13/08/2010

 

“A maldição do eucalipto, que vem dos anos 80, merecia ser revisitada. A maior parte do que se diz sobre a sua relação com a água, com os solos, com a biodiversidade, com os nutrientes, não tem fundamento desde que olhemos para o eucalipto como uma espécie como as outras, que tem de ser bem gerida. Um povoamento de eucalipto bem gerido não cria esses problemas.”

Francisco Gomes da Silva, secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, 25/03/2013

 

“Morrem bombeiros porque as condições em que se processa a luta contra o fogo nesse tipo de terrenos são extraordinariamente difíceis.”

Miguel Macedo, ministro da Administração Interna, 23/08/2013

 

“O esforço extraordinário que bombeiros, forças de segurança, GNR, estão a fazer neste momento, é um esforço extraordinário. Mas convém não esquecer que esse trabalho só dará frutos no dia em que do lado dos serviços do Ministério da Agricultura for feito o trabalho que é necessário fazer na floresta portuguesa.”

António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, 25/08/2013

 

“Vivemos tempos de dificuldades financeiras graves, mas isso não impediu que se mantivesse todo o esforço de despesa orçamental que foi feito em anos anteriores no combate aos incêndios. Nós não aliviámos nem nos descuidámos nos meios que estão disponíveis para intervenção no terreno.”

Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro, 27/08/2013

 

“Quando alguém diz que o Estado gere mal a floresta estou à espera que me diga: qual, onde e quando. Os dados que tenho não são esses. A principal mancha florestal propriedade do Estado que fica na região Centro, que costumamos chamar erradamente Pinhal de Leiria – já que é um conjunto de matas – representa 50% das matas nacionais. Essas matas são visitadas anualmente por inúmeros gestores florestais do mundo e é dada como um exemplo de gestão florestal.”

Francisco Gomes da Silva, secretário de Estado das Florestas e do Desenvolvimento Rural, 31/08/2013

 

“A prevenção deve ser feita ao longo do ano, a limpeza de todos os espaços não é cumprida devidamente.”

Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro, 09/10/2013

 

“Nós estamos melhor, com certeza que temos sempre a preocupação de trabalhar mais e melhor. O clima é um inimigo de Portugal nesta matéria mas tudo o que pudermos fazer de prevenção e sensibilização das populações para os comportamentos que devem ter e não ter é muito importante. (…) Esse é um trabalho que tem que ser feito sempre e continuamente, os comportamentos mudam, temos esse exemplo, também aqui se podem mudar. Precisamos de insistir, insistir e insistir.”

Assunção Cristas, ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território, 07/04/2015

 

“Sabemos que as condições meteorológicas constituem uma variável importante no número de ocorrências de fogos florestais, mas não é legítimo responsabilizar apenas as condições meteorológicas como o Governo [PSD/CDS-PP] está a tentar fazer.”

Pedro Filipe Soares, dirigente do BE, 12/08/2015

 

“Os incêndios evitam-se reestruturando a nossa floresta. Uma floresta mais sustentável, um ordenamento florestal mais resiliente às ameaças é uma prioridade política para este Governo, que vai ter início quanto possível, para que a floresta seja uma fonte de riqueza e não uma ameaça às populações. (…) Não é por haver vento ou calor que há incêndios.”

António Costa, primeiro-ministro, 09/08/2016

 

“Há uma ideia muito errada, que é a ideia de que se investe pouco na prevenção [de incêndios florestais], porque se gasta muito no combate. Pois eu digo-lhe o contrário, gasta-se muito no combate, porque se gasta pouco na prevenção. É necessário que se passe a investir na prevenção e é isso que vai passar a ser feito.”

António Costa, primeiro-ministro, 14/08/2016

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